Ler os Profetas
Home Up Articles Biblical Languages Book Reviews History of Israel Links

Home
Up
Ler os Profetas

 

 

 

 

 

 

 

Mas existe outra forma de romantismo, mais atual, que se manifesta após a ruptura de 1848, quando o capitalismo não consegue mais ocultar as suas contradições que se tornam explosivas com o surgimento do proletariado como classe autônoma. O pensamento burguês torna-se, então, uma justificativa teórica do existente. O pensamento torna-se cada vez mais imediatista, centrado nas aparências fetichizadas da realidade[9].

O processo de fetichização ou alienação ocorre quando as relações sociais entre os homens aparecem como relações entre coisas, como realidades naturais e independentes de sua ação. Os produtos de suaKarl Marx atividade revelam-se alheios à sua essência: há uma cisão entre essência (práxis criadora) e existência (vida social). Ora, quando o pensamento não supera o imediatismo e o espontaneísmo, capta-se somente a forma aparente da realidade e não se atinge a sua essência.

Várias manifestações do pensamento moderno, sejam elas racionalistas ou irracionalistas, objetivistas ou subjetivistas, possuem esse traço fetichizador. Limitando-se à apreensão imediata da realidade, não elaborando as categorias a partir de sua essência econômica, o pensamento acaba servindo aos interesses da burguesia.

É então que surge um anticapitalismo romântico, pois no capitalismo se vê a dissolução da "plenitude natural do homem", enquanto a socialização do trabalho constitui uma ameaça mortal para a subjetividade espiritual dos indivíduos.

Este pensamento elege a subjetividade como única fonte de valores autênticos, subjetividade que acaba negando o real contraditório ao procurar um absoluto pleno de sentido[10].

Ele rejeita a razão, pois esta é confundida com a práxis burocrática e técnica do capitalismo. Este pensamento cai no pessimismo e no conformismo provenientes da sensação de impotência do homem.

É um pensamento fetichizador: algumas formas particulares do mundo capitalista são tomadas, em sua imediaticidade, como "condição eterna do homem'. O protesto subjetivo transforma-se em conformismo real. É um pensamento reprodutor do mecanismo capitalista, pois ataca sua aparência, deixando intacta sua essência.

Nada mais fácil do que fazer uma leitura romântica dos profetas. Através de seus livros, podemos conhecer - melhor ainda, imaginar - a angústia da condição profética. Isto favorece uma leitura altamente subjetiva e interiorizada, valorizando o sentimento do profeta em detrimento da práxis profética.

Por outro lado, as formas particulares de opressão do Estado tributário são generalizadas e transferidas para o sistema capitalista de modo direto, sem mediação científica alguma.

O resultado é uma leitura profética deslocada e enfraquecida que nem arranha a nossa realidade. Pelo contrário, soma-se ela às várias outras formas de camuflagem das contradições atuais. É assim que se coopta e se inutiliza um profeta.

Este é um obstáculo especialmente encontrado nas leituras feitas pelas camadas médias da população brasileira. Como classe, estas camadas vivem contradições enormes. Os indivíduos destas camadas costumam ser portadores de típicos "desvios" alienantes na sua mundivisão. Tais como: perceber o capital sempre transfigurado em valor, os bens de consumo em status, as situações em oportunidades, as pessoas em degraus para a ascensão social e assim por diante.

Tais contradições são sublimadas na fuga do real através do discurso de valoração da existência, transformando o ressentimento (sentimento considerado negativo e inaceitável) em indignação moral (atitude considerada positiva e corajosa), através da subjetivização radical da realidade[11].

6. O Teologismo

O fato dos profetas fazerem uma leitura teológica da realidade israelita facilita o aparecimento de outro obstáculo, o teologismo.

O teologismo consiste em considerar a interpretação teológica como a única versão verdadeira do real. Ele esvazia, assim, o Político e o Social de seus conteúdos e rejeita a sua autonomia, como se só a leitura teológica O profeta Oséias - Aleijadinho (Congonhas do Campo - MG)da realidade fosse a verdadeira. É, no mais das vezes, um discurso dogmático, ideológico, autoritário e anticientífico. Além do que conduz ao espiritualismo e ao dualismo[12].

Neste enfoque a fé é freqüentemente colocada em oposição ao conhecimento racional. É dito que este não resolve e ilustra-se o discurso com a persistente crise nacional, a perversão moral e as injustiças praticadas pelo mundo afora.

Processa-se uma mistificação do não-acesso ao saber, que de questão política transforma-se em questão moral, enquanto se contrapõe o homem simples, o-que-nada-sabe, mas tem fé, ao homem cultivado, o-que-tudo-sabe, é estudado, mas não tem fé. 

Este raciocínio legitima, em última instância, a dominação e a dependência do povo, revestido de uma aura de simplicidade, identificada à bondade.

Esta leitura não vê a abordagem teológica da realidade israelita feita pelos profetas como uma determinação/limitação histórica, mas como a superação de um discurso racional e científico.

Por isso, tal leitura simplesmente repete as ameaças dos profetas israelitas, sem se aperceber de que o está fazendo diante de um mundo secularizado que nem se dá ao trabalho de escutá-la.

 

NEXT


[9]. Cf. COUTINHO, C. N., O estruturalismo e a miséria da Razão, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1972, pp. 7-46; HOBSBAWM, E. J., A era do capital: 1848-1875, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 19823.

[10]. "Mas essa subjetividade inteiramente vazia, convertida em mera negação abstrata do real, procura desesperadamente encontrar um Absoluto pleno de sentido. Nessa busca, as filosofias da subjetividade revelam um traço profundamente religioso (ainda que se trate de uma religiosidade atéia) e, desse modo, uma vinculação espiritual com formas de vida pré-capitalistas", diz COUTINHO, C. N., o. c., p. 33.

[11]. "O ressentimento, sob os disfarces da indignação moral, está historicamente associado a uma posição inferior na escala social, ou em termos mais precisos, à pertinência à camada inferior das classes médias", comenta BOURDIEU, P., A economia das trocas simbólicas, São Paulo, Perspectiva, 1974, p. 7.

[12]. "O teologismo é o correspondente teórico da atitude prática que se conveio chamar 'sobrenaturalismo', 'espiritualismo', ou simplesmente 'mitologia', explica BOFF, C., Teologia e Prática, p. 77.