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Niels Peter Lemche (Dinamarca) Professor no Instituto de Exegese Bíblica da Universidade de Copenhague, Dinamarca. Obras: Early Israel: Anthropological and Historical Studies on the Israelite Society Before the Monarchy. Leiden: Brill, 1985, 496 p. - ISBN 9789004078536; Ancient Israel: A New History of Israelite Society. Sheffield: Sheffield Academic Press, [1988], 1995, 276 p. - ISBN 9781850750178; The Canaanites and Their Land: The Tradition of the Canaanites. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1991, 560 p. - ISBN 9781850753100; Die Vorgeschichte Israels. Von den Anfängen bis zum Ausgang des 13. Jahrhunderts v.Chr. Stuttgart: Kohlhammer, 1996, 231 p. - ISBN 9783170123304; The Israelites in History and Tradition. Louisville: Kentucky, Westminster John Knox, 1998, ix + 246 p. - ISBN 9780664220754; Prelude to Israel's Past: Background and Beginnings of Israelite History and Identity. Peabody, MA: Hendrickson Publishers, 1998, 272 p. - ISBN 9781565633438; Historical Dictionary of Ancient Israel. Lanham, MD: The Scarecrow Press, 2004, 314 p. - ISBN 9780810848481; The Old Testament Between Theology and History: A Critical Survey. Louisville, KY: Westminster John Knox, 2008, 504 p. - ISBN 9780664232450. Posicionamento: talvez seja o mais produtivo e fundamentado entre os minimalistas. Tem as mesmas posições de Thompson, Davies e Keith Whitelam. Bastante radical. LEMCHE, N. P. From Patronage Society to Patronage Society, em FRITZ, V.; DAVIES, P. R. (eds.) The Origins of the Ancient Israelite States. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1996, 168 p. - ISBN 9781850757986, p. 106-120, começa falando dos estudos de David W. Jamieson-Drake, Scribes and Schools in Monarchic Judah: A Socio-Archaeological Approach. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1991, 235 p. - ISBN 9781850752752 [Escribas e Escolas no Judá Monárquico: Uma Abordagem Sócio-Arqueológica] e de H. M. Niemann, Herrschaft, Königtum und Staat: Skizzen zur soziokulturellen Entwicklung im monarchischen Israel. Tübingen: Mohr Siebeck, 1993, x + 318 p. - ISBN 9783161460593 [Senhorio, Reino e Estado]. Estes dois estudos, por diferentes caminhos, chegaram à mesma conclusão de que não houve um Estado no território da Judéia no século X AEC. Estudos que não tiveram repercussão, porque as conseqüências teológicas da possível não-existência de um Davi assustaram tremendamente tanto judeus quanto cristãos. Lemche explica, a seguir, as boas intuições e as deficiências destes estudos e propõe a discussão da natureza da sociedade que se supõe tenha existido nesta época como um caminho viável para a condução do debate. O método normal, na linha de Albrecht Alt, seria a discussão da evolução da sociedade tribal para o Estado, mas este continuum constituído pela sociedade tribal de um lado e pelo Estado de outro não é evidente. Então, por que não discutir a evolução da sociedade tribal para a sociedade patronal? É que ‘tribo’ é uma palavra sem sentido: com ela encobrimos a variedade de sociedades tradicionais (primitivas) para as quais não temos definição. Então, diz Lemche, “para evitar este problema eu introduzi o conceito de sociedade patronal [patronage society] como mais viável cobertura da variedade social da Síria e especialmente da Palestina no Período do Bronze Recente” (p. 110). Este modelo, freqüentemente chamado de ‘sistema social mediterrâneo’ parece ter sido onipresente em sociedades com um certo grau de complexidade, mas que não constituíam ainda Estados burocráticos. E Lemche define: “Típico de uma sociedade patronal é sua organização vertical, onde no topo encontramos o patrono [patron], um membro de uma linhagem líder, e abaixo dele seus clientes [clients], normalmente homens e suas famílias” (p. 111). A ligação entre patrono e cliente é de tipo pessoal, com juramento de lealdade do cliente ao patrão e de proteção do patrono para o cliente. Em tal sociedade, códigos de leis não são necessários: ninguém vai dizer ao patrono como julgar. A crise da Palestina que
aparece nas Cartas de Tell el-Amarna é explicada por Mario Liverani, segundo
Lemche, a partir desta Sem dúvida, houve uma crise social na Palestina no final do Bronze Recente. E aqui o autor apresenta uma proposta bastante razoável para o que pode ter acontecido: “As fortalezas do patrono, a ‘cidade do rei’, desapareceram e foram substituídas por estruturas locais, ‘povoados’, organizados sem um sistema de proteção como o do patrono – o assim chamado ‘rei’ – ou com patronos locais” (p. 118). E no parágrafo seguinte: “Deste modo, a cultura de povoados da região montanhosa do centro da Palestina simplesmente representa um intervalo entre dois períodos de sistemas patronais mais extensos e melhor estabelecidos, simplesmente porque o que aconteceu, digamos entre 1000 e 900 AEC, foi de fato o restabelecimento de um sistema de Burg-Gesellschaft, semelhante ao sistema do Bronze Recente encontrado na mesma área”. Isto explica o título do capítulo: De uma sociedade patronal a outra sociedade patronal. LEMCHE, N. P. Clio Is Also among the Muses! Keith W. Whitelam and the History of Palestine: a Review and a Commentary, em GRABBE, L. L. (ed.) Can a ‘History of Israel’ Be Written. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1997, 201 p. [T. & T. Clark: 2005 - ISBN 0567043207], p. 123-155, em um texto anteriormente publicado, faz uma resenha do livro de Keith Whitelam, The Invention of Ancient Israel: The Silencing of Palestinian History. London: Routledge, 1996, 296 p. - ISBN 9780415107594, à qual ele acrescenta um curto comunicado lido em Dublin, História da Palestina ou História da Síria. Lemche diz na p. 149: “Eu chego agora à conclusão desta resenha que, no geral, foi crítica, mas positiva. E ela tinha de ser! Nenhuma dúvida quanto a isto. Whitelam escreveu um livro corajoso – mas também politicamente correto -, afinado com o estabelecimento na Palestina das primeiras instituições de um Estado Palestino”. Whitelam, em seu livro, mostra que a história dos povos antigos da Palestina tem sido silenciada em favor de um interesse exclusivo em Israel. Mas em História da Palestina ou História da Síria, Lemche alerta o leitor para o fato de que Whitelam “não define adequadamente a identidade de seus antigos palestinos (...) porque, provavelmente, ele introduziu no cenário histórico uma nova entidade, os antigos palestinos, tendo, deste modo, inventado um novo povo que pode, de fato, nunca ter existido ou ter reconhecido a si mesmos como sendo palestinos” (p. 151). Philip R. Davies (Reino Unido) Professor de Estudos Bíblicos na Universidade de Sheffield, Reino Unido. Obras: In Search of ‘Ancient Israel’. London: T. & T. Clark, [1992] 2005, 166 p. - ISBN 9781850757375; Whose Bible Is It Anyway? London: T. & T. Clark, [1995] 2004, 159 p. - ISBN 9780567080738; Scribes and Schools. The Canonization of the Hebrew Scriptures. Louisville, Kentucky: Westminster John Knox, 1998, 232 p. - ISBN 9780664227289; The Origins of Biblical Israel. London: T & T Clark, 2007, 192 p. - ISBN 9780567043818; On the Origins of Judaism. London: Equinox Publishing, 2008, 224 p. - ISBN 9781845533267. Posicionamento: um dos autores mais criativos e questionadores entre os assim chamados “minimalistas”. DAVIES, P. R. In Search of ‘Ancient Israel’. London: T. & T. Clark, [1992] 2005, 166 p. - ISBN 9781850757375. Em seus nove capítulos, o autor adverte o leitor de que este é um livro sobre história e não outra “História de Israel”, um gênero provavelmente obsoleto. E avisa que estará trabalhando com três “Israéis”: um literário, o Israel bíblico; outro histórico, os habitantes da região montanhosa da Palestina do norte durante parte da Idade do Ferro; e, um terceiro, o “antigo Israel”, citado entre aspas, por ser um construto dos estudiosos, resultado do amálgama dos dois primeiros. Este construto erudito é considerado pelo autor como contraditório, fantasioso e ideológico. Na p. 21 ele diz: “Eu estou sugerindo que não há uma procura pelo verdadeiro (histórico) antigo Israel, porque tal busca não tem sido considerada necessária; mas a tese deste livro é de que uma busca é necessária, na medida em que o ‘antigo Israel’ não é uma construção histórica e que, por isso, ele desalojou algo que é histórico”. Após questionar a continuidade étnica entre os exilados judaítas do século VI e os que vieram da Babilônia na época persa para repovoar Yehud, sobre a literatura bíblica, que tem outra versão dos fatos, diz Davies que ela foi inventada nas épocas persa e grega, surgindo assim a possibilidade do judaísmo em sentido cultural e, muito importante, como um produto de exportação. Na produção da literatura bíblica, não havia tradição a ser colocada por escrito: as estórias foram inventadas e depois organizadas na seqüência atual (cf. p. 126). No Capítulo 9, finalmente, Philip R. Davies sugere que o Estado Asmoneu (ou Macabeu) é que viabilizou, de fato, a transformação do Israel literário em um Israel histórico, por ser este o momento em que os reis-sacerdotes levaram o país o mais próximo possível do ideal presente nas leis bíblicas. A Bíblia, como uma criação literária e histórica é um conceito asmoneu, garante o autor na p. 154. DAVIES, P. R. Whose History? Whose Israel? Whose Bible? Biblical Histories, Ancient and Moderns, em GRABBE, L. L. (ed.) Can a ‘History of Israel’ Be Written. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1997, 201 p. [T. & T. Clark: 2005 - ISBN 0567043207], p. 104-122, aceita que histórias de um antigo Israel podem ser escritas, mas não a história do antigo Israel.
Finalmente, ele recomenda que um historiador pode fazer hoje três coisas: “Não desencorajar a produção de boas historiografias; (...) denunciar as fraudes praticadas em nome da história e (...) permanecer cético, minimalista e pessimista” (p. 122). DAVIES, P. R. Exile? What Exile? Whose Exile? em GRABBE, L. L. (ed.) Leading Captivity Captive. The ‘Exile’ as History and Ideology. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1998, 161 p. - ISBN 9781850759072, p. 128-138, vai mostrar em seu texto que a noção de ‘exílio’ opera em três níveis: canônico, literário e historiográfico. No nível canônico o ‘exílio’ encerra os Profetas Anteriores e o período de desobediência e ira divina; no nível literário o ‘exílio’ faz paralelismo com os arquétipos de criação e expulsão do paraíso e realiza a mediação da punição e salvação; e no nível historiográfico bíblico marca as épocas do ‘pré-exílio’ e do ‘pós-exílio’. Trabalha, sem seguida, vários conceitos relativos ao ‘exílio’, visto como legitimação ideológica dos grupos que foram transferidos para Judá – Davies nega qualquer ‘volta’ – e que, ao construir e impor a sua identidade de ‘judeus’ e ‘Israel’ silenciam os outros grupos que reclamam o direito de viverem nesta terra. O autor, curiosamente, denomina a sua abordagem de ‘materialista’ – sem nenhuma referência a qualquer marxismo – por considerar que, em suas palavras, na nota 12 da p. 132, “as configurações históricas e culturais de alguma maneira esclarecem os produtos ideológicos”... No meu entender, há aqui algum equívoco epistemológico!
Rainer Albertz (Alemanha) Professor de Antigo Testamento na Westfälische Wilhelms-Universität de Münster, Alemanha Obras: Religionsgeschichte Israels in alttestamentlicher Zeit, 2 Bde. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1996-1997, ... p. - ISBN 9783525516751; Die Exilzeit: 6. Jahrhundert v. Chr. Stuttgart: Kohlhammer, 2001, 344 p. - ISBN 9783170123366; Geschichte Und Theologie: Studien zur Exegese des Alten Testaments und zur Religionsgeschichte Israels. Berlin: Walter De Gruyter, 2003, x + 396 p. - ISBN 9783110176339. Posicionamento: posição moderadíssima, quase conservadora! Segundo Lemche, em The Israelites in History and Tradition, Louisville, Westminster John Knox, 1998, p. 145-148, Albertz tenta fazer uma síntese de Wellhausen a Lemche, passando por Albright e sua escola, e, ao invés de fazer uma “história da religião de Israel”, título de seu livro mais importante, faz uma “história religiosa de Israel”. Defende, é claro, o uso dos textos bíblicos na construção de uma História de Israel. ALBERTZ, R. Die Exilszeit als Ernstfall für eine historische Rekonstruktion ohne biblische Texte: Die neubabylonischen Königsinschriften als ‚Primärquelle’, em GRABBE, L. L. (ed.) Leading Captivity Captive. The ‘Exile’ as History and Ideology. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1998, 161 p. - ISBN 9781850759072, p. 22-39, examina as inscrições reais neobabilônicas, do século VI AEC – portanto contemporâneas do exílio - explicando como estas fontes têm seu próprio viés (Tendenz), à semelhança das fontes bíblicas. O que pretende Rainer Albertz? Mostrar que fontes consideradas ‘primárias’ pelos pesquisadores bíblicos não são assim tão isentas quanto acreditam, como mostra o “mito de fundação” (Gründungsmythos) da Babilônia em uma estela da época de Nabônides, que reinterpreta texto anterior (ANET, 308-311). E também que não se pode descartar uma fonte bíblica, como o Deuteronomista ou o Dêutero-Isaías, simplesmente porque exibe uma tendência teológica, do mesmo modo como não são descartadas as inscrições de Nabônides que, apesar de sua forte carga ideológica, descrevem eventos históricos. Mas R. Albertz reconhece a enorme dificuldade que existe quando se tenta reconstruir historicamente o exílio judaíta: “Die Exilzeit stellt in der biblischen Geschichtesdartellung ein finsteres Loch dar” (“A época do exílio representa um buraco negro na narrativa histórica bíblica”), admite o autor, usando imagem cosmológica, na primeira frase de seu artigo, na p. 22. Robert P. Carroll (Reino Unido) Ex-professor de Antigo Testamento na Universidade de Glasgow, Reino Unido, falecido em maio de 2000. Obras: Jeremiah. 2 vols. Sheffield: Sheffield Phoenix Press, 2006. Vol. I: 508 p. - ISBN 9781905048632; Vol. II: 384 p. - ISBN 9781905048649. Posicionamento: um dos minimalistas mais radicais. CARROLL, R. P. Madonna of Silences: Clio and the Bible, em GRABBE, L. L. (ed.) Can a ‘History of Israel’ Be Written. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1997, 201 p. [T. & T. Clark: 2005 - ISBN 0567043207], p. 84-103, questiona os limites entre realidade e ficção, usando a analogia de Ossian, um suposto poeta céltico do terceiro século e as figuras de Balaão, Omri e Baruch. E, respondendo à questão “Pode uma história do antigo Israel ser escrita?”, ele diz: “Estou inclinado a responder ‘Não’” (p. 101). CARROLL, R. P., Exile! What Exile? Deportation and the Discourses of Diaspora, em GRABBE, L. L. (ed.) Leading Captivity Captive. The ‘Exile’ as History and Ideology. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1998, 161 p. - ISBN 9781850759072, p. 62-79, apresenta um polêmico panfleto contra o uso da categoria ‘exílio’, fruto de uma ideologia centrada em Jerusalém, que deveria ser abandonada em favor da categoria ‘diáspora’, muito mais representativa da realidade do judaísmo ao longo dos séculos. Neste sentido, ele diz que escreveria em letras garrafais as palavras ainda não suficientemente ouvidas de Charles Cutler Torrey, que, no início do século XX (Ezra Studies, Chicago, University of Chicago Press, 1910, p. 289), já dizia: “Os termos ‘exílico’, ‘pré-exílico’ e ‘pós-exílico’ deveriam ser banidos para sempre, porque eles são nada mais que descaminhos e não correspondem a nada do que é real na vida e na literatura hebraicas” (citado por Carroll na p. 77). Para Carroll o exílio é um símbolo literário bíblico e, embora possa ser tratado como evento no mundo histórico-social, ele deve ser abordado mesmo é como um elemento fundamental da poética cultural dos discursos bíblicos. O exílio pode até ter referentes históricos, mas é como metáfora que ele mais contribui para a narrativa bíblica. Para Robert Carroll exílio e êxodo são duas faces do mesmo mito que caracteriza o subtexto das narrativas e a retórica da Bíblia Hebraica. Entre estes dois ‘topoi’ (e sua noção mediadora da terra vazia) é desenhada e construída a estória essencial da Bíblia Hebraica. Eles refletem uma profunda estrutura narratológica e uma preocupação constante com jornadas para dentro e para fora de territórios, diz na p. 63. Foi o Cronista - e a literatura associada a ele (Esdras-Neemias) – que tratou o exílio como um prolongado sabbath da terra. “Esta sabatização da deportação transformou-a efetivamente em um exílio e produziu o correspondente mito da terra vazia, através do qual a pátria palestina esvaziada espera a volta dos deportados”, diz Robert Carroll na p. 65. Isto faz desta versão de Jerusalém uma tentativa de silenciar as outras deportações, os exílios permanentes, os muitos exílios sem volta. É por isso que, frente a tais representações, o autor questiona no título: “Exílio! Que Exílio?” E daí surgem muitas questões. “Questões sem fim. Questões sem respostas definitivas, também porque elas são muito difíceis de serem respondidas com a pouca informação disponível no texto bíblico. Mas estas são as verdadeiras questões que precisam ser levantadas por este Seminário de historiografia”, provoca Robert P. Carroll na p. 66. |