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Ler a Bíblia no Brasil HojeArtigo publicado em Cadernos do Cearp n. 3 (maio de 1995), Ribeirão Preto, CEARP, pp. 23-36. Fato incontestável é a redescoberta da Bíblia e o seu uso constante por todas as igrejas cristãs no Brasil, hoje. Este artigo quer refletir sobre algumas das muitas leituras feitas nos últimos anos. Um levantamento completo abrangeria muito mais. As limitações de quem escreve impõem, contudo, restrições objetivas e necessárias. Um texto mais amplo do mesmo autor, com o título de Notas sobre alguns aspectos da leitura da Bíblia no Brasil hoje, pode ser lido na REB 50 (março de 1990), Petrópolis, Vozes, pp. 117-137.
O assunto se dispõe em três partes - descrição, análise e perspectivas -, procurando responder, deste modo, a três questões: · como se lê a Bíblia hoje? · por que se lê a Bíblia hoje? · para que se lê a Bíblia hoje?
1. Como se Lê a Bíblia Hoje?1.1. A Descoberta da Bíblia no BrasilA presença da Bíblia no Brasil, nos meios católicos, começa a ser mais significativa a partir da década de 40. Por detrás disso há um fato dos mais importantes. Refiro-me à encíclica de Pio XII, Divino Afflante Spiritu, de 30 de setembro de 1943. Foi esta encíclica que permitiu a entrada, na Igreja, da moderna pesquisa exegética, superando séculos de desconfiança no uso da Bíblia.
Perfeitamente afinado com este momento histórico foi, entre nós, Frei João José Pedreira de Castro, exegeta franciscano, formado em Ciências Bíblicas em 1924. Um dos pioneiros na difusão da leitura e do estudo da Bíblia no Brasil.
Marco fundamental, naqueles tempos, foi a fundação da Liga de Estudos Bíblicos, a LEB, na I Semana Bíblica Nacional, realizada em São Paulo. A LEB reunia os exegetas católicos em amplos debates e estudos, pela primeira vez no Brasil, além de promover a divulgação da Bíblia junto à população.
1.2. À Procura do Melhor TextoUma das questões enfrentadas pelos católicos era a dificuldade de acesso ao texto bíblico em português. A grande maioria da população só conhecia as simplificadas - e, com freqüência, simplistas - “Histórias Sagradas” do catecismo e os selecionados trechos lidos nas missas e (mal) comentados pelos padres. Hoje, surpreende a variedade de Bíblias oferecidas pelas editoras católicas à população brasileira. Estas são as principais “traduções de traduções”, embora freqüentemente cotejadas com os originais:
· A Bíblia Sagrada traduzida do latim pelo Pe. Matos Soares, Lisboa 1932. · A Bíblia da Ave Maria, traduzida do francês e publicada pela Editora Ave Maria em 1957. · A Bíblia do Pontifício Instituto Bíblico de Roma, traduzida do italiano e publicada pela Paulus em 1967. · A Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB) é baseada na conceituada TOB francesa, trabalho ecumênico da maior importância, publicada pela Loyola em 1994. · Bíblia do Peregrino, de Luís Alonso Schökel, traduzida do espanhol, e que se caracteriza pela tradução idiomática e abundância de notas, publicada, em edição completa, pela Paulus em novembro de 2002.
· A Bíblia de Jerusalém, traduzida por uma equipe de exegetas brasileiros e publicada pela Paulus em 1981. Nova edição, inteiramente revista e ampliada, com novas opções textuais e notas atualizadas, foi lançada em 2002, com o título de Bíblia de Jerusalém - Edição Revisada. · A Bíblia da Vozes, traduzida por um grupo de exegetas católicos brasileiros, editada pela Vozes em 1982. · A Bíblia Santuário, publicada pela Editora Santuário em 1982. · A Bíblia Mensagem de Deus, publicada pela Loyola em 1983. · Bíblia Sagrada, Edição Pastoral, que se caracteriza pela linguagem acessível e por interessantes notas explicativas, foi publicada pela Paulus em 1990. Uma edição online está disponível na Internet. · Bíblia Sagrada, tradução oficial da CNBB, publicada, em 2001, por diversas editoras, e em 2006 já na quarta edição, publicada pela própria CNBB.
Outra questão que deve ser abordada é a do nível de compreensão, pelo povo, das várias traduções existentes e a diferença entre leitura e audição do texto.
Remeto tal discussão para um interessante artigo de Alberto Antoniazzi, no qual se avaliam os resultados de duas pesquisas, feitas em 1981, sobre o tema, uma em Ribeirão Preto e outra em Belo Horizonte[1].
O que preocupava os pesquisadores era: · Uma tradução da Bíblia pode ser mais acessível ao povo que outras? · Há diferenças na compreensão do texto bíblico lido e do texto bíblico ouvido? · Se há dificuldades na compreensão, onde estão e como superá-las?
Duas conclusões (provisórias) são interessantes: · É urgente uma tradução acessível da Bíblia, já que o nível de compreensão da Bíblia pelo povo é baixo. · É preciso ter cuidado nesta questão da compreensão, pois, às vezes, tomam-se as opiniões dos padres pela manifestação do povo. Nem sempre o texto que o padre ou o agente de pastoral consideram ser mais acessível ao povo o é de fato.
[1]. Cf. ANTONIAZZI, A., O povo e as traduções da Bíblia. Primeiro resultado de uma pesquisa, em Vida Pastoral 104 (maio/junho de 1982), São Paulo, Paulus, pp. 15-23. Copyright © 1999-2008 Airton José da Silva. Todos os direitos reservados.
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