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HORSLEY, Richard A., Jesus e o Império. O reino de Deus e a nova desordem mundial, São Paulo, Paulus, 2004, 156 pp.Richard A. Horsley é professor de
Línguas Clássicas e Religião na Universidade de Massachusetts, Boston, USA.
É autor e co-autor de diversos livros, destacando-se entre eles: Jesus and
Empire: The Kingdom of God and the New World Disorder (2003), The Message and the Kingdom: How Jesus and Paul Ignited a Revolution and Transformed the Ancient World
(2002), Hearing the Whole Story: The Politics of Plot in Mark's Gospel (2001),
Whoever Hears You Hears Me: Prophets, Performance, and Tradition in Q (1999),
Paul and Empire: Religion and Power in Roman Imperial Society (1997), Archaeology, History, and Society in Galilee: The Social Context of Jesus and the Rabbis (1996),
Galilee: History, Politics, People (1995), Jesus and the Spiral of Violence: Popular Jewish Resistance in Roman Palestine
(1993), Sociology and the Jesus Movement
(1989), Bandits, Prophets, and Messiahs: Popular Movements in the Time of Jesus
(1985). Este livro, Jesus e o Império. O reino de Deus e a nova desordem mundial, de 156 páginas, na tradução feita por Euclides Luiz Calloni para a Paulus, foi publicado em inglês pela editora Augsburg Fortress, de Minneapolis, em 2003, como expansão das Rauschenbusch Lectures proferidas por Horsley na Colgate-Rochester Theological School, em 2001. A proposta central de Richard Horsley é a seguinte: Jesus foi um profeta que dedicou sua vida a pregar uma revolução social na Palestina. Na tradição de Moisés, que libertou os hebreus da escravidão egípcia imposta pelo Faraó, e de Elias, que lutou por uma renovação da aliança com Deus na época do opressor rei Acab e da rainha Jezabel, Jesus se dirigiu aos pobres camponeses de seu tempo, subjugados pelo cruel domínio do Império Romano e de seus associados locais da elite herodiana e judaica, conclamando-os para uma revolução que só teria sucesso se partisse da conscientização da situação de opressão em que viviam. Ou, em outras palavras: Jesus e o movimento proto-cristão - como podem ser identificados na Q (=Quelle) e no evangelho de Marcos -, em oposição ao Império Romano e a seus clientes do governo local, pregaram uma renovação comunitária da família e dos povoados tradicionais nos moldes da antiga aliança de Israel com Iahweh, como aparece na pregação profética. "Conquanto a história de Marcos e os discursos de Q apresentem ênfases um tanto diferentes, suas respectivas representações de Jesus têm uma proposta notavelmente semelhante. Marcos concentra-se mais nas curas e exorcismos como partes de um programa mais amplo de renovação do povo de Israel vividamente reminiscente de Moisés e de Elias, o profeta fundador e o profeta renovador de Israel, respectivamente. Enquanto Marcos inclui uma forte afirmação de suficiência econômica, paralelamente a uma advertência contra a exploração econômica e a dominação política, a suficiência econômica para um povo pobre e faminto é mais proeminente, dominante mesmo, nos discursos de Q. Por outro lado, Marcos inclui mais condenações dos governantes de Jerusalém, dos seus representantes e dos seus patronos romanos por sua opressão econômico-religiosa e pela repressão político-religiosa do povo. O tema do reino de Deus apresentado no princípio da história de Marcos parece mais integral nos discursos de Q. Com essas ênfases um tanto diferentes, porém, o programa todo do ensinamento profético e da prática de Jesus é claramente a renovação de Israel, tanto em Marcos como em Q" (p. 83). Neste contexto se inserem os milagres de Jesus: "Os exorcismos de Jesus, juntamente com suas curas e a distribuição de comida ao povo, eram componentes essenciais de sua função, não como um mago comum (...), mas, mais particularmente, como um profeta como Moisés e Elias estabelecendo a renovação do povo de Israel" (p. 106).
Segundo Horsley, Jesus só pode ser compreendido dentro do contexto do imperialismo romano de sua época, e a sua pregação da chegada do "reino de Deus" significa a expectativa da libertação política e social aqui e agora, que na tradição camponesa, Deus providenciaria para aqueles que eram fiéis à aliança. "Isto é, o reino de Deus não é apenas o tema que abarca a declaração profética de Jesus sobre o julgamento contra os governantes romanos e os seus dependentes em Jerusalém, mas esse aspecto de julgamento do reino tinha uma contraparte construtiva de libertação, novas forças e renovação para o povo. No discurso político moderno, no aspecto de julgamento do Reino de Deus, Jesus proclamava que Deus estava no processo de efetuar a 'revolução política' que transtornaria a ordem imperial romana na Palestina. Então, no aspecto construtivo, na confiança de que Deus estava cuidando da ordem política dominante, Jesus e o seu movimento estavam realizando a 'revolução social' que Deus estava tornando possível e forte nas comunidades rurais da Galiléia" (p. 109). Enfim, reino de Deus é uma metáfora para a libertação popular, e tal pregação levou Jesus a ser condenado pelo prefeito romano Pôncio Pilatos - com a aprovação da elite sacerdotal de Jerusalém - como um perigoso profeta que ameaçava os interesses do Império. "Os romanos, naturalmente, eliminavam tanto líderes populares messiânicos como líderes populares proféticos. A principal conclusão a que podemos chegar sobre a execução de Jesus baseia-se no método dessa execução. Considerando que a crucificação era usada principalmente para escravos e rebeldes entre povos subjugados, os romanos devem ter entendido Jesus como um sublevador de alguma espécie. Então o fato de que muitos seguidores (Paulo e outros) identificavam-se fortemente com a sua crucificação sugere que se identificavam muito também com a oposição ativa de Jesus ao domínio imperial romano. O evento da crucificação por ordem do governandor romano impõe-se como um símbolo vívido da relação histórica de Jesus com a ordem imperial romana. Do ponto de vista dos romanos, eles haviam humilhado e aterrorizado decisivamente os seus seguidores e outros galileus e judeus com esse método doloroso e vergonhoso de execução de um rebelde ousado. Da perspectiva de seus seguidores, esse modo de execução simbolizou o seu programa de oposição à ordem imperial" (p. 135). Horsley é muito apreciado pelos estudiosos do Jesus Histórico por tentar interpretar Jesus em relação a seu ambiente político e social. Nomes importantes desta área da pesquisa acadêmica bíblica, como M. Borg, J. D. Crossan e N. T. Wright, fazem uso de seus 'insights'. Outros, entretanto, como E. P. Sanders, J. Meier e B. Whiterington III são mais críticos, seja por sua negação da perspectiva escatológica na atuação de Jesus, seja por superestimar o clima revolucionário da Galiléia na época de Jesus, entre outras coisas. Enfim, a leitura do livro é estimulante. Só lamento que o tema seja tratado de maneira repetitiva e que a tradução para o português pareça suspeita de vez em quando... O quadro geral de Horsley é sólido, porém considero que alguns de seus argumentos não podem resistir mesmo a um fraco sopro de uma metodologia exegética mais rigorosa... Deixo ao leitor a tarefa de descobrir o que vale ou não a pena! Terminou? Não. Tem o subtítulo. Do que trata o subtítulo quando fala da nova desordem mundial? Trata do Império Norte-Americano hoje. Tanto na Introdução do livro (Identidade americana e um Jesus despolitizado, pp. 7-20), quanto no Epílogo (Império Cristão e Império Americano, pp. 133-152), Richard A. Horsley traça um contudente paralelo entre o Império Romano e o Império Americano atual: Qual é o "destino manifesto da América"? Ser a nova Roma imperial opressora dos povos... Observando que os americanos sempre se consideraram um povo bíblico desde que começaram a ocupar a Nova Inglaterra (cf. p. 7), Horsley mostra também que "em outro traço importante da sua identidade, os americanos passaram a ver-se como a nova Roma. Além de conceber a Constituição como uma nova aliança, os 'pais' fundadores consideravam-se instituidores de um República à imitação da antiga Roma". E "ao cultivar a 'virtude republicana', a busca do bem da sociedade como um todo, os líderes políticos da nova nação pretendiam ansiosamente evitar os erros dos antigos romanos". Contudo, "parece algo totalmente diferente da identidade originária dos americanos - um povo bíblico praticando a virtude republicana romana - o fato de os Estados Unidos terem se tornado recentemente a única superpotência remanescente" (p. 9). Segundo Horsley, depois de 11 de setembro de 2001, "os americanos experimentaram um brusco despertar para uma nova desordem mundial" (...) E "comecaram a se perguntar:'Por que os outros povos nos odeiam tanto?' Esse questionamente levou à dolorosa constatação de que não apenas árabes/muçulmanos, mas também membros de muitas outras etnias/religiões se fazem uma pergunta semelhante há muito tempo: 'Por que os americanos nos odeiam tanto?'" (p. 10). Horsley reflete: "Muitos americanos, porém, começam a sentir uma aguda discrepância entre os elementos mais importantes de sua identidade histórica e a realidade da sua atual posição no mundo. Os Estados Unidos teriam uma enorme dificuldade [ilustrativo link do que está sendo dito, sugerido por mim em 20/01/2005, no dia da posse de G. W. Bush para o 20 mandato de Presidente dos Estados Unidos da América] em convencer o mundo de que ainda praticam a virtude republicana. Levando em consideração o comportamento dos Estados Unidos no mundo, seria extremamente difícil para os americanos pretender ainda ser um povo bíblico, defendendo a liberdade e a justiça da aliança como valores e compromissos essenciais. Com efeito, muitos americanos não conseguem evitar a sensação incômoda de que agora se assemelham mais à Roma imperial do que ao antigo povo do Oriente Médio que celebrava suas origens na libertação efetuada por Deus da dura servidão de um governante estrangeiro e vivia de acordo com os princípios da justiça socioeconômica. A posição imperial americana na nova (des)ordem mundial pode ser especialmente inusitada para os americanos que refletem sobre as origens cristãs, pois Jesus de Nazaré cumpriu sua missão precisamente entre um antigo povo do Oriente Médio que fora subjugado pelo Império Romano" (p. 11). Contudo, Horsley pensa que isto não é um problema para aqueles que despolitizaram a ação de Jesus, reduzindo-o a uma mera figura religiosa, enfim, domesticando-o. Um Jesus que condescende com o Império. Um Jesus após Constantino... Desfigurado como ente político, despolitizado o contexto em que operava, Jesus torna-se apenas "uma figura que está na origem de uma religião a partir de outra, o surgimento do cristianismo a partir do judaísmo" (p. 12). Entretanto, mais uma vez, reage: "Desde 11 de setembro de 2001, porém, não temos mais condições de ficar sossegados com essas representações domesticadas de Jesus. Não podemos mais ignorar o impacto do imperialismo ocidental sobre povos subordinados e sobre as formas de reação de povos que sentem suas vidas invadidas. A analogia histórica 'coincidente' é muito inquietante..." (p. 12). Para dizer, no penúltimo parágrafo do livro: "Deveria ser possível analisar criticamente os questionáveis pressupostos e abordagens típicos de despolitização a fim de ouvir, novamente, com as antenas sintonizadas com as relações de poder imperiais, as representações evangélicas de um líder político de um povo subjugado" (p. 152). Donde, a perspectiva deste estudo: "Limitando-me a uma abordagem relacional mais abrangente, quero ater-me ao modo como Jesus reagia à ordem imperial romana ou, do ponto de vista dos seus contemporâneos galileus e judeus, à desordem que o imperialismo romano representava para as suas vidas" (p. 19).
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