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4. Outros Estudos Feitos nos Últimos Trinta AnosMuitos outros estudos sócio-antropológicos sobre a Bíblia Hebraica foram desenvolvidos nos últimos trinta anos. Os de Mendenhall e de Gottwald podem ter chamado mais a atenção, mas, de modo geral, duas áreas receberam a atenção de muitos estudiosos: · a emergência de Israel na Palestina, a primitiva sociedade israelita e a formação do Estado israelita · as instituições do antigo Israel, incluindo a profecia, a religião israelita e as questões de gênero na sociedade israelita[34]. Quanto à primeira área, apenas citarei alguns autores que procuraram avançar a partir e além de Mendenhall e Gottwald. Como nos lembra R. K. Gnuse, as descobertas arqueológicas dos últimos anos encorajaram os pesquisadores na elaboração de novas maneiras de compreender as origens de Israel. As escavações de localidades tais como Ai, Khirbert Raddana, Shiloh, Tel Quiri, Bet Gala, Izbet Sarta, Tel Qasileh, Tel Isdar, Dan, Arad, Tel Masos, Beer-Sheba, Har Adir, Horvart Harashim, Tel Beit Mirsim, Sasa, Giloh, Horvat ‘Avot, Tel en-Nasbeh, Beth-Zur e Tel el-Fûl, deixaram os arqueólogos impressionados com a continuidade existente entre as cidades cananéias das planícies e os povoados israelitas das colinas. A continuidade está presente sobretudo na cerâmica, nas técnicas agrícolas, nas construções e nas ferramentas[35]. O crescente consenso entre os arqueólogos é de que a distinção entre cananeus e israelitas no primeiro período do assentamento na terra é cada vez mais difícil de ser feito, pois estes parecem constituir um só povo. As diferenças entre os dois aparecem apenas mais tarde. Por isso, os arqueólogos começam a falar cada vez mais do processo de formação de Israel como um processo pacífico e gradual, a partir da transformação de parte da sociedade cananéia. “A teoria sugere que, de alguma maneira, cananeus gradualmente tornaram-se israelitas, acompanhando transformações políticas e sociais no começo da Idade do Bronze”[36]. Os defensores deste ponto de vista argumentam com o declínio cultural ocorrido no Bronze Antigo, com a deterioração da vida urbana causada pelas campanhas militares egípcias, com a crescente tributação, e, talvez, com mudanças climáticas. Mas o processo de evolução pacífica de onde surgiu Israel é descrito de maneira diferente pelos especialistas, de modo que R. K. Gnuse prefere classificar as teorias em quatro categorias, que são: · Retirada pacífica · Nomadismo interno · Transição ou transformação pacífica · Amálgama pacífico. Como defensores de uma retirada pacífica de grupos cananeus das planícies para as regiões montanhosas, R. K. Gnuse cita especialmente Joseph Callaway, David Hopkins, Franz Frick, James Flanagan, Gösta Ahlström e Carol Meyers[37]. Defensores do nomadismo interno são C. H. J. de Geus, Volkmar Fritz e Israel Finkelstein[38], enquanto que entre os proponentes de uma transição ou transformação pacífica se destacam o já citado Niels Peter Lemche, William Stiebing, R. Drews, Robert Coote e Keith Whitelam, Rainer Albertz[39]. Finalmente, a idéia de um amálgama pacífico de diferentes grupos nas regiões montanhosas da Palestina para explicar as origens de Israel tem como defensores especialistas como Baruch Halpern, William Dever, Thomas Thompson e Donald Redford. A opinião de R. K. Gnuse é de que este grupo de pesquisadores prevalecerá sobre os outros, por considerar melhor os pressupostos teóricos do debate atual[40]. Obviamente a crítica a estas tendências existe e um dos lugares em que pode ser observada é na segunda edição do livro de N. K. Gottwald, The Tribes of Yahweh, lançado pela Sheffield recentemente. Gottwald, em uma nova introdução, avalia o impacto de seu trabalho sobre as Igrejas e o mundo acadêmico, faz um balanço de seus méritos e limitações, indica seu pensamento atual e aponta os rumos da pesquisa sócio-antropológica sobre o antigo Israel e a Bíblia Hebraica[41]. Na segunda área mencionada, a dos estudos sobre as instituições israelitas, constituiu-se uma ampla discussão em torno dos estudos de Robert Wilson e de Thomas Overholt que aplicaram modelos transculturais no estudo da profecia israelita. Robert Wilson trabalha questões relativas ao profeta visto como intermediário e as forças sociais que o sustentam, distinguindo duas vertentes na profecia israelita: a vertente efraimita e a vertente judaíta[42]. Thomas Overholt trabalha um modelo de profecia orientado pela cultura nativa norte-americana e enfatiza a relação entre o profeta, a divindade e a comunidade para a qual o profeta fala, mostrando que o "feedback" dado pela comunidade é fundamental para a constituição da autoridade profética[43]. Já Paul Hanson, de Harvard, na tradição do conflito, vai buscar as raízes da apocalíptica dentro da profecia, mostrando que no Trito-Isaías (Is 56-66) há um confronto entre grupos visionários herdeiros do profetismo e grupos sacerdotais sadoquitas conservadores, na definição dos papéis sociais que se reconstroem na comunidade pós-exílica[44]. O alemão Hans G. Kippenberg publicou em 1978 um estudo interessantíssimo sobre a formação do judaísmo pós-exílico chamado Religião e formação de classes na antiga Judéia. Estudo sociorreligioso sobre a relação entre tradição e evolução social, "uma tentativa de interpretar social e antropologicamente os temas da história religiosa da antiga Judéia", tarefa possível graças aos "consideráveis progressos da antropologia social anglo-saxônica e da etnologia francesa"[45]. O que motivou o rigoroso estudo de Kippenberg? É que os movimentos judaicos de resistência contra os gregos e contra os romanos tiveram interpretações divergentes por parte dos especialistas, como M. Hengel, H. Kreissig, S. K. Eddy, A. Causse e M. Weber. Mas, nesse meio tempo, avançou a sociologia etnológica em três áreas - etnologia do parentesco, etnologia econômica e antropologia política - possibilitando esta pesquisa, na qual Kippenberg interpreta a antiga literatura judaica em relação aos conceitos e métodos da etnologia ou antropologia social. Utilizando a etnologia, ele tenta reconstruir o tipo de ordem social da Judéia antiga, comparando-o com o de outras sociedades do Antigo Oriente Médio. Neste processo, diz o autor, considera-se ainda a relação do indivíduo com a sociedade e da idéia religiosa com a ordem social mais como contradição do que como unidade. Os movimentos judaicos de resistência levantam, para Kippenberg, a seguinte questão: existia uma relação intrínseca entre determinados conteúdos da tradição religiosa e as lutas de resistência, ou a relação era extrínseca ou casual? A hipótese do autor será: a tradição se uniu com duas tendências antagônicas: a tendência à formação de classes e a tendência à solidariedade. Formam-se, então, dois complexos divergentes de tradição que fundamentam os conteúdos religiosos dos movimentos judaicos de resistência[46]. É lendo obras como esta de Kippenberg que percebemos como a história da comunidade judaica pós-exílica é muito mais do que o relato da passagem da região de um dominador para outro, sejam persas, gregos ou romanos, mas é um desenrolar-se de um drama social que, lentamente, vai dando novo rosto ao povo judeu. Finalmente, não podem ficar esquecidas as sempre mais freqüentes e produtivas leituras feministas da Bíblia Hebraica, que procuram resgatar uma perspectiva ocultada por longos séculos de patriarcalismo. Phyllis Bird, por exemplo, em 1987, mostrou que a mulher tinha um papel mais destacado nos cultos israelitas do que sempre se supôs, enquanto Carol Meyers mostra que a mulher tinha função importante na sociedade israelita, especialmente na esfera doméstica[47]. [34]. CARTER, C. E., A Discipline in Transition , em o. c., p. 20. [35]. Cf. GNUSE, R. K., No other Gods. Emergent Monotheism in Israel, Sheffield, Sheffield Academic Press, 1997, pp. 32-61. [36]. Idem, ibidem, p. 33. [37]. Cf. CALLAWAY, J., Village Subsistence at Ai and Raddana in Iron Age I, em THOMPSON, H. (ed.), The Answers Lie Below: Essays in Honor of Lawrence Edmund Toombs, Lanham, University Press of America, 1984; HOPKINS, D., The Highlands of Canaan, Decatur, Georgia, Almond Press, 1985; FRICK, F., The Formation of the State in Ancient Israel. A Survey of Models and Theories, Decatur, Georgia, Almond Press, 1985; FLANAGAN, J., David’s Social Drama: a Hologram of Israel’s Early Iron Age, Decatur, Georgia, Almond Press, 1988; AHLSTRÖM, G., A History of Ancient Palestine, Minneapolis, Fortress Press, 1993; MEYERS, C., Discovering Eve: Ancient Israelite Women in Context, New York, Oxford University Press, 1988. [38]. Cf. DE GEUS, C. H. J., The Tribes of Israel: an Investigation into Some of the Presuppositions of Martin Noth’s Amphictyony Hypothesis, Amsterdam, Van Gorcum, 1976; FRITZ, V., Die Entstehung Israels im 12. und 11. Jahrhundert v. Chr., Stuttgart, Kohlhammer, 1996; FINKELSTEIN, I., The Archaeology of the Israelite Settlement, Jerusalem, Israel Exploration Society, 1988. [39]. Cf. LEMCHE, N. P., Ancient Israel. A New History of Israelite Society, 1988; STIEBING, W., Out of the Desert? Archaeology and the Conquest Narratives, Buffalo, Prometheus, 1989; DREWS, R., The End of the Bronze Age: Changes in Warfare and the Catastrophe ca. 1200 B.C., Princeton, Princeton University Press, 1993; COOTE, R. & WHITELAM, K., The Emergence of Early Israel in Historical Perspective, Decatur, Georgia, Almond Press, 1987; ALBERTZ, R., A History of Israelite Religion in the Old Testament Period, 2 vols., Philadelphia, Westminster Press, 1994. [40]. Cf. HALPERN, B., The Emergence of Israel in Canaan, Chico, CA, Scholar Press, 1983; DEVER, W., Recent Archaeological Discoveries and Biblical Research, Seattle, University of Washington Press, 1990; THOMPSON, T., Early History of the Israelite People, Leiden, Brill, 1992; REDFORD, D., Egypt, Canaan and Israel in Ancient Times, Princeton, Princeton University Press, 1992. [41]. Cf. Biblical Studies Catalogue: New & Recent Titles. July-December 1999, Sheffield , Sheffield Academic Press, 1999, p. 9. [42]. Cf. WILSON, R. R., Prophecy and Ecstasy: A Reexamination, em CARTER C. E. & MEYERS, C. L.(eds.), Community, Identity and Ideology, pp. 404-422. O estudo original foi publicado em 1979. Idem, Profecia e Sociedade no Antigo Israel, São Paulo, Paulus, 1993 (original inglês de 1980). Cf. uma análise do teor e da função do discurso profético em DA SILVA, A. J., A Voz Necessária. Encontro com os Profetas do Século VIII a.C., São Paulo, Paulus, 1998, pp. 17-42. [43]. Cf. OVERHOLT, T., Prophecy: The Problem of Cross-Cultural Comparison, em CARTER C. E. & MEYERS, C. L., Community, Identity and Ideology, pp. 423-447.O estudo original é de 1982. [44]. Cf. HANSON, P., The Dawn of Apocalyptic. The Historical and Sociological Roots of Jewish Apocalyptic Eschatology, Philadelphia, Fortress Press, 1983 (Revised Edition).A obra foi publicada pela primeira vez em 1975. [45]. KIPPENBERG, H. G., Religião e formação de classes na antiga Judéia. Estudo sociorreligioso sobre a relação entre tradição e evolução cultural, São Paulo, Paulus, [1988] 1997, p. 7. A obra original em alemão, fruto de uma tese de livre-docência, chama-se Religion und Klassenbildung im antiken Judäa: eine religionswissenschaftliche Studie zum Verhältnis von Tradition und gesellschaftlicher Entwicklung, Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, [1978] 1982, 186 p. ISBN 3525553667. [46]. Cf. Idem, ibidem, pp. 9-13. [47]. Cf. BIRD, Ph., The Place of Women in the Israelite Cultus, em CARTER C. E. & MEYERS, C. L.(eds.), Community, Identity and Ideology, pp. 515-536; MEYERS, C. L., The Family in Early Israel, em PURDUE, L. G. (ed.), Families in Ancient Israel, Louisville, Westminster/John Knox, 1997, pp. 1-47 (cf. resenha em The Catholic Biblical Quarterly 60, n. 3, July 1998, Washington D. C., Catholic Biblical Association of America, pp. 602-603). |