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SKA, Jean-Louis, Introdução à leitura do Pentateuco. Chaves para a interpretação dos cinco primeiros livros da Bíblia, São Paulo, Loyola, 2003, 304 pp.Este texto foi escrito por Círio Alessandro Jacinto, do 10 ano de Teologia do CEARP em 2004. Tal qual um cliente que, diante de
um produto encontra várias opções, diversos tipos e modelos, encontra-se,
hoje, o leitor do Pentateuco, após os problemas de
70. Até 1970, tudo estava perfeito: o consenso
wellhauseniano demarcava quatro fontes principais para a redação do
Pentateuco: o Javista
(que supostamente havia escrito no período davídico-salomônico), o Eloísta
(no período próximo dos primeiros profetas), o Deuteronômio/Deuteronomista
(provavelmente após a Reforma de Josias) e o Sacerdotal
(que poderia ter escrito no período exílico e/ou pós-exílico). Entretanto,
problemas e discussões em torno de datas e períodos, a falta de material que
confirmasse alguns pressupostos, como, por exemplo, a da corte dispendiosa do
período salomônico, divergências redacionais, utilização de métodos exegéticos
etc, fizeram com que o edifício Pentateuco viesse ao chão e, conseqüentemente,
javista, eloísta, deuteronomista e sacerdotal não resistiram à implosão. Inúmeros debates, inúmeras tentativas e discussões despontaram no mundo bíblico e, a partir dos anos 70, o Pentateuco conquista destaque no debate exegético. Sem dúvida, muitas novas teorias se apresentam àquele que deseja entrar, inteligente e criticamente, neste mundo bagunçado, conhecido como Pentateuco. O
jesuíta belga Jean-Louis Ska, professor de exegese no Pontifício Instituto Bíblico
de Roma, nos
coloca à disposição um estudo – fruto de dez anos de magistério –
publicado em italiano, em 2000, pelo Centro Editoriale Dehoniano, de Bologna, Itália,
intitulado Introduzione alla lettura del Pentateuco.
Chiavi per l’interpretazione dei primi cinque libri della Bibbia,
traduzido para o português por Aldo Vannucchi e publicado em 2003, pelas Edições
Loyola, com o título de Introdução
à leitura do Pentateuco. Chaves para a interpretação dos cinco primeiros livros da Bíblia. Nesta obra, o autor tem por objetivo ajudar este cliente
que se encontra diante de inúmeras teorias, e porque não dizer, perdido.
Didaticamente, a obra está estruturada em dez capítulos que ocupam cerca de
300 páginas. Esta
obra é extremamente informativa, e isto talvez explique sua densidade. Seria
muita pretensão querer apresentar aqui, de maneira explicativa e pormenorizada,
todo o seu conteúdo. Por isso, limitamo-nos em apresentar de maneira geral e
global o que cada capítulo da obra de Ska aborda, apontando os temas mais
relevantes e, oportunamente, enfatizando este ou aquele capítulo, quiçá com a
intenção de estimular o leitor do Pentateuco a ter um contato direto com a
“chave de leitura” de Ska. O
primeiro aspecto a ser observado é que não é fácil ler um texto de mais de
vinte séculos atrás, ainda mais quando não se tem o original e nem mesmo uma
“assinatura” que nos remeteria ao autor do texto. E, nem sempre a Bíblia
foi Bíblia, e nem seus livros foram escritos para ser Bíblia. Nem sempre seus
livros foram livros e, também, nem sempre foram subdivididos em capítulos e
versículos! Portanto,
para descrever o Pentateuco em sua forma atual, nos dois primeiros capítulos,
respectivamente: Algumas questões fundamentais sobre o Pentateuco
e Os
cinco livros do Pentateuco: conteúdo e estrutura,
Ska analisa a forma canônica do Pentateuco (no primeiro capítulo)
e dos cinco livros que o compõem (no segundo). Para isto, parte do significado
da palavra Pentateuco e mostra porque ele possui um valor distinto quando
comparado com os demais livros da Bíblia hebraica, isto do ponto de vista da
“Revelação”. Já nos testemunhos de Flávio Josefo, de Fílon, ou mesmo
nos evangelistas João e Mateus, a “Lei” já está limitada nesta
pentacomposição. A própria tradição judaica já estabelecera que cinco eram
os livros fundamentais da “Lei” e com autoridade superior a dos demais
livros atribuídos aos profetas. Entretanto, tal composição é questionada.
Pensa-se num Tetrateuco (colocando-se o livro do Deuteronômio à parte,
baseando-se na tese de M. Noth e apresentando as três observações que
originam tal tese). Fala-se também de um Hexateuco (acrescentando-se um sexto
livro, no caso o de Josué, como defendiam Ewald e Von Rad, por acreditarem que
a primeira obra do povo de Iahweh seja o “livro das origens”, que compreende
do Gênesis a Josué – porque este conjunto traria toda a narrativa da
“conquista da terra”). Até mesmo um Eneateuco é cogitado (composto pelos
cinco tradicionais, acrescidos por Josué, Juízes, Samuel e Reis, porque,
segundo os defensores desta teoria, a “história de Israel”, não dever ser
considerada apenas em suas origens, mas num tempo que vai da criação do mundo
ao exílio babilônico, chamada de “História Principal”, descrita nestes
nove livros). Dos vários
argumentos utilizados por Ska, podemos apontar dois para se continuar
considerando um “Pentateuco”. Primeiro, porque os cinco livros possuem um
caráter normativo, não presente nos outros livros. E ainda, porque reproduzem
a biografia de Moisés, desde seu nascimento (Ex 2) à sua morte (Dt 34), e este
argumento torna-se importante, quando se conhece o valor único atribuído a
Moisés, do ponto de vista da Revelação. Além do mais, a estrutura própria
do Pentateuco é imprescindível para a compreensão do Novo Testamento, porque
a vida pública de Jesus inicia-se no Jordão. “Moisés chegou diante do Jordão
com o seu povo e morreu sem ter podido atravessar essa última fronteira”. Sua
obra ficara incompleta e Josué é quem vai terminá-la. O povo não consegue,
com Moisés, tomar posse da terra. A missão de Jesus é semelhante, porque
“anunciar o Reino” significa apontar o dia em que Israel vai poder,
finalmente, tomar posse definitiva da terra. Dessa
forma, o Pentateuco é analisado de um modo geral. Ska toma para si a tarefa de
apresentar a divisão e as razões materiais e teológicas da estruturação dos
cinco livros e, pormenorizadamente, apresenta, no segundo capítulo, a estrutura
e a divisão de Gênesis a Deuteronômio. Se a análise
nestes dois capítulos diziam respeito ao conteúdo e à forma dos livros do
Pentateuco, envereda-se Ska, em seguida, na análise do “autor” e da
“literatura” de tais livros. Por isso, os capítulos III, IV e V são
intitulados Os
problemas literários do Pentateuco, sendo que no terceiro, são
analisados textos
legislativos comparando-se leis presentes no Código da Aliança
(Ex 20,22-23,33) no Código Deuteronômico (Dt 12,1-26,15) e na Lei da Santidade
(Lv 17-26). E, sem dúvida, também o Decálogo (em Ex 20,1–17 e Dt 5, 6–21). Textos narrativos, como a criação,
o dilúvio, a história de José e a passagem do mar, são analisados no
quarto capítulo. Aqui é mister salientar que tais análises feitas pelo nosso
autor são de nível comparativo, mostrando, sempre, as aparentes incoerências
e divergências redacionais acerca de um mesmo assunto – como o Decálogo, por
exemplo - buscando apontar para possíveis soluções dos problemas literários,
chegando, assim, no capítulo V, onde é possível deparar-se com os problemas
relacionados às intervenções
redacionais. E assim podemos, juntamente com Ska, concluir que
seria, de acordo com os dados levantados, impossível atribuir a redação dos
cinco livros a um único autor; e que, em diferentes épocas, tanto os textos
narrativos como os legislativos foram relidos, corrigidos, elucidados,
reinterpretados e atualizados para atender às novas realidades do povo de
Israel. Exegese do
Pentateuco: história da pesquisa da Antiguidade a 1970 é o título
do VI capítulo. A essa altura, o leitor encontra-se diante de uma série de
problemas provenientes dos capítulos precedentes, devido às divergências
acerca da forma, da estrutura, dos métodos, dos sinais lingüísticos, dos
problemas literários e das Entretanto,
desde 1970, o consenso wellhauseniano vem sendo discutido e muito maiores são
os problemas levantados desde então. Se as vinte e nove páginas foram necessárias
para apresentar toda a história da exegese do Pentateuco no capítulo VI, desde
a Antiguidade a 1970, Ska utilizar-se-á de mais trinta e seis páginas, apenas
para apontar os Dados mais recentes sobre a Exegese do Pentateuco
- título do VII capítulo – em que apresenta as críticas dos novos métodos
de pesquisa e das novas escolas exegéticas à hipótese documental. Portanto,
um número maior de páginas indica que, se o leitor achava estar diante de soluções
para os problemas até agora levantados, parece que diante de maiores problemas
ainda se encontra o leitor! Os novos
métodos de pesquisa e as novas escolas exegéticas trouxeram ao mundo da
exegese a hipótese da não-existência de uma fonte eloísta. “As
numerosas objeções a ela foram compiladas por E. Zenger”, diz
Ska na p. 146. Todavia, as objeções não dizem respeito apenas ao E. Os
ataques que inibiram a hipótese documental, colocando-na em xeque visam,
sobretudo, o J e o Israel pré-monárquico. Quanto ao Javista, a discussão gira
em torno de sua existência como fonte, mas, principalmente acerca da data de
sua redação. Para a escola de Heidelberg,
na Alemanha, por exemplo, o J já não
mais se sustenta. O maior defensor desta hipótese é Erhard Blum (que fora
aluno de Rendtorff). Outra tese situa o Javista
após o Deuteronômio e a OHDtr. Tal tese ganha ênfase, principalmente no
Canadá (com Winnett, Wagner e J. Van Seters) e na Suíça (com H. H. Schmid, M.
Rose, H. Vorländer e H.–Ch. Schmitt). Um Javista
Reduzido é a hipótese que supõe um relato javista quase que primitivo,
muito reduzido e completado em várias épocas – assim supõem P. Weimar, J.
Vermeylen e também E. Zenger (em sua primeira fase). O relato sacerdotal, por
sua vez, nunca sofrera grandes questionamentos, devido ao estilo e teologia
bastante reconhecíveis e portanto, de fácil identificação. Se houver confusão
acerca desta fonte, esta diz respeito à sua natureza, à sua conclusão,
teologia, datação e sobre o seu relacionamento com a “lei da santidade” no
livro do Levítico. Assim,
os problemas, questionamentos e possíveis soluções (formuladas pela diversas
teorias) são apresentadas de maneira muito clara por nosso autor, sem apoiar ou
menosprezar nenhum dos métodos utilizados pelas diferentes escolas. E o capítulo
é concluído com as importantes indicações: “O
melhor método será aquele que explicar o texto do Pentateuco com mais clareza,
sem menosprezar os problemas complexos que explanamos nos capítulos
anteriores” (p.177). Dessa
forma, chegamos ao capítulo chamado por Ska de “ponto crítico”, porque se
até agora pudemos perceber os problemas, é hora de tomar uma posição. Características
básicas da literatura antiga é o título do VIII Capítulo.
Nele o autor apresenta alguns “axiomas-chave” de toda a pesquisa no campo
das literaturas antigas, para se explicar como e por que se conservaram tradições
antigas. Assim, há de se observar várias leis, que poderíamos chamar de
“motivos” para se escrever e para se conservar os escritos. Tudo deve ser
levado em consideração: a Lei da Antiguidade que é, segundo Ska, a que
determina que o mais velho é o que vale mais. O mais antigo, o tradicional, se
impõe. O antigo autoriza, legitima, dá crédito,
portanto, apoiado nele é que se deve escrever. Assim é
que se descobre, num texto, o valor de uma tradição. “O
Deus do Êxodo é o Deus dos patriarcas. O Deus de Israel é o criador do
universo. Essa antiguidade é essencial para se provar, perante as nações, o
valor das tradições” (p. 183). Por conseguinte, se o antigo
tem valor, não se pode eliminá-lo, aboli-lo. Uma lei, se tradição, mesmo que
não seja mais aplicável, não pode ser abolida. Esta é a Lei da Conservação,
a que diz que nada se elimina. Entretanto, ao mesmo tempo que o mundo antigo é
muito conservador, a tradição apenas guarda o que tem valor para o presente:
é a Lei da Continuidade ou da Atualidade. Não se quer ter um museu,
onde as velharias possam ser admiradas. Quer-se cruzar um passado longínquo
com o presente, mostrando o valor das tradições para a atualidade. E, uma última
lei apresentada por Ska é a da Economia. Escreve-se apenas o necessário.
Os manuscritos não são papéis que encontramos em qualquer papelaria,
como na atualidade. Não são impressos! O material é restrito, pede um cuidado
propedêutico exigente e caro. Os escribas competentes eram escassos. “Hoje,
um escriba levaria, mais ou menos, um ano, para escrever a Torá inteira e
precisaria costurar, aproximadamente, 62 peles de animais. O preço atual desse
manuscrito ficaria na ordem de 18 mil a 40 mil dólares. Obviamente, na
Antiguidade custaria muito mais” (p. 188). Feita
esta análise da Literatura Antiga, é em Algumas
referências para a leitura do Pentateuco, o nono capítulo da
obra, que Ska apresenta a sua tese, ou melhor, suas três teses principais: a de
que o Pentateuco todo seria uma obra pós-exílica, da época persa; uma obra
compósita, ou seja, contém partes mais antigas; e, por fim, a tese de que
algumas pequenas histórias ou ciclos narrativos – embora seja difícil
delimitar o seu tamanho e definir sua data precisa – podem ser provenientes de
material pré-exílico. E,
justamente nesta última é que Ska mais se detém. A hipótese do autor
baseia-se na “História de Israel”, principalmente na sua reconstrução após
o exílio. Entretanto,
para reconstruí-la era indispensável que a comunidade reencontrasse suas raízes
no passado: “Estava para renascer o mesmo
povo, na mesma terra, às ordens do mesmo Deus” (p. 201). O
refazer de Israel faz o Pentateuco. Com essa hipótese, J.-L. Ska quer
reconstruir o edifício abalado: ao mesmo tempo em que se reconstrói o Israel pós-exílico,
reconstrói-se, igualmente, este Pentateuco abalado pelos novos métodos de
pesquisa. Sua preocupação agora está em mostrar, e possivelmente convencer,
ao leitor de como se chega a esta posição através de textos narrativos, dos
legislativos e das intervenções redacionais. Chegando ao último capítulo O Pentateuco e o Israel pós-exílico, resta ao autor apenas situar historicamente o Pentateuco no pós-exílio, tarefa à qual se dedica neste ponto. Para
finalizar, poderíamos ressaltar dois aspectos que chamam a atenção, o tempo
todo, durante a leitura da obra: a quantidade de informações, em primeiro
lugar, provenientes de uma riquíssima e competente bibliografia, explicitada
nas notas de rodapé – de fato, a erudição de Ska é surpreendente e
fascinante; e, em segundo lugar, a maneira como o autor escreve, ou seja, o
estilo empregado para nos colocar diante destas considerações exegéticas
acerca do Pentateuco – parece ao leitor uma conversa com Ska, pois didática e
metodicamente nos insere, passo a passo, no mundo da exegese do Pentateuco, o
que torna a leitura não apenas instrutiva mas também agradável e prazerosa. Tomando-se
a obra no conjunto, a tese de Ska, apresentada nos três últimos capítulos,
talvez nem seja o seu ponto mais alto, mesmo porque somente se percebe a sua
importância quando se dá valor ao método histórico-crítico. Para o exegeta
avesso a este método, por exemplo, a tese de Ska não tem grande valor.
Entretanto, inquestionável valor têm os capítulos que nos apresentam o
Pentateuco. Eles nos apresentam, mesmo que a grosso modo, como insiste
Ska, toda a formação do Pentateuco, desde sua redação até à investigação
exegética mais recente. E quando não consegue definir mais claramente algum
ponto, preferindo tratá-lo de modo mais rápido, indica-nos um caminho,
explicitando sempre um referencial teórico. Concluindo: é claro que a obra de Ska não põe um ponto final – e nem se propõe a tal - no debate e na discussão exegética atual sobre o Pentateuco. Pelo contrário, talvez abra espaço para mais e maiores discussões. Certamente sua hipótese encontra no meio acadêmico os prós e os contras, a direita e a esquerda, o apoio e o ataque. O que importa é perceber que, para o cliente do Pentateuco que já tinha muitos modelos e opções, Ska apresenta mais um “tipo”. Tenta-se eliminar o Eloísta ou reduzir o Javista. Mas Javista, Eloísta, Deuteronômio e Sacerdotal ainda continuam de pé, mesmo que cambaleantes. A problemática persiste e a “História do Povo de Deus”, presente no Pentateuco, ainda “há de dar muito o que falar”. >> Informações adicionais sobre o livro: Original: Resenha Online: David M. Carr - Union Theological Seminary, New York - em 14 de março de 2002, na Review of Biblical Literature, sobre a edição francesa. PARA SABER MAIS
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