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3. Impossibilidade Históricaa. O deslocamento de personagens ilustres de uma terra distante em busca de um menino desconhecido. b. O aparecimento/desaparecimento de um astro celeste em função de um fato terrestre. c. O comportamento de Herodes que consulta os especialistas, mas não vai a Belém. d. A perturbação de toda Jerusalém. e. A conversão de gentios logo após o nascimento de Jesus. Tudo isto nos leva em outra direção...
4. Mateus, um Evangelho Anti-Semita?Durante muito tempo, Mateus foi considerado o mais anti-semita dos evangelhos, no qual se revelaria como os seguidores do Nazareno teriam entrado em choque, nos anos que se seguiram à destruição de Jerusalém em 70 d.C., com um farisaísmo sectário, acusado ao longo do evangelho de perversão, tirania, ambição, intemperança. Enfim, acreditava-se que a polêmica de Mateus com o judaísmo poderia ser resumida na seguinte frase: os judeus recusaram Jesus como Messias, enquanto que os gentios o acolheram favoravelmente. Esta é a posição clássica da exegese e prevalece ainda em muitos comentaristas. Entretanto, pesquisas recentes dos períodos pós-exílico e pós-guerra dos anos 60/70 d.C. contra Roma levaram autores importantes como Anthony J. Saldarini e J. Andrew Overman à defesa de uma visão radicalmente diferente sobre o evangelho de Mateus: o texto de Mateus é mais judaico do que imaginamos. É a expressão de um grupo dissidente judaico que tenta, no contexto pluralista judaico do Segundo Templo e do pós–guerra de 70, impor sua visão e interpretação da vértebra do judaísmo deste período: a Torá e as tradições judaicas[2]. O movimento de Jesus é intrajudaico. "O texto de Mateus é um texto judaico que tem um programa normativo para uma comunidade judaica e quer ver este programa triunfar sobre o de seus rivais. O autor considera ter a verdadeira interpretação da Torá, o que ele faz mediante a tradição de Jesus, que ele declara ser o Messias e Filho de Deus"[3]. E o que diz J. Andrew Overman? Na situação e no ambiente da comunidade de Mateus, o fator que influenciou mais profundamente seu desenvolvimento foi a competição e o conflito com o chamado judaísmo formativo, um grupo, que, como a comunidade de Mateus, estava envolvido em um processo de construção e definição social após a destruição do Templo de Jerusalém. "Na época da escritura do Evangelho de Mateus, os dois grupos, o judaísmo formativo e o judaísmo de Mateus, estavam evidentemente em competição e, ao que parece, o judaísmo formativo estava ganhando terreno. Isso tem um impacto significativo na forma e no conteúdo do Evangelho de Mateus. Muitos dos desenvolvimentos na vida da comunidade de Mateus ocorriam em resposta ao impacto que um judaísmo formativo em organização e consolidação estava tendo sobre as pessoas da comunidade e sobre seu mundo"[4]. Saldarini, por sua vez, garante que "em nenhuma passagem Mateus rejeita o 'Judaísmo' ou o 'povo judeu'. Nem, ao contrário da opinião de muitos intérpretes, afastou-se da comunidade judaica em favor de uma nova comunidade cristã. Nenhuma das polêmicas de Mateus apontam para o Judaísmo ou o povo judeu como um todo, mas sim para certas interpretações do Judaísmo e para líderes da oposição e, ocasionalmente, para o povo que os segue na rejeição do grupo mateano e seu entendimento da vontade de Deus". E mais adiante: "Embora seja, às vezes, descrito como antijudaico, na verdade Mateus reserva seu veneno para líderes judaicos hostis e, ocasionalmente, para quem segue estes líderes em uma firme rejeição de Jesus". E ainda: "Mateus e seu grupo estão em luta pelos corações e mentes dos companheiros judeus"[5]. E os gentios? "Presentes de diversas maneiras, os gentios fazem parte do mundo judaico de Mateus. Alguns deles desempenham papel especial, como os magos, a mulher cananéia e o centurião ao pé da cruz. Quando Mateus enfatiza a presença e a fé dos não-judeus, faz disso um artifício para que seu grupo dê uma resposta mais convincente à sua fé. Contudo, como afirmamos, Mateus, mantém abertas as fronteiras para os gentios, desde que estes estejam dispostos a se aproximarem, positivamente, de Israel e de Jesus, confirmando suas tradições e a Lei", nos lembra Carlos Alberto Rodrigues Jorge quando fala do 40 capítulo do livro de Saldarini, O horizonte de Mateus: as nações[6]. Saldarini é enfático ao afirmar no capítulo conclusivo de seu livro: "Mateus não substitui Israel pelos gentios, ao contrário do que pensam muitos comentaristas. A teoria de substituição ou supercessionária foi desenvolvida por autores cristãos do século II, por exemplo, Barnabé e Justino, e foi depois projetada de volta para Mateus, em geral pela construção de uma teologia da história da salvação alheia a Mateus. Mateus abre as portas para não-judeus, mas espera que eles observem a lei revelada na Bíblia"[7]. A quem se dirige Mateus? Saldarini, ainda nas Conclusões, define: “Este estudo conclui que o evangelho de Mateus dirige-se a um grupo dissidente na comunidade judaica da grande Síria, uma seita reformista que procura influência e poder (relativamente sem sucesso) na comunidade judaica como um todo”[8]. E quem é o autor do evangelho? "O autor de Mateus (...) provavelmente é um judeu que, embora expulso da assembléia de sua cidade, ainda se identifica como membro da comunidade judaica e apóia a obediência à Lei judaica de acordo com a interpretação de Jesus", diz Saldarini[9].
5. O Sentido de Mt 1-2
a. Mt 1,1-17 : filho de Davi, filho de Abraão b. Mt 1,18-25: Emanuel, Salvador, Filho de Deus.
Olhando de outro ângulo, pode-se dizer que temos em Mt 1-2 um tema de abertura, como na música erudita, e o desenvolvimento do tema em cinco amostras de quem é Jesus para a comunidade cristã. Assim:
Portanto, Mt 1-2 deve ser lido à luz da ressurreição e da confissão da comunidade de que Jesus é o Messias. Não é uma narração de fatos históricos precisos, mas um painel teológico construído com os pedaços da tradição judaica e cristã, com função pastoral. Mt 1-2 é um midrash,
gênero rabínico de exegese ou explicação da Bíblia. É uma atualização de
um dado bíblico em função da situação atual. O termo vem da raiz darash,
"procurar", e significa, portanto, "procura",
"busca". Em um dos tipos de midrash, a haggadah (da raiz higgid,
"anunciar", "narrar", significa "o que diz a
Escritura"), por exemplo, os escribas refletiam sobre os grandes
acontecimentos da salvação narrados na Escritura e sobre os homens
importantes, para mostrar a sua atualidade[10].
Nos meios (essênios e) cristãos insistia-se muito no cumprimento das promessas da Escritura: agora, no momento adequado e definitivo, via-se a sua realização na vida da comunidade. É o midrash pesher. Mateus faz exatamente tal leitura das Escrituras em 1-2. O pressuposto do pesher é o seguinte: o profeta, salmista ou sábio não escreveu para a sua época, mas para os tempos finais, de realização das promessas. O princípio que rege tal comentário é o da apocalíptica, fazendo da Escritura uma imensa alegoria... Pesher significa "explicação", "significado".
6. Os Elementos Mais Importantes de Mt 2,1-126.1. Herodes MagnoHerodes Magno (37-4 a.C.) é um usurpador do trono judeu, com aprovação de Roma. Ele é idumeu e Edom foi um tradicional inimigo de Israel. Deste modo, por ser estrangeiro, não tem para com os judeus nenhuma relação de reciprocidade e sua legitimidade se funda na própria estrutura do poder exercido[11]. Herodes constrói uma estrutura de poder independente da tradição judaica:
Mas, se ele viola assim a tradição, como consegue legitimidade? A estrutura de poder do Estado sob Herodes é bem diferente da estrutura da época dos Macabeus:
Daí seu pavor, segundo Mateus, ao ouvir falar de um rei dos judeus descendente de Davi. Para Mateus, ele é a figura do Faraó que persegue o novo Moisés, libertador do povo.
6.2. A Data do Nascimento de JesusComo pode Jesus ter nascido antes da Era Cristã? Vamos começar pela citação de uma extensa nota de rodapé de um dos mais importantes estudos sobre o Jesus histórico existentes atualmente, que é o de John P. Meier, Um Judeu Marginal. Repensando o Jesus Histórico. No volume I, capítulo 11, nota 24, Meier observa: "O paradoxo de Jesus ter nascido em alguma data anterior a 4 a.C. se deve ao nosso atual sistema de contagem dos anos, a.C. ('antes de Cristo' e d.C. ('depois de Cristo') ou A.D. (anno Domini = 'no ano do Senhor [Jesus]'), estabelecido pelo monge Dionísio Exíguo. Na primeira metade do século VI A.D., Dionísio sugeriu que os cristãos deveriam contar os anos a partir do nascimento de Cristo, e não do reinado do Imperador Diocleciano (notório por sua perseguição aos cristãos) - isto para não falar da contagem a partir da tradicional data da fundação da cidade de Roma (A.U.C. [ab urbe condita], que corresponderia a 753 a.C. no nosso atual sistema de contagem). Infelizmente, a aritmética de Dionísio não estava no mesmo nível de sua devoção; ele calculou erradamente o ano da morte de Herodes (dessa forma antecipando as posições de alguns exegetas do século XX) e, em decorrência, o ano do nascimento de Jesus. Dionísio considerou que 1 A.D. fosse equivalente a 754 A.U.C., errando por quatro anos no mínimo, pois Herodes morreu em 750 A.U.C."[13]. O mesmo autor, tratando das narrativas da infância de Jesus segundo Mateus e Lucas, vai dizer: "Será que as Narrativas da Infância têm algo a contribuir para o nosso conhecimento do Jesus histórico? Alguns exegetas responderiam: praticamente nada. Contudo, um julgamento totalmente negativo pode ser muito radical". E continua dizendo que a teoria mais bem aceita sobre a relação entre os evangelhos sinóticos mostra que Mateus e Lucas não se conheceram. Além do que as narrativas da infância são bem diferentes entre si. Em que isto contribui? "Quaisquer concordâncias entre os dois [Mateus e Lucas] nessas narrativas se tornam historicamente significativas, em especial quando o critério da múltipla confirmação é invocado. Essas concordâncias em duas narrativas independentes e profundamente contrastantes representariam, no mínimo, um recurso a uma tradição mais antiga, e não a criação dos evangelistas (...) Por exemplo, apesar de todas as suas divergências, tanto Mateus como Lucas situam o nascimento de Jesus durante o reinado de Herodes, o Grande (37-4 a.C.; cf. Mateus 2,1 e Lucas 1,5)"[14]. Para concluir: "A correlação de Mateus 2 e Lucas 3,23 torna provável - embora não certo - que Jesus tenha nascido poucos anos, e apenas poucos, antes de 4 a.C."[15]. [2]. Cf. SALDARINI, A. J., A Comunidade Judaico-Cristã de Mateus (original inglês de 1994), São Paulo, Paulinas, 2000. Cf. também a resenha desta obra, feita por Carlos Alberto Rodrigues Jorge, à época aluno do 30 ano de Teologia, em Cadernos de Teologia n. 8 (setembro de 2000), Campinas, ITCR da PUC-Campinas, pp. 71-75. [3]. RODRIGUES JORGE, C. A., o. c., p. 72. [4]. OVERMAN, J. A., O Evangelho de Mateus e o Judaísmo Formativo. O Mundo Social da Comunidade de Mateus (original inglês de 1990), São Paulo, Loyola, 1997, p. 14; Cf., do mesmo autor, Igreja e Comunidade em Crise: o Evangelho Segundo Mateus (original inglês de 1996), São Paulo, Paulinas, 1999. [5]. SALDARINI, A. J., A Comunidade Judaico-Cristã de Mateus, pp. 80 e 119. [6]. RODRIGUES JORGE, C. A., o. c., p. 73. [7]. SALDARINI, A. J., o. c., p. 321. [9]. Idem, ibidem, p. 42. [10]. Cf. KETTERER, E. & REMAUD, M., O Midraxe, São Paulo, Paulus, 1996. [11]. Cf., para o que se segue, KIPPENBERG, H. G., Religião e formação de classes na antiga Judéia, São Paulo, Paulus, 1988, pp. 109-116. [12]. KIPPENBERG, H. G., Religião e formação de classes na antiga Judéia, p. 114. [13]. MEIER, J. P., Um Judeu Marginal. Repensando o Jesus Histórico. Volume Um: As Raízes do Problema e da Pessoa, Rio de Janeiro, Imago, 1993, p. 411, nota 24. [14]. Idem, ibidem, pp. 213-214. [15]. Idem, ibidem, p. 371.
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