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5. Algumas Dificuldades da Leitura Sócio-AntropológicaUm dos problemas enfrentados pela leitura sócio-antropológica é a crítica daqueles que dizem que ela é reducionista, porque ao mostrar que a religião é apenas um entre outros fatores que caracterizam a identidade israelita, destrói o pressuposto, tão sedimentado entre os leitores da Bíblia, da exclusividade da religião israelita, diferente das religiões e crenças de todos os outros povos, antigos ou modernos. Entretanto, estudos arqueológicos e históricos mais recentes e avançados têm mostrado, por exemplo, quão insatisfatório é o modelo que pensa uma ética israelita monoteísta e espiritualmente pura em oposição a uma prática mágica cananéia fundamentada nos cultos da fertilidade. Ocorre que nenhum dos dois pressupostos se sustentam tão bem assim. Além do que, tal afirmação decorre mais do consenso tácito presente na maioria das publicações - o que faz a afirmação parecer verdadeira porque tão generalizada - do que na pesquisa antropológica séria[48]. Uma dificuldade típica encontrada pelos biblistas no uso da leitura sócio-antropológica é a diversidade de tendências e a grande extensão do campo das ciências sociais, o que faz com que alguém, mesmo com um conhecimento razoável das obras de Durkheim, Weber e Marx, se sinta bastante perdido quando se fala de perspectivas de conflito, funcionalismo estrutural, idealismo cultural, materialismo cultural... Com freqüência não se sabe que método escolher ou misturam-se na análise várias tendências sociológicas, criando um método eclético que corre o risco de oferecer uma belíssima solução para um problema inexistente ou mal colocado. Ou, como alertam outros autores, nós, biblistas, costumamos utilizar teorias antropológicas e sociológicas que já foram abandonadas pelos especialistas nas respectivas áreas, porque consideradas superadas. Ou, em outras duras palavras: chegamos sempre atrasados, e o resultado é bastante insatisfatório. De fato, uma teoria nunca se baseia em dados empíricos somente, transcende-os sempre. Por isso, Gerd Theissen assinala que diante de uma teoria podem ser assumidas três atitudes[49]: a) A tolerância hermenêutica, a qual afirma que os objetos (sociais) não existem em si mesmos, mas como possibilidade de compreensão para o homem. A conseqüência disso é a de que qualquer interpretação seria verdadeira. É o que ocorre na leitura existencialista quando ela diz ser a religião a busca da autenticidade humana e a fé um salto no escuro. Qualquer interpretação dos textos bíblicos feita a partir deste pressuposto é verdadeira para as pessoas ou os grupos que a fazem. Não há critério algum de objetividade científica. b) A verificação crítica, também chamada de racionalismo crítico, garante, por sua vez, que a legitimidade de uma proposição depende de sua verificabilidade segundo um método científico. É preciso sempre confrontar a teoria com os dados da realidade para verificar a sua validade. Parece boa atitude, e de fato o é do ponto de vista da objetividade da questão tratada. Mas certamente corre-se o risco de permanecerem ocultas as opções éticas prévias e a destinação histórica posterior dos resultados obtidos. c) A percepção engajada já afirma que toda compreensão da realidade é sempre feita segundo um ponto de vista específico, porque ela é determinada por interesses que precedem a própria busca do conhecimento e condicionam o seu desenvolvimento. Desta postura decorre que nem toda interpretação pode ser verdadeira, por mais objetiva que possa parecer, mas somente aquelas que têm claros seus objetivos sociais e humanos e deliberadamente os assumem. E que tais objetivos sejam relevantes para a pessoa, grupo ou sociedade envolvida na busca em questão. Pois relevante para a sociedade humana é aquilo que humaniza. Neste sentido, as categorias de transformação, totalidade e contradição, pertencentes ao método dialético, podem ser fundamentais para a percepção engajada: · a transformação nos alerta para o fato de que nada existe de fixo ou estabelecido de um vez por todas, sejam idéias, categorias, princípios ou estruturas sociais; · a categoria de totalidade indica que, na análise de cada um dos elementos ou dimensões da realidade social, não se pode perder de vista a sua relação com o conjunto; · já a contradição nos adverte que existe um conflito social permanente, levando a enfrentamentos ideológicos, políticos, religiosos que, em última instância, são os confrontos entre as várias classes sociais. “Uma análise dialética é sempre uma análise das contradições internas da realidade”, lembra Michel Löwy[50]. Bibliografia
[48]. Cf. esta discussão em CARTER, C. E., A Discipline in Transition, em CARTER, C. E. & MEYERS, C. L.(eds.), Community, Identity and Ideology, pp. 23-29. Para o debate sobre a exclusividade ou não do culto israelita, cf. ANDERSON, G. A., Sacrifices and Offerings in Ancient Israel: An Introduction, em Idem, ibidem, pp. 182-200; DOUGLAS, M., The Abominations of Leviticus, em Idem, ibidem, pp. 119-151. Sobre as inscrições de Kuntillet 'Ajrûd, dos séculos IX ou VIII a.C., e de Khirbet el-Qôm, da metade do século VIII a.C., ambos em Israel, que parecem associar Iahweh e Asherah, cf. GNUSE, R. K., No other Gods, pp. 69-73. Aí encontra-se também abundante bibliografia sobre a interpretação a ser dada a tão polêmica descoberta. Ver também BINGER, T., Asherah. Goddesses in Ugarit, Israel and the Old Testament, Sheffield, Sheffield Academic Press, 1997. [49]. Cf. THEISSEN, G., Sociologia do movimento de Jesus, Petrópolis/São Leopoldo, Vozes/Sinodal, 1989, pp. 121-123. [50]. LÖWY, M., Ideologias e Ciência Social. Elementos para uma análise marxista, São Paulo, Cortez, 1985, p. 16.
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