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7. O PopulismoAinda um último obstáculo, dos mais insistentes, precisa ser abordado. É o conhecido populismo. Vários estudos sociológicos chamam a atenção para as características autoritárias que, historicamente, marcam as relações do Estado com a sociedade no Brasil. Como na sociedade brasileira não se formaram grupos autônomos capazes de
formular e canalizar institucionalmente seus interesses específicos, a O Estado brasileiro exerce uma óbvia política de clientelismo. As elites brasileiras, que sempre consideraram o Estado como negócio seu, agem de modo paternalista. O paternalismo conduz à ideologia da benevolência e, concretamente, ao favor como forma de ação política. Daí que, com a emergência política das massas populares, especialmente a partir de 1945, são criadas as condições para o aparecimento do populismo. O populismo surge:
Observam os sociólogos que nas sociedades em processo de desenvolvimento capitalista, como a brasileira, as camadas médias da população são sempre numerosas. Só que, pela lógica da expansão capitalista, elas tendem à condição de massa, enquanto os indivíduos são desvinculados de seu meio social de origem e esmagados pelas expansão dos grandes capitais. Nesta importância histórica das camadas médias da população está a raiz da demagogia populista[14]. É assim que o populismo permanece limitado pelo horizonte das camadas médias, traindo as classes populares. Na sua visão, historicamente limitada, o mundo é constituído por "pobres" e "ricos". A única maneira do pobre (leia-se, neste caso, "classe média") ascender socialmente é através do paternalismo do Estado, que é um negócio bem sucedido das elites.
É que o populismo tem sua contrapartida religiosa e se faz presente também na Igreja. Quando a leitura dos textos proféticos pára nos seus aspectos religiosos e sacraliza a figura do profeta, ela se torna vítima das atrações do populismo. À medida em que a Igreja dá voz e vez ao povo através da intervenção da consciência crítica hierarquizada e institucionalizada, ela se legitima em sua prática pastoral pelo processo de identificação do "povo brasileiro" com "povo de Deus". Esta atitude é paralela à do populismo político que explora a idéia de unidade nacional para manter o domínio da burguesia sobre as classes populares. Os dois jogos se completam e se amparam na relação entre o político e o religioso. Esta atitude soteriológica tem suas regras: cada ato humano, mais ou menos político, pouco importa, é transfigurado pela leitura teológica que o insere no plano divino global de salvação do homem. De certo modo, é a Igreja recriando a sociedade brasileira mediante o filtro teológico. Roberto Romano vê um jogo hegeliano nesta atitude: a Igreja sempre se vê como essência desenvolvida e idêntica a si mesma (instituição de origem divina) exteriorizada no outro (o povo).
Neste caso, a leitura dos profetas é usada pela hierarquia como "chave sagrada" para entrar na consciência do povo e lhe dar a medida da realidade. As conseqüências políticas de tal atitude soteriológica são evidentes: moderniza-se a estrutura eclesiástica para atingir a estrutura social e "salvar" o povo... salvando-se o povo, salva-se a Igreja... Esta tendência já se tornou dominante hoje na Igreja, à medida que o processo de restauração neoconservador em curso está afastando a Igreja dos problemas reais do povo e renovando sua tradicional aliança com a burguesia. ConcluindoPara terminar, gostaria de fazer menção de uma experiência pessoal, acontecida em mediana cidade do interior de Minas Gerais no final da década de 70. Ao mesmo tempo em que, como exegeta assessorando a Igreja local, lia os profetas com pessoas das camadas médias da cidade, dirigia o semanário mais influente naquele meio, também pertencente à Igreja. Através do jornal pude chegar à cidade real, com seus interesses e conflitos, enquanto a leitura dos profetas, na verdade, ocultava a cidade real, via discurso de legitimação. Explico: os conflitos eram perfeitamente aceitáveis... no passado! Serviam, aliás, para ocultar os conflitos do presente, estes "inexistentes", porque intocáveis para as camadas médias. Eram sistematicamente camuflados na prática política e na prática religiosa. Houve reação (repressiva e violenta - estávamos em pleno regime militar instituído em 1964) ao debate promovido pelo jornal, não à aparentemente mais radical leitura dos profetas. Esta experiência comprova, mais uma vez, ser necessário o desenvolvimento de uma análise social prévia à atuação profética. Não se pode hoje, diante da complexidade da realidade, contentar-se com uma apreensão imediata da realidade social. Aliás, as ciências sociais nos ensinam que a realidade social não é o que aparenta ser. A sua fachada é maquiada para ocultar o real que está no processo de geração da riqueza. Bibliografia
[13]. Retomo aqui alguns elementos de meu artigo A denúncia profética da corrupção (Salmo 12), em Vida Pastoral 141 (julho-agosto de 1988), São Paulo, Paulus, pp. 2-6. [14]. Cf. WEFFORT, F., O populismo na política brasileira, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 19863, p. 34. [15]. ROMANO, R., Brasil: Igreja contra Estado. Crítica ao populismo católico, São Paulo, Kairós, 1979, p. 38. Cf. também as pp. 183-223. |