Os Minimalistas - The Minimalists

 

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Nos dias 6 e 7 de março de 2003 foi realizada em Roma, na Accademia Nazionale dei Lincei, pelo Centro Linceo Interdisciplinare "Beniamino Segre",  uma Conferência Internacional sobre as Tendências Recentes na Reconstrução da História do Antigo Israel, com a presença de alguns dos mais renomados pesquisadores da área. 

RECENTI TENDENZE NELLA RICOSTRUZIONE DELLA STORIA ANTICA D'ISRAELE

O livro com as contribuições da Conferência foi publicado em 2005: 

LIVERANI, M. (org.) Recenti tendenze nella ricostruzione della storia antica d'Israele. Roma: Accademia Nazionale dei Lincei, 2005, 202 p. Distribuidor: Bardi Editore, Roma ["Siamo ufficialmente gli editori delle pubblicazioni dell'Accademia Nazionale dei Lincei e suoi esclusivi distributori mondiali. Forniremo direttamente tutte le opere disponibili dal 1876 ad oggi"].

 

Giovedì 6 marzo

9.30 Indirizzi di saluto 

L'ARCHEOLOGIA E I PERIODI PIÙ ANTICHI

10.00 Israel FINKELSTEIN (Tel Aviv University): From Canaanites to Israelites: When, How and Why 
11.00 Intervallo 
11.15 William G. DEVER (University of Arizona, Tucson): Histories and Non-Histories of Ancient Israel: What Archaeology Can Contribute 
12.15 Jean Louis SKA (Pontificium Institutum Biblicum, Roma): Story Telling and History Writing in the Patriarchal Narratives 

IL PERIODO DELLA MONARCHIA UNITA

16.00 Alberto SOGGIN (Università di Roma "La Sapienza"): King David 
17.00 Intervallo 
17.15 Niels Peter LEMCHE (University of Copenhagen): Jerusalem and King Solomon: How Writers Create the Past 
18.15 Mario LIVERANI (Università di Roma "La Sapienza"): Experimental Historiography: How to Write a Solomonic Royal Inscription 


Venerdì 7 marzo

LA MONARCHIA DIVISA E L'ETÀ ASSIRA

9.30 Nadav NAAMAN (Tel Aviv University): The Sources Available for the Author of the Book of Kings 
10.30 Peter MACHINIST (Harvard University): The Assyrian-Israelite Encounter and the Modern Historian: Observations and Challenges 
11.30 Intervallo 
11.45 Giovanni GARBINI (Università di Roma "La Sapienza"): Biblical Philology and North-West Semitic Epigraphy: How do they Contribute to Israelite History Writing 

IL PERIODO PERSIANO ED OLTRE

15.00 Philip R. DAVIES (University of Sheffield): The Social and Political Context for the Book of Deuteronomy 
16.00 Intervallo 
16.15 Lester GRABBE (University of Hull): Pinholes or Pinheads in the Camera Obscura? The Task of Writing a History of Persian Period Yehud 
17.15 Thomas THOMPSON (University of Copenhagen): A Problem in Historical Method: Reiterative Biblical Narrative as Supersessionist Historiography 
18.15 Discussione generale 

Il Convegno è organizzato con il contributo dell'Università di Roma "La Sapienza".

ROMA - PALAZZO CORSINI - VIA DELLA LUNGARA, 10

Knud Jeppesen (Dinamarca)

Ex-professor de Antigo Testamento na Universidade de Aarhus, Dinamarca. Exerceu o cargo de Vice-Reitor do Instituto Ecumênico Tantur para Estudos Teológicos de Jerusalém.

Obras: Det Gamle Testamente pä gudstjenestens betingelser I : introduktion til de gammeltestamentlige laesninger efter første tekstrække med sproglige noter af Martin Ehrensvärd. København: Anis, 2004.

Posicionamento: moderado.


JEPPESEN, K. Exile a Period – Exile a Myth, em GRABBE, L. L. (ed.) Leading Captivity Captive. The ‘Exile’ as History and Ideology. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1998, 161 p. - ISBN 9781850759072, p. 139-144, avaliando as contribuições de alguns participantes do Seminário - que ele classifica em dois grupos: as contribuições de Rainer Albertz, Bob Becking e Lester L. Grabbe, que lidam com o problema de se e de que maneira nós podemos reconstruir a história da época do exílio e as contribuições de Thomas L. Thompson e Robert P. Carroll que, de outro lado, procuram explorar o exílio mais como mito e metáfora - mostra a dificuldade do tema nas posições dos debatedores citados.

Rainer Albertz, por exemplo, que de modo algum pretende ser um minimalista, acaba admitindo que o exílio é “um buraco negro” na narrativa histórica bíblica ou uma “caixa preta”, na qual os pesquisadores colocam tudo o que não cabe no período pré-exílico. Já Bob Becking, discutindo o livro de Esdras está convencido de que processos como ‘exílio’ e ‘volta’ ocorreram, mas conclui que sabemos muito pouco sobre isso. Grabbe é quem parece não ter muitas dúvidas! Jeppesen diz que, em princípio, concorda com Albertz, Becking e Grabbe e acha que nós ainda podemos contar alguma estória sobre o ‘exílio’ de 587-586 AEC. Mas ele vê também que o exílio é interpretado pela Bíblia como um mito universal, e, por isso, aprecia as colocações de Thompson e Carroll, quando trabalham o exílio como mito, metáfora e símbolo.

E conclui: “Eu ainda acredito que deve haver alguma forma de conexão entre o exílio na história e o exílio na narrativa mítica (....) A ideologia – o mito - e a narrativa – a ‘história’ – são duas diferentes maneiras de conhecimento que nós devemos manter distintas. Os pesquisadores freqüentemente as misturam e, por isso, é difícil para o mito e a história conviverem em paz. Nós precisamos dos dois, mas nós devemos traçar uma linha divisória entre eles (...) Para os pesquisadores bíblicos, uma escolha entre mito e história é equivalente a uma escolha entre a história e a Bíblia. E se houvesse a possibilidade de escolha, eu iria sempre preferir a Bíblia – ela é muito mais excitante do que a história".


Lester L. Grabbe (Reino Unido)

Professor de Bíblia Hebraica e Judaísmo Antigo na Universidade de Hull, Reino Unido.

Obras: Judaism from Cyrus to Hadrian. I. Persian and Greek Periods; II. Roman Period. Minneapolis: Augsburg Fortress, 1992 & London: SCM Press, 1994;  A History of the Jews and Judaism in the Second Temple Period: Vol 1, Yehud: A History of the Persian Province of Judah. London: T & T Clark, 2006, 496 p. - ISBN 9780567043528; Ancient Israel: What Do We Know and How Do We Know It? London: T & T Clark, 2007, 328 p. - ISBN 9780567032546; A History of the Jews and Judaism in the Second Temple Period: Vol. 2, The Coming of the Greeks, the Early Hellenistic Period 335-175 BCE. London: T & T Clark, 2008, 432 p. - ISBN 9780567033963.

Posicionamento: como coordenador do Seminário Europeu sobre Metodologia Histórica [cf. a lista de livros editados por ele] e, durante alguns anos, Diretor da Faculdade de Teologia da Universidade de Hull, Grabbe sempre procurou mostrar uma atitude de equilíbrio entre os mais prudentes e os mais extremistas minimalistas, sendo ele mesmo, em sua própria definição, um declarado ‘minimalista’.


GRABBE, L. L. Are Historians of Ancient Palestine Fellow Creatures – Or Different Animals? em GRABBE, L. L. (ed.) Can a ‘History of Israel’ Be Written. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1997, 201 p. [T. & T. Clark: 2005 - ISBN 0567043207], p. 19-36, chegou às seguintes conclusões: 1) Podemos escrever uma história da antiga Síria-Palestina-Israel. 2) Ao escrever esta história, podemos e devemos usar o texto bíblico. 3) Persistem grandes dificuldades no uso do texto bíblico, de modo que o seu uso precisa ser debatido em cada caso. 4) As fontes arqueológicas e bíblicas precisam ser avaliadas cada uma no seu âmbito, e devemos evitar misturar de modo promíscuo fontes escritas com outros dados. 5) Reconstruções imaginativas e especulativas poderiam ser admitidas e devemos indicar as probabilidades de qualquer hipótese.

GRABBE, L. L. ‘The Exile’ under the Theodolite: Historiography as Triangulation, em GRABBE, L. L. (ed.) Leading Captivity Captive. The ‘Exile’ as History and Ideology. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1998, 161 p. - ISBN 9781850759072, p. 80-100, se propõe analisar três questões: 1. Comunidades exiladas perderam suas identidades e jamais voltaram para suas terras de origem ou não? 2. O que as fontes extrabíblicas podem confirmar sobre os eventos descritos no texto bíblico? 3. Como ficaria uma história construída a partir desse estudo?

Grabbe vai concluir, de sua análise de textos bíblicos e extrabíblicos, que houve uma volta de exilados judaítas, e apresenta seis argumentos favoráveis à sua tese nas pp. 95-96. Tira, em seguida, quatro ‘conclusões metodológicas’ do estudo anterior, conclusões que me parecem mais pressupostos do que qualquer outra coisa! Entre elas (ou eles!), a óbvia de quem é o mediador do Seminário: “Eu rejeitarei qualquer posição que se recuse a usar o texto bíblico na reconstrução histórica do exílio ou que se mantenha numa atitude puramente agnóstica, assim como eu também rejeitarei qualquer posição que aceite sem mais o texto bíblico a não ser que ele possa ser refutado” (p. 98).

Finalmente, Lester Grabbe apresenta, em grandes linhas, o que seria a sua história do exílio, para concluir seu texto com o seguinte parágrafo: “O conceito bíblico de exílio e volta estava, por conseguinte, baseado em eventos reais. Embora exílio e volta representem um tema teológico significativo no texto bíblico, eles não foram construídos apenas com objetivos teológicos. Neste caso específico, a teologia representa uma reinterpretação e reutilização de eventos históricos” (p. 99-100).


Mario Liverani (Itália)

Assiriologista. Professor na Università La Sapienza, Roma, Itália

Obras: Antico Oriente: Storia, società, economia. 13. ed. Roma-Bari: Laterza, 2011, 912 p. - ISBN 9788842095880;  Myth and Politics in Ancient Near Eastern Historiography. Edited and Introduced by Zainab Bahrani and Marc Van De Mieroop, New York: Cornell University Press, 2007, 240 p. - ISBN 9780801473586; Para além da Bíblia: História antiga de Israel. São Paulo: Loyola/Paulus, 2008, 544 p. - ISBN 9788515035557 (veja a bibliografia completa de Liverani aqui). 

Posicionamento: moderado


Mario LiveraniMario Liverani, Nuovi sviluppi nello studio della storia dell’Israele biblico, em Biblica 80 (1999), p. 488-505, diz o seguinte: "Infelizmente, a lentidão em adotar as conseqüências mais radicais (e positivamente construtivas)  do novo modo de fazer história, do novo papel e das novas potencialidades da arqueologia, levou a uma espécie de defasagem operacional em relação às mais recentes tendências no campo da análise textual e literária. Se não estou enganado, a assim chamada 'nova história' e a assim chamada 'nova arqueologia' poderiam interagir melhor com uma crítica literária de matriz em última análise wellhausiana  (no que toca aos princípios básicos, não nas propostas específicas que hoje parecem um tanto conservadoras), quero dizer, com uma retomada dos materiais textuais dispostos no tempo e girando em torno da época de redação mais do que da época a que se referem. 

Contudo,  as mais recentes tendências de crítica textual e literária me parecem marcadas por tendências descontrutivistas, não direcionadas para uma nova história, mas para novas teologias. Paira também sobre os estudos bíblicos a fórmula do 'fim da história'. Parece que a colocação correta dos materiais documentários no seu contexto cronológico e contextual  específico não é mais considerada a base ou o fim último da análise do texto. O gênero literário da 'História de Israel' é declarado, enfim, 'obsoleto'. 

Parafraseando os títulos de alguns livros recentes bastante estimulantes, há quem se pergunte se é possível escrever uma história de Israel, há quem se coloque em busca do antigo Israel como algo problemático, há quem fale claramente de uma falsificação histórica, ou de uma construção literária, ou, de qualquer maneira, de um edifício que deva ser derrubado (e não necessariamente reconstruído).

O velho problema de avaliar a credibilidade de uma reconstrução histórica em relação a um referente real, de fatos realmente acontecidos, de realidades que existiram de fato, é desconsiderado quando falta o referente real. Creio que esta postura 'pós-moderna' (como se costuma defini-la) tenha muito a ver com a enorme proliferação dos fluxos de informação indireta e incontrolável a que estamos submetidos. A realidade da informação instantânea leva a duvidar da existência mesma do fato: é o mundo 'virtual' no qual estamos imersos.

Com certeza os principais defensores da nova tendência (Th. L. Thompson, N. P. Lemche, Ph. Davies) acreditam estar fazendo história, lançando as bases para uma nova - ampliada nos problemas e nas fontes, sabidamente crítica, finalmente correta - história de Israel. A minha preocupação é que tal tentativa,  que  realizada nos anos setenta e com total adesão à 'função' filológica da crítica textual teria sido certamente construtiva, corra agora o risco (no clima dos anos noventa) de ser envolvida pelas tendências desconstrutivistas e anti-históricas dominantes. 

Não entrarei, por absoluta incompetência, nos meandros fascinantes das novas teologias; limitar-me-ei a observar que uma postura desconstrutivista não serve à reconstrução histórica como esta era compreendida até recentemente. 

Uma vez desmontado o livro dos Juízes (...) em sentido lévistraussiano, ou em sentido feminista, ou em qualquer outro sentido que ilustre os valores morais ou as tensões sociais ou os mecanismos mentais, entende-se que estes valores e estes mecanismos sejam colocados fora da história, que a sua datação precisa seja impossível ou irrelevante: século XI ou VI ou III, não faz grande diferença. Na prática: posto que as narrativas do livro dos Juízes não sejam mais utilizados para escrever o capítulo (enfim inexistente) da liga tribal pré-monárquica, não se sabe mais para qual outro capítulo se deva utilizá-lo e acaba-se com o não utilizá-lo (para uma reconstrução histórica).

Não é por acaso que as propostas historiográficas mais estimulantes, no multifacetado mundo do revisionismo, dizem respeito à crítica do paradigma passado, e à acentuação dos seus condicionamentos: penso na inserção do Israel bíblico na Orientalismo como discurso ocidental para produzir um 'duplo' de si mesmo sobre o qual lançar clamores inconfessáveis. Penso nos estudos sobre colonialismo como apropriação do passado alheio para poder legitimar o próprio passado. Penso no impacto do sionismo em projetar um modelo antigo de validação para os projetos políticos em andamento. Penso na individuação do contexto europeu (e especialmente alemão) do final do século XIX como matriz da centralidade dos conceitos de 'estado' e de 'nação'. Penso nas reivindicações feministas de uma história que não seja só masculina, às reivindicações do Terceiro Mundo de uma história que não seja sempre vista a partir do Ocidente, que se seguem àquelas marxistas de uma história que não seja somente aquela das classes dominantes.

Todo este afã crítico e autocrítico é louvável e muito bom; mas, enquanto permanece ao nível de manifesto reivindicatório, este deve enfrentar ainda a parte mais difícil do trabalho, que é o de escrever, de fato, uma história que não incorra nem nestes pecados já conhecidos nem em outros que as gerações futuras se encarregarão, sem dúvida, de cometer" (pp. 497-500).

Obs.: as notas de rodapé - números 21 a 34 - foram omitidas, mas deveriam ser consultadas no artigo original, pois são importantes para a discussão. 

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