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3.2. Três Tradições sobre a Criação

No dia 7 foram apresentadas três tradições sobre a criação por quatro especialistas. A tradição budista foi apresentada pela monja Cláudia Coen Murayama, a tradição judaica pelo judeu Alexandre Goes Leone e a tradição cristã pelo luterano Nélio Schneider e pelo jesuíta Johan Konings.

A monja zen budista Cláudia Coen Murayama da Comunidade Budista Soto Zenshu da América do Sul e do Templo Busshinji de São Paulo nos apresentou um breve histórico do Budismo, das suas principais correntes e alguns de seus conceitos básicos, como os Três Tesouros (Buda, Dharma e Sangha), os Selos da Lei [Impermanência, Não-Self (Não-Eu, Vazio e Não-Ser), Sofrimento, Nirvana], a Lei da Origem Interdependente (Causalidade), as Quatro Nobres Verdades e as classificações para descrever existência material e mental (cinco agregados, doze campos dos sentidos e dezoito elementos da existência).

"O Universo é uma maravilhosa jóia redonda": citando esta frase do famoso mestre zen budista da China Gensha Shibi (835-908), que dá título a um dos capítulos do Shôbôgenzô, escrito pelo fundador da Escola Soto Zen no Japão, Mestre Zen Eihei Dôgen (1200-1253), escola a que pertence, Cláudia explicou que no Budismo não existe a noção de um Deus Criador, Controlador, Juiz ou Redentor, sendo a interdependência da existência a Lei Verdadeira. Nós criamos o Universo em que vivemos e somos responsáveis por sua organização. Nós temos dentro de nós a memória de todo o Universo (um paralelo possível com o DNA?). Nós somos a vida deste Universo em uma de suas múltiplas manifestações e constantes transformações. Nossas ações, palavras e pensamentos são alternadamente e/ou simultaneamente causas, condições e efeitos modificando e transformando o Universo. Por isso o Budismo se recusa a responder a questões ontológicas e afirma que é no mundo dos fenômenos - temporal e espacial - compreendido pelas sensações, percepção e consciência, que a existência é reconhecida e julgada[10].

O budismo progressista proposto por Cláudia afirma que para se ler os textos do Buda histórico, o primeiro Buda, que viveu há 2600 anos atrás, é preciso fazer uma hermenêutica adequada, distinguindo entre a essência de seu ensinamento e as circunstâncias histórico-sociais da época. Buda, na sua época, rompeu com o sistema de castas na Índia e com várias discriminações então existentes, deixando-nos uma lição importante, cada vez mais pertinente neste mundo em conflito de final de milênio.

Em seguida, o judeu Alexandre Goes Leone, de São Paulo, partiu do relato de Gênesis 1 para apresentar a interpretação judaica da criação baseado em três fontes rabínicas: o Midrash, o sábio medieval Maimônedes e, especialmente, a interpretação mística baseada no Zohar, que vê a criação como um processo constante e o ser humano como parceiro de Deus na criação.

Os místicos quando falam da criação ou "obra primordial" dizem que Deus, na Torah, possui 10 nomes, que são as 10 manifestações da divindade, não sua essência que é inatingível pelo pensamento. Deus é o "nada" de onde tudo surge, é o infinito, é o "Deus atrás das cortinas". Os 10 nomes são o único meio de se chegar até Deus. Deus não é um ser entre os seres, por isso só é atingível através de sua atividade. Os 10 nomes são as 10 irradiações vindo do "nada". No Zohar se discute, nessa linha, se a criação é criação ou emanação do divino.

Nélio Schneider, luterano e Doutor em S. Escritura, da Faculdade de Teologia de São Leopoldo, falou, por sua vez, da criação em Paulo através da análise do texto de Rm 8, 18-25. Destacou quatro aspectos: a) a dimensão holística da renovação da realidade, a inclusão da criação como um todo no projeto de libertação de Deus; b) a solidariedade entre criação e humanidade no sofrimento causado pelo pecado humano; c) a solidariedade entre criação e humanidade na esperança da libertação do pecado e conseqüente redenção tanto da humanidade como de toda a criação, tendo como base a concepção da ressurreição de Cristo como nova criação; d) a noção paulina de graça e justiça como postura adequada diante do Mysterium Creationis.

Nélio propôs o seguinte: Com Paulo “proponho ensaiar uma nova maneira ‘ecoteológica’ de ver as coisas: tomando-nos, os humanos, como parte destacada, mas não essencial, no todo da criação de Deus e não como deuses a dispor de tudo a nosso bel-prazer e, com isso, cortando o galho no qual estamos sentados"[11].

Johan Konings, por outro lado, abordou a temática da criação nos textos joaninos. Caracterizou, em primeiro lugar, as teologias joaninas, com as semelhanças e as diferenças mais visíveis existentes entre o quarto evangelho e o Apocalipse. E tratou da visão sobre "o mundo" em João e no Apocalipse, especialmente a partir do prólogo do evangelho.

No prólogo, segundo Konings, o autor nos remete a Gn 1,1, às obras primordiais, que são ligadas à "Palavra" (Verbo, lógos), como nos escritos sapienciais: as obras e as palavras de Jesus são as obras e as palavras de Deus. A "Palavra", que é Jesus, é a mediadora da criação. No prólogo reconhecemos uma articulação cristocêntrica de toda a criação, assim como em outros textos esparsos do evangelho. Konings chamou a atenção para a lógica que está presente no evangelho de João sobre o viver no mundo, onde cósmos tem quase sempre sentido antropológico e não cósmico. Viver no mundo é bom ou mau dependendo da postura do cristão em relação a Jesus. O cristão está no mundo e não é do mundo: o ser do mundo (pertencer ao mundo) não é o âmbito de Jesus que pertence ao Pai (Cristo e os seus pertencem a Deus).

Konings nos lembrou também de que a "escatologia presente" de João dá uma boa pista para a teologia da criação: o novo céu e a nova terra já estão presentes e somos responsáveis por eles. Segundo João e o Apocalipse podemos amar o mundo físico, cósmico, mas não o mundo do orgulho humano da sociedade do Império Romano. Finalmente, Konings concluiu que João não idolatra a criação, pois não está preocupado com a conservação desta criação, mas com a nova criação. Sua visão é radicalmente cristocêntrica.

3.3. A Perspectiva da Teologia Sistemática

No dia 8, Juan Noemi Callejas, teólogo da PUC de Santiago do Chile, tratou das possibilidades de uma abordagem teológico-pastoral da realidade enquanto criação de Deus. O filósofo da Universidade Federal do Ceará Manfredo Araújo de Oliveira e o também filósofo da PUC-SP Eduardo Rodriguez da Cruz debateram com Juan Noemi a temática apresentada. Finalmente, João Batista Libânio e Juan Noemi fizeram uma tentativa de síntese de todo o Congresso.

Juan Noemi falou inicialmente da centralidade que adquiriu o tema da criação na teologia atual através do deslocamento terminológico que se pode observar na teologia sistemática. Em seguida tentou uma descrição da teologia da criação, citando muitos teólogos alemães, como Metz, Kasper, Pannenberg, Rahner ou Ganoczy, em relação a três coordenadas: histórico-salvífica, ecológica e científico-técnica. Finalmente, propôs requisitos fundamentais para pensar uma teologia da criação hoje, especialmente a) pensar Deus como um acontecimento escatológico; b) pensar uma cristologia cósmica e c) pensar a fé "na razão".

Em todo o seu discurso notou-se a dificuldade da teologia em elaborar um discurso coerente sobre a realidade onde o saber empírico domina e onde a racionalidade é "procedimental", como notou Manfredo de Oliveira. Sentiu-se também uma ausência flagrante da teologia latinoamericana na sua fala, como se uma teologia da criação jamais tivesse sido pensada neste continente. Do mesmo modo, o mundo dos pobres e dos excluídos não foi contemplado com uma palavra sequer da teologia sistemática sobre a criação que se propôs "uma abordagem teológico-pastoral".

Tanto Manfredo quando Eduardo Cruz procuraram, em seguida, no debate, chamar a atenção para uma filosofia e uma teologia da natureza que devem falar do absoluto, como meio válido para se quebrar a barreira existente entre o discurso científico e o discurso filosófico. E Eduardo Cruz concluiu que podemos dialogar com a ciência através dos símbolos que aparecem nos mitos[12].

4. Elementos para uma Espiritualidade Holística

Na manhã do dia 9, último dia do Congresso da SOTER, o conhecido escritor Frei Betto falou sobre a mudança de paradigmas ocorrida na física com as descobertas da mecânica quântica nos anos 20, especialmente a partir do princípio da indeterminação ou incerteza de Werner Heisenberg e do princípio da complementaridade de Niels Bohr. E propôs uma nova visão de realidade que supere os dualismos presentes em nosso saber e fazer, convocando-nos rumo a uma visão holística do universo que integre mente e espírito, observador e observado, sujeito e objeto como aspectos de um mesmo existir.

Segundo a ementa de sua palestra, "Os paradigmas da modernidade sustentam-se na filosofia de Descartes e na física de Newton. Racionalismo e determinismo seriam as chaves para se chegar ao conhecimento científico, livre de interferências subjetivas, preconceitos e superstições. A transposição da mecânica clássica às ciências sociais sugeriu que um determinismo histórico regeria as sociedades para formas mais perfeitas de convivência humana, porém a queda do Muro de Berlim derrubou também tal aplicação.

Para não cairmos no caos e acaso, torna-se necessário formular novos paradigmas levando em conta dois parâmetros fundamentais derivados da física quântica: o princípio da indeterminação ou da incerteza, de Werner Heisenberg, e o princípio da complementaridade, de Niels Bohr. Heisenberg pretendeu demonstrar que jamais poderemos conhecer tudo sobre os movimentos de uma partícula. Pode-se conhecer a posição exata de uma partícula ou a sua velocidade, mas não as duas coisas ao mesmo tempo. As imutáveis e previsíveis leis da natureza em sua dimensão macroscópica não se aplicam à dimensão microscópica. Isso significa que jamais teremos pleno conhecimento do mundo subatômico. No mundo quântico, a natureza é, portanto, dual e dialógica, como ressaltava Bohr, numa interação de complementaridade. Articulou as duas concepções que, à luz da física clássica, são contraditórias e aplicou tal princípio a outras áreas do conhecimento. Sobre essa interação, entre observador e observado ergue-se a visão holística do universo: há uma íntima e indestrutível conexão entre tudo o que existe. Ocorre uma migração de sentido que nos faz pensar que a incerteza quântica se faz presente não só nas partículas subatômicas. Revoluciona nossa percepção da natureza e da história.

O princípio da indeterminação aplica-se também à história. Em cada um de nós essa dimensão dual também se manifesta, sobrepondo-se, como análise e intuição, razão e coração, inteligência e fé. Não há leis ou cálculos que prevejam o que fará um ser humano. A ótica quântica resgata a liberdade humana e reinstaura o ser humano como sujeito histórico, superando toda tentativa de atomização e realçando a sua inter-relação com a natureza e com os seus semelhantes. Na prática ainda estamos longe da unidade. A pluridisciplinaridade, rumo à epistemologia holística, permanece como desafio e meta, mas há sinais de otimismo: a cartesiana medicina ocidental abre-se à acupuntura; na política fala-se cada vez mais em ética; nas religiões recupera-se a dimensão mística; só falta fazer com que o capital esteja a serviço da felicidade humana. Então reencontraremos as veredas do Éden"[13].

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[10]. Cf. a ementa da palestra no Boletim n. 27 da SOTER. Cf. também MURAYAMA, C. C., O Universo na Tradição Budista, em SUSIN, L. C. (org.), Mysterium Creationis. Um Olhar Interdisciplinar sobre o Universo, pp. 143-159.

[11]. SCHNEIDER, N., Solidariedade no Sofrimento e na Esperança. Em Busca da Relação Justa entre o Humano e o Criado Coram Deo, em SUSIN, L. C. (org.), Mysterium Creationis. Um Olhar Interdisciplinar sobre o Universo, p. 179.

[12]. Cf. DE OLIVEIRA, M. A., Questões Sistemáticas sobre a Relação entre Teologia e Ciências Modernas, em SUSIN, L. C. (org.), Mysterium Creationis. Um Olhar Interdisciplinar sobre o Universo, pp. 249-279; DA CRUZ, E. R., Criação e Ciências da Natureza: Um Breve Guia para Teólogos Perplexos, em SUSIN, L. C. (org.), Mysterium Creationis. Um Olhar Interdisciplinar sobre o Universo, pp. 281-299.

[13]. BETTO, Frei, Indeterminação e Complementaridade, Boletim n. 27 da SOTER; cf. também BETTO, Frei, Espiritualidade Holística, em SUSIN, L. C. (org.), Mysterium Creationis. Um Olhar Interdisciplinar sobre o Universo, pp. 301-319.