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1.3. A Mediação Hermenêutica NecessáriaGostaria de caracterizar agora a leitura da Bíblia feita nos cursos de Teologia, ou melhor, em alguns dos mais bem estruturados cursos de Teologia do país.
O papel da S. Escritura, em vários currículos teológicos, tem sido o de fundamento ou fonte inspiradora da reflexão teológica. Então o dado básico da fé é mediado hermeneuticamente pelos textos bíblicos, levando-se em conta quatro elementos na leitura: o texto e seu contexto, de um lado; nós e o nosso contexto, de outro lado. É estabelecida assim a seguinte correlação: o texto está para o seu contexto, assim como nós estamos para o nosso contexto. Deste modo, a identidade do sentido não é procurada no contexto ou na mensagem, mas na relação entre contexto e mensagem.
Deste modo, procuram os exegetas evitar dois modelos usuais de leitura. Aquele que funciona apenas com as categorias de regra e aplicação, tomando o texto bíblico como um código de normas a ser aplicado às situações atuais, sem mais. Ou ainda, o modelo que estabelece uma relação de igualdade ou profunda semelhança entre a situação do texto bíblico e a nossa, mesmo falando do contexto da Escritura e do nosso contexto. Desta maneira, manipular-se-ia facilmente o texto, exatamente a partir dos interesses preestabelecidos do leitor.
Quando o exegeta aborda o texto, ele o submete a uma verdadeira bateria de questões, do tipo: · como conseguir uma reconstrução do texto a mais próxima possível do original? · qual é a proveniência do texto, quem é o seu autor, quais são as suas características literárias, seu contexto histórico-cultural? · qual é o gênero literário do texto analisado, as formas fixas do discurso utilizado, mesmo na sua fase de transmissão oral, qual o seu contexto social e a intenção de sua linguagem específica? · como o autor trabalhou teologicamente o material recebido da tradição, dando-lhe a forma atual? · como foi o desenvolvimento progressivo da tradição desde as camadas pré-literárias até a sua elaboração por escrito?
Para responder a tantas questões, a exegese criou e desenvolveu nos últimos séculos um vasto instrumental histórico-crítico conhecido como: crítica textual, crítica literária, crítica e história das formas, história da redação e história da tradição.
Mesmo assim, nem tudo pode ser respondido aí, porque ainda restam as questões do nosso lado:
a) Para que ler o texto? Trabalha-se aqui com o problema da finalidade que é a de iluminar a caminhada da comunidade cristã, na busca de uma transformação de estruturas desumanas e anticristãs.
b) Com quem ler o texto? É a questão do interlocutor, o homem latino-americano empobrecido e excluído.
c) Como ler o texto? É a articulação Bíblia-Realidade que se pensa aqui: o modo concreto dessa articulação, os obstáculos que se apresentam e as possibilidades de tal articulação.
Como se vê, são os vários recursos da leitura histórico-crítica os mais utilizados. Somados, hoje, é claro, a fecundas contribuições da linguística e a um interessante retorno das questões sócio-antropológicas.
Pode-se afirmar que esta leitura feita entre nós tem levado a várias consequências, mas gostaria aqui de destacar apenas duas: . cria-se o hábito de procurar, na Bíblia, mais um sentido global, através de uma permanente atitude de alerta hermenêutico, do que a aplicação de sentidos parciais, retirados, segundo a necessidade, de textos isolados . o confronto cotidiano do povo entre a Bíblia e os desafios da vida leva ao avanço metodológico, enquanto o exegeta é estimulado a buscar métodos mais adequados e realistas para a compreensão dos textos.
1.4. Ler a Vida com a Ajuda da BíbliaDe todos os usos recentes da Bíblia entre nós, o que mais chama a atenção é a leitura popular feita pelas CEBs.
Quem melhor traduz a dimensão da leitura popular da Bíblia é Carlos Mesters, quando afirma: “A preocupação principal do povo não é interpretar a Bíblia, mas é interpretar a vida com a ajuda da Bíblia”[2].
Ou ainda: “Estimulado pelos problemas da realidade (pré-texto), o povo busca uma luz na Bíblia (texto), que é lida e aprofundada dentro da comunidade (con-texto). O pré-texto e o con-texto determinam o ‘lugar’ de onde se lê e interpreta o texto”[3]. Quando falta um desses elementos, a leitura empaca.
Há quatro elementos que, segundo Carlos Mesters, caracterizam a leitura popular da Bíblia: · para o povo, a Bíblia vai além do texto: é Palavra de Deus viva e atual · o povo recupera a dimensão comunitária e eclesial na leitura e aplicação da Bíblia · o povo reapropria-se da Bíblia, mistura com a vida e começa a despertar para uma consciência crítica · para o povo a Bíblia não é só história, é espelho da vida. O povo não pergunta primeiro pelo fato (aconteceu mesmo?), mas pelo símbolo (o que significa?)[4].
Falar
de leitura popular, hoje, é falar também do CEBI, Centro de Estudos Bíblicos,
que nasceu em 1978, “a partir da necessidade bem concreta, sentida por muita
gente havia vários anos, de se articular um serviço que ajudasse o povo das
Comunidades Eclesiais de Base no uso e na interpretação da Bíblia”[5].
Idealizado por Carlos
Mesters, o CEBI é um organismo ecumênico espalhado por
todo o país, que procura interpretar a Bíblia: :: a partir dos pobres :: a partir da realidade brasileira e latino-americana :: a partir e em vista da comunidade de fé :: ajudando o povo a reapropriar-se da Bíblia :: procurando uma leitura ecumênica da Bíblia :: uma leitura que leve em conta a questão do método mais adequado ao povo simples :: e que considere os múltiplos aspectos da vida, além da razão: a fantasia, a poesia, a fé, a celebração...
A ata de fundação do CEBI, assinada por 23 pessoas, no dia 20 de julho de 1978, atesta a presença das Igrejas Presbiteriana, Congregacional, Católica, Metodista e Anglicana.
2. Por Que se Lê a Bíblia?2.1. A Opção pelos PobresEsta não é uma questão tão fácil de ser respondida. Há certamente uma série de razões, uma convergência de múltiplos fatores que levaram à redescoberta da Bíblia entre nós nos últimos anos.
Claro está que o processo de reforma eclesial, que desembocou no Vaticano II e em Medellín,[confira as Conclusões da Conferência de Medellín] conta muito. A conseqüente renovação dos estudos teológicos, o novo espaço conquistado pela Bíblia na liturgia, na catequese e na pastoral, em geral, é extremamente significativo. Pouco a pouco a Bíblia deixa de ser “coisa de protestante”, preconceito bastante difundido entre os católicos, para ser, de novo, o livro da Igreja, de todas as igrejas cristãs.
Mas creio que a análise das causas do crescente uso da Bíblia pela população brasileira passa pela análise das características da Igreja nos últimos 30 anos e, sem dúvida, pelo papel e caminhos das CEBs.
É preciso lembrar, em primeiro lugar, que as CEBs nascem no contexto da ditadura militar instalada no país a partir de 1964. E exatamente aí está uma das suas razões: fechados os outros canais de organização e mobilização, restou, às classes populares, a Igreja, como último espaço social possível. Aliás, é preciso deixar bem claro que não foi a Igreja, enquanto instituição oficial dirigida pelo magistério, que optou pelas classes populares, mas foram estas que ocuparam o espaço representado pela Igreja, graças especialmente às novas perspectivas eclesiais surgidas com o Vaticano II (1965) e com Medellín (1968). As várias pastorais setoriais foram sendo criadas pela cúpula da Igreja como respostas às pressões populares.
A partir desta nova realidade, muitos sociólogos falam de uma ruptura da Igreja, na década de 60, com as seculares posturas anteriores. Mas há aqueles que preferem falar de continuidade, pois manifesta-se aí uma ambiguidade: é a mesma instituição que fomenta, por um lado, a organização popular nas CEBs e, por outro lado, abre espaço para a classe média agrupada em movimentos socialmente reacionários.
Se a Igreja sempre se vinculou, antes de 1964, ao sistema dominante, a partir de então ela passa à defesa dos direitos civis e das liberdades individuais. Ela passa a exercer, em nível nacional, o papel de instituição mediadora entre as transformações sócio-culturais e suas eventuais projeções no sistema político.
Assim, se, por um lado, ela se colocou ao lado das classes populares, envolvendo-se num processo de democratização e descentralização que culmina nas CEBs, especialmente durante a década de 70, por outro lado, contudo, ao defender as liberdades civis e a democracia liberal, ela se identifica com as classes privilegiadas "traídas" pelo regime militar e que defendem, agora, a volta ao Estado de Direito.
Isso é possível, explicam alguns sociólogos, graças ao papel secundário da religião nas sociedades ocidentais contemporâneas: ela não tem a seu cargo a formulação da ideologia dominante e se concentra, por isso, na esfera motivacional, apoiando uma ordem de valores pluralistas.
Aqui entra a Bíblia com toda a sua força: “Os círculos bíblicos propiciaram a relação entre os fatos da vida e os fatos da Bíblia, reduzindo a dicotomia fé e vida, religião e política, Igreja e mundo”[6].
O método ver-julgar-agir possibilitou, por outro lado, a articulação entre comunidades cristãs e organizações de base, soando hegemônica, durante certo tempo, a voz profética da Igreja comprometida com as classes populares.
Entretanto, a volta aos textos fundadores - em nosso caso, à Bíblia - costuma acontecer, nas grandes religiões, nas crises de hegemonia que a instituição tem ou julga ter. É reativada assim sua consciência profética, na busca de uma identidade ameaçada pelas mudanças sociais e políticas. Só que a identidade religiosa não se define nem em si mesma, nem na relação direta religião-sociedade. Mas na disputa de posições hegemônicas ou na subsistência social de seus agentes em um campo de trocas simbólicas. “Identidades são estratégias simbólicas de lidar com o poder através da diferença”[7].
É por esta via que a Bíblia ajuda o povo - pela semelhança de situações entre o Israel antigo e o Brasil atual - a criar uma identidade, enquanto ele se vê como povo oprimido e fiel a Deus. Identidade que é estratégia simbólica na luta contra o poder dominador através da diferença: também o dominador é católico, exigindo do dominado a criação de uma leitura da Bíblia diferente da tradicional leitura do catolicismo oficial.
O oprimido procura na Bíblia uma linguagem para dizer sua luta. É que a linguagem do capital (atualmente de clara tendência neoliberal) predomina nos meios de comunicação, na história oficial, na escola, nas religiões tradicionais... Os discursos oficiais do Estado (e das igrejas) não traduzem a realidade popular. Daí a redescoberta da Bíblia como o discurso do povo, amparado pela legitimidade do sagrado, por isso, sempre vista como Palavra de Deus. Eis por que, em tal leitura, a Bíblia não é a fala de Israel com a sua época, mas a mensagem de Deus para o homem de hoje[8].
2.2. A Opção pela Classe MédiaComo vimos acima, a redescoberta da Bíblia no pós-Vaticano II se dá a partir da crise de hegemonia da Igreja na década de 60 do século XX. Foi quando começou a se implantar, na sociedade brasileira, a modernidade, consequência da inserção ativa do país na economia capitalista internacional. É nesse contexto, de rápidas mudanças, que acontece a ruptura, especialmente nos grandes centros urbanos, com os tradicionais padrões morais e sociais defendidos pela Igreja. Aí, dizíamos, a Bíblia se manifestou como instrumento eficaz na redefinição da identidade católica. Entretanto, convém lembrar que não é apenas nas CEBs que a Bíblia é usada. Ela é redescoberta também pelas classes médias, através de movimentos transnacionais, que impressionam por seu crescimento e persistência.
Defendendo a formação de uma neocristandade, os movimentos possuem uma estratégia bem precisa: influenciar a sociedade não mais via Estado, mas via sociedade civil, ressocializando (convertendo) os cristãos num meio pluralista. Os movimentos visam formar o cristão leigo ativo, em oposição ao cristão tradicional, que só é cristão porque nasceu assim.
Embora tenham origens e estruturas diferenciadas, os movimentos possuem características comuns, tais como: são predominantemente de classe média, defendem a família como fundamento da estrutura social, posicionam-se contra os movimentos populares, a opção pelos pobres e a Teologia da Libertação, olham o homem exclusivamente a partir de sua subjetividade, opõem-se ao engajamento social e político do clero, restringindo sua missão à função religiosa...
Luiz Roberto Benedetti assinala que o papel do leigo nos movimentos - positivo, ativo e não pura negação em relação ao sacerdote - leva a novo clericalismo, enquanto produz a sacralização do cotidiano profano. O leigo, profissionalmente competente, cuida do mundo, enquanto o padre deve restringir-se à ação religiosa tradicional[9].
A meu ver, a leitura da Bíblia, nos movimentos, deve ser compreendida neste contexto: ela serve como ferramenta eficaz para operar este processo de sacralização do real. Que não é real objetivo, é significado, é subjetivo.
Este processo de subjetivização chega a extremos, por exemplo, na Renovação Carismática Católica. Para a RCC, crer é sentir, já que a ação imediata de Deus, percebida pela vivência intensa da emoção, do entusiasmo, constitui a realidade total, a história objetiva. Entusiasmo vem do grego enthousiasmós, indicando o arrebatamento, o transe daqueles que estavam sob inspiração divina, como as sibilas.
É aí que entra a Bíblia: ela testemunha a autenticidade do sentimento do indivíduo. É uma leitura fundamentalista radical. “Radical porque vai além da aceitação, como dado objetivo, da narrativa bíblica, para assumir como única realidade os fatos de agora, sentidos como intervenção atual de Deus. É o mesmo fato: o bíblico e o de hoje. Não é nenhuma analogia”[10]. Daí a recriação de vivências primitivas, literalmente.
O resto é o óbvio: eliminadas as fronteiras entre o objetivo e o subjetivo, o mundo é reduzido ao coração do homem, onde Deus age através de seu Espírito. Para além do discurso moralista, esta subjetivização radical permite a sacralização até do dinheiro, que sustenta a sólida organização do movimento.
Termino com Benedetti, que afirma: “A grande aceitação que os encontros têm junto à classe média tem muito a ver com a sua insegurança e, sobretudo, seu ressentimento, disfarçado como indignação moral. Esse mecanismo social serve também para a classe média desobrigar-se de um compromisso social efetivo, reduzindo os problemas do mundo a problemas morais”[11].
Mas fica aqui, ainda, uma tarefa por mim definida, mas não completamente realizada: analisar a função social do discurso homilético de classe média. Minha hipótese é de que aquelas homilias aparentemente incompetentes e desnecessárias - na medida em que reproduzem um discurso óbvio - são socialmente competentes e necessárias para reproduzir e sacralizar os instrumentos capitalistas de dominação e, com sua crítica romântica das aparências, levar à acomodação à situação vigente. São discursos muitas vezes baseados numa ontologia existencialista e radicalmente inibidores da criticidade exegética.
[2]. MESTERS, C. Flor sem defesa. Uma explicação da Bíblia a partir do povo. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 1999, p. 37. [3]. Idem, ibidem, p. 42. [4]. Cf. Idem, ibidem, p. 305-310. [5]. CEBI, Por trás da Palavra, n. 25, p. 2, nov./dez. de 1984. [6]. BETTO, Fr. Prática pastoral e prática política. Tempo e Presença, n. 26, p. 13, 1980. [7]. BRANDÃO, C. R. Ser católico: dimensões brasileiras - um estudo sobre a atribuição de identidade através da religião. In: VV. AA. Brasil & EUA: religião e identidade nacional. Rio de Janeiro: Graal, 1988, p. 58. [8]. É oportuno mencionar que são duas as forças simbólicas de sustentação do espoliado povo brasileiro: a sua ancestral memória histórica de sofrimentos e a sua memória religiosa, que também lhe confere identidade e lhe dá esperança. [9]. Cf. BENEDETTI, L. R. Templo, Praça, Coração: A Articulação do campo religioso católico. Tese de Doutorado (fotocopiado), São Paulo: USP, 1988. [10]. Idem, ibidem, p. 264. [11]. Idem, ibidem, p. 238-239. |