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O Discurso Sócio-Antropológico: Origem e Desenvolvimento
A bibliografia no final deste artigo foi atualizada em maio de 2010 O objetivo deste artigo é esboçar um panorama da origem e do desenvolvimento de duas ciências sociais que estão sendo hoje muito utilizadas na leitura da Bíblia. Trata-se da Sociologia e da Antropologia Cultural ou Social, somadas no discurso que caracterizamos como Sócio-Antropológico. Em inglês, a terminologia comumente utilizada é “Social-Scientific Criticism”. A parte dedicada à Sociologia está razoavelmente delineada no artigo, enquanto que a Antropologia precisaria ser melhor desenvolvida, mas o pouco conhecimento da área impõe-me, por ora, tais limites. 1. Deslocamentos no Pensamento Europeu do Século XV ao Século XVIIIDo século XV ao século XVIII acontecem dois deslocamentos no pensamento humano na Europa. O primeiro é a passagem da especulação escolástica à filosofia da natureza. A natureza passa a ser entendida e explicada experimentalmente: "O que antes era visto como mero local de tentações para uma alma que aspirasse a recompensas noutro mundo, torna-se objeto de conhecimento científico. Em conseqüência, desenvolvem-se tentativas de estudo experimental dos fenômenos - esboçadas desde o século XIII nas Universidades de Paris e Oxford. Este tipo de investigação é que ganhará contornos definidos com os trabalhos científicos de Leonardo da Vinci (1452-1519) e de outros pensadores, a prenunciar a física de Galileu e Newton, desenvolvida no século XVII. Copérnico (1473-1543) formula a célebre teoria heliocêntrica. Tycho Brahe (1546-1601) prepara o caminho para a descoberta da lei da gravitação universal de Newton"[1]. A natureza, considerada pelo sobrenaturalismo da Idade Média como objeto de medo e de contemplação, torna-se objeto de estudo e de atuação do homem que procura modificá-la para que se adapte melhor às suas necessidades. Surgem, para isso, métodos mais empíricos e precisos, como mencionado acima. Este fenômeno se dá com a ascensão da burguesia, na forma de capitalismo mercantilista. É
importante observarmos que, norteando-se por três princípios fundamentais para
a ciência moderna - 1. É necessário observar os fenômenos tais como eles
ocorrem, sem se deixar perturbar por preconceitos de natureza filosófica ou
religiosa; 2. Toda afirmação sobre os fenômenos naturais deve ser verificada
empiricamente; 3. A matemática oferece ao cientista a linguagem rigorosa de que
ele necessita para descrever a natureza - Galileu
(1564-1642) destrói a anterior concepção do universo como sistema imutável e
hierarquizado, governado por Deus e reduz o universo a um mundo geométrico, a
uma física mecanicista. Em O Ensaiador Galileu
deixa claro que a matemática é a linguagem da física que começa a se
constituir, quando diz: "A filosofia encontra-se escrita neste grande livro
que continuamente se abre O segundo deslocamento se dá quando se passa da análise da natureza para a análise da sociedade. Percebe-se, então, que a organização da sociedade não é natural, mas histórica. Questionam-se, filosoficamente, os fundamentos da sociedade a partir da ótica da nova ordem burguesa. É uma crítica ao poder absoluto, no qual Deus criava, organizava e geria o mundo através da Igreja e de suas leituras da realidade. É de se notar: Descartes (1596-1650) descobre o sujeito pensante autônomo, coloca a consciência como a medida e a forma do ser, marcando uma definitiva virada antropocêntrica[3]. De outro lado, o empirismo inglês do século XVII, representado especialmente por T. Hobbes (1588-1679) e J. Locke (1632-1704), é responsável por uma nova abordagem da questão política. Hobbes e Locke viveram intensamente o processo de consolidação do poder político da burguesia inglesa. Como tão bem explica Tiago Adão Lara, "ao terminar o século XVII, estavam consolidadas as duas correntes modernas de pensamento", o racionalismo e o empirismo. "O Estado substitui a Igreja, na tarefa de marcar os limites da racionalidade, para a convivência humana (...) Nesta sociedade, desvinculada da Igreja, embora ainda religiosa, não é mais à teologia que se vai pedir a última palavra a respeito dos princípios supremos da moralidade e da política, mas, sim, à filosofia, enquanto produção da razão humana. E a filosofia inovava e abria horizontes mais largos. O empirismo rompia com as barreiras tradicionais da cultura. Não era mais a partir do alto, do mundo das essências, mas a partir de baixo, do mundo dos fatos ou dos fenômenos que se devia construir algo de positivo. O Estado, concebido pelo empirismo, é criatura humana, fruto da convenção, destituído de sacralidade, religiosa ou profana. É o próprio homem que dá as cartas de leitura da sua existência e do mundo que o cerca. O homem torna-se, realmente, a medida do seu mundo significativo"[4]. 2. A Síntese Kantiana entre o Empirismo e o RacionalismoMas se Descartes, no século XVII, representa a burguesia progressista pela racionalização (“penso, logo existo”) é Kant, no século XVIII, quem incorpora ao racionalismo os elementos do empirismo inglês (existo como um feixe de sensações organizadas), resultando que o homem pode ser feliz e organizar a sociedade com o uso de sua razão. Não é Deus, através da Revelação, que ordena a sociedade, mas é a própria Razão humana que fornece ao homem os instrumentos políticos para organizar e alcançar a sua felicidade.
Kant (1724-1804), de tradição racionalista, faz uma síntese entre o empirismo inglês e o racionalismo europeu. Nega que o homem possa conhecer algo que transcenda completamente a matéria (solução empirista), mas nega também que a experiência baste para o homem conhecer a matéria (solução racionalista). Afirma que aquilo que conhecemos da matéria, cientificamente, é o que a razão dá à matéria, ou seja, as formas. O Fenômeno torna-se compreensível pelas aplicações das categorias a priori do Espírito. Mas o Espírito não conhece o em si, o noumenon, a essência da coisa: Kant assim interdita a metafísica e fundamenta a física, a ciência por excelência. As questões básicas para Kant são: · como fundamentar, filosoficamente, a nova ciência, ou seja, a física? · como fundamentar a moralidade? Kant é a encarnação filosófica da classe burguesa, confiante no poder demiúrgico do homem: nada melhor do que a concepção de um homem que cria o universo científico e o universo moral, segundo as normas da própria razão, para traduzir a experiência histórica do burguês que descobre, inventa, constrói e domina. Não é mais Deus o fiador do conhecimento científico nem da vida moral. É o homem[5]. Se o idealismo metodológico de Descartes privilegia a razão ante os sentidos e a tradição, o idealismo gnoseológico de Kant privilegia a forma do conhecimento - produto espontâneo da razão - ante a matééria do conhecimento - que é oferecida na sensação[6]. 3. O Idealismo Ontológico de HegelMas é Hegel (1770-1831) o intérprete fiel do momento histórico da Revolução. Ele é o representante máximo do idealismo alemão do século XVIII. A razão é, para ele, uma deusa. A idéia é a totalidade. Tudo o que existe é a exteriorização da idéia. O real é o racional e vice-versa! O idealismo hegeliano é ontológico. O mundo é a explicitação da idéia que lhe é imanente. Hegel
filosofou assim porque viveu plenamente a Revolução Francesa No hegelianismo a ordem estabelecida não retrata mais um plano divino, mas a racionalidade imanente da própria história. História que é palco de lutas entre contrários, fruto da contradição, superando-se sempre (tese, antítese, síntese). Daí a grande novidade hegeliana: a dialética. [1]. Vida e Obra de Bruno, em Bruno, Galileu, Campanella, São Paulo, Abril Cultural, 19782, coleção "Os Pensadores", pp. VII-VIII. Cf. também LARA, T. A., Caminhos da Razão no Ocidente. A filosofia ocidental do Renascimento aos nossos dias, Petrópolis, Vozes, 19862, pp. 26-30. [2]. GALILEU, O Ensaiador, em Bruno, Galileu, Campanella, o. c., p. 119. Cf. ainda Vida e Obra de Galileu, em o. c., pp. 97-98. De Galileu devem ser lidos O Ensaiador (Il Saggiatore de 1623), neste volume citado de "Os Pensadores", e o fundamental A Mensagem das Estrelas (Sidereus Nuncius de 1610), Rio de Janeiro, Museu de Astronomia e Ciências Afins/Salamandra, 1987. Sobre Galileu devem ser lidos KOYRÉ, A., Do Mundo Fechado ao Universo Infinito, Rio de Janeiro, Forense-Universitária, 19862, pp. 90-100; Idem, Estudos Galilaicos, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1986; PAGANI, S. M. & LUCIANI, A., Os Documentos do Processo de Galileu Galilei, Petrópolis, Vozes, 1994. [3]. De Descartes devem ser lidos o famoso Discurso do Método, de 1637, e outros textos, em DESCARTES, São Paulo, Abril Cultural, 19833, Coleção "Os Pensadores". Em o Discurso do Método Descartes formula a proposta de um novo método, baseado no procedimento da matemática. Esse método deverá servir "para bem conduzir a própria razão e procurar a verdade das ciências". O título original do livro, com efeito, é: Discours de la Méthode pour bien Conduire Sa Raison et Chercher la Vérité à travers les Sciences. [4]. LARA, T. A., Caminhos da Razão no Ocidente, pp. 49-50. [5]. "O que são as Luzes? A saída do homem de sua menoridade e pela qual ele próprio é responsável. Menoridade, isto é, incapacidade de se servir de seu entendimento sem a direção de outrem, menoridade pela qual ele é responsável, uma vez que a causa reside não em um defeito do entendimento, mas numa falta de decisão e coragem em se servir dele sem a direção de outrem. Sapere aude! Tenha a coragem de te servir de teu próprio entendimento. Eis a divisa das Luzes" diz KANT, O que é a Aufklärung? De Kant deve ser lida pelo menos a Crítica da Razão Pura, de 1781, em KANT (I), São Paulo, Abril Cultural, 19832, Coleção "Os Pensadores". Mas são importantes também a Crítica da Razão Prática, de 1788, e a Crítica da Faculdade de Julgar, de 1790. [6]. Cf. LARA, T. A., Caminhos da Razão no Ocidente, pp. 60-64. Copyright © 1999-2012 Airton José da Silva. Todos os direitos reservados. Mapa do Site - Sitemap.
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