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14. Algumas Dificuldades da Leitura Sócio-Antropológica14.1. A Avaliação da Pontifícia Comissão Bíblica: 1993Do ponto de vista das instituições eclesiásticas, as leituras que fazem uso das ciências sociais são vistas como necessárias, mas comportam alguns riscos, como diz o documento da Pontifícia Comissão Bíblica, A Interpretação da Bíblia na Igreja, de 15 de abril de 1993, do qual vale a pena transcrever alguns trechos[52]. Após lembrar que o problema da interpretação da Bíblia não é uma invenção moderna, como alguns querem fazer crer, o documento mostra que, no entanto, ele se acentuou com o desenrolar do tempo, e uma das razões é o uso dos métodos científicos usados para interpretar os textos bíblicos: "Em que proporção esses métodos podem ser considerados apropriados à interpretação da Sagrada Escritura?" E logo responde: "A esta questão a prudência pastoral da Igreja durante muito tempo respondeu de maneira muito reticente, pois muitas vezes os métodos, apesar de seus elementos positivos, encontravam-se ligados a opções opostas à fé cristã. Mas uma evolução positiva se produziu, marcada por uma série de documentos pontifícios, desde a encíclica Providentissimus Deus de Leão XIII (18 de novembro de 1893) até a encíclica Divino afflante Spiritu de Pio XII (30 de setembro de 1943), e ela foi confirmada pela declaração Sancta Mater Ecclesia (21 abril de 1964) da Pontifícia Comissão Bíblica e sobretudo pela Constituição Dogmática Dei Verbum do Concílio Vaticano II (18 de novembro de 1965)”. E o documento continua: "A fecundidade desta atitude construtiva manifestou-se de maneira inegável. Os estudos bíblicos tiveram um progresso notável na Igreja Católica e o valor científico deles foi cada vez mais reconhecido no mundo dos estudiosos e entre os fiéis. O diálogo ecumênico foi consideravelmente facilitado. A influência da Bíblia sobre a teologia se aprofundou e contribuiu para a renovação teológica. O interesse da Bíblia aumentou entre os católicos e favoreceu o progresso da vida cristã. Todos aqueles que adquiriram uma formação séria nesse campo estimam doravante impossível retornar a um estado de interpretação pré-crítica, pois o julgam, com razão, claramente insuficiente"[53]. E é com este mesmo espírito que o documento fala, mais adiante, da leitura sociológica: "Geralmente a abordagem sociológica dá uma abertura maior ao trabalho exegético e comporta muitos aspectos positivos. O conhecimento dos dados sociológicos que contribuem a fazer compreender o funcionamento econômico, cultural e religioso do mundo bíblico é indispensável à crítica histórica. A tarefa da exegese, de bem compreender o testemunho de fé da Igreja apostólica, não pode ser levada a termo de maneira rigorosa sem uma pesquisa científica que estude os estreitos relacionamentos dos textos do Novo Testamento com a vivência social da Igreja primitiva. A utilização dos modelos fornecidos pela ciência sociológica assegura às pesquisas dos historiadores das épocas bíblicas uma notável capacidade de renovação, mas é preciso, naturalmente, que os modelos sejam modificados em função da realidade estudada"[54]. E é aí que o documento fala dos riscos dessa abordagem: "É o caso aqui de assinalar alguns riscos que a abordagem sociológica faz correr à exegese. Efetivamente, se o trabalho da sociologia consiste em estudar as sociedades vivas, é previsível encontrar algumas dificuldades logo que se quer aplicar seus métodos a ambientes históricos que pertençam a um passado longínquo. Os textos bíblicos e extra-bíblicos não fornecem forçosamente uma documentação suficiente para dar uma visão de conjunto da sociedade da época. Aliás, o método sociológico tende a dar mais atenção aos aspectos econômicos e institucionais da existência humana do que às suas dimensões pessoais e religiosas"[55]. A postura do documento sobre a abordagem dos textos bíblicos com o recurso da antropologia cultural é praticamente a mesma da leitura sociológica. Após falar da utilidade do método para o estudo do Antigo e do Novo Testamentos, o documento afirma: "Esta abordagem permite distinguir melhor os elementos permanentes da mensagem bíblica cujo fundamento está na natureza humana, e as determinações contingentes segundo culturas particulares. Todavia, não mais que outras abordagens particulares, ela não está em si à altura de levar em conta as contribuições específicas da revelação. Convém estar ciente disso no momento de apreciar o alcance de seus resultados"[56]. Parece-me bastante equilibrada a perspectiva do documento quando fala dos métodos científicos de leitura da Bíblia, especialmente se lido integralmente. Apesar de, ambiguamente, deixar mais ou menos explícito que são os documentos do Magistério que fazem avançar a pesquisa exegética, quando o oposto é que seria mais realista. 14.2. Posturas de Exegetas Católicos: J. Fitzmyer e J. M. TerraJá os comentários do documento e as posturas assumidas pelos exegetas católicos frente ao método sócio-antropológico são mais diversificadas e me parece que, às vezes, mais conservadoras do que o texto da Pontifícia Comissão Bíblica permitiria. Citarei como exemplo o comentário de J. A. Fitzmyer, ele mesmo um membro da referida comissão. Ao comentar a abordagem sociológica ele diz que ela "está realmente mais interessada em ler nas entrelinhas do texto bíblico para descobrir os fatores históricos positivos que moldaram a vida humana e comunitária nos tempos bíblicos do que em determinar o significado religioso da própria Palavra de Deus. Em outras palavras, apesar de toda a importante contribuição que deu recentemente ao estudo da Bíblia, esta abordagem raramente contribui de fato para o significado da própria Palavra de Deus escrita"[57]. E ao falar da abordagem da antropologia cultural, logo em seguida, após elencar seus aspectos positivos, Fitzmyer afirma: "Entretanto, como no caso de outras derivadas de ciências humanas, esta abordagem não está qualificada para determinar qual é, especificamente, o conteúdo da revelação. Como acontece com a abordagem sociológica, esta tende a ler nas entrelinhas do texto bíblico e não as linhas propriamente ditas. Em outras palavras, os aspectos antropológicos da Bíblia não aproximam necessariamente o leitor do significado religioso ou espiritual da Palavra de Deus"[58]. Postura mais radical ainda é a daqueles que dizem que ao pretender estudar racionalmente a religião, os seus textos fundadores ou as instituições religiosas, a sociologia crítica é vista como materialista, ímpia e desagregadora dos valores cristãos. Acusa-se, ainda hoje, a leitura sociológica de fechar as portas ao transcendente e ao sobrenatural, na medida em que ela se reduz ao horizonte empírico da Bíblia. A leitura sociológica seria reducionista, porque reduz fenômenos religiosos a fatores não-religiosos e também porque determina fenômenos religiosos por fatores não-religiosos. Diz-se também que a leitura sociológica sujeita a Bíblia a contínua reinterpretação dependente de estruturas sócio-políticas instáveis, e isto elimina o magistério da Igreja e atropela as verdades eternas do cristianismo[59]. Naturalmente tais críticas partem de um pressuposto epistemológico específico, que costuma colocar do lado do “natural” uma série de conceitos relativos ao mundo e à história, e do lado do “sobrenatural” tudo o que é relativo ao sagrado. Este dualismo não pode ser sustentado, já que assim opomos como duas grandezas iguais Deus e o homem, revelação e razão, graça e pecado. Ora, teologicamente, o sobrenatural nada mais é do que o mesmo natural elevado ao nível de sua destinação divina, pelo olhar da fé. Entretanto, a persistência dessa visão dualista transforma a Salvação no seu conhecimento. Conhecimento que é enunciado num conjunto doutrinal, celebrado num rito e organizado numa instituição. Finalmente, esta visão opõe Igreja e mundo, levando a prática dos cristãos ao sectarismo, ao clericalismo e ao apolitismo[60]. [52]. PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA, A Interpretação da Bíblia na Igreja, São Paulo, Paulinas, 1994, tradução de Eduardo Campagnani-Ferreira. Cf. também o comentário ao documento feito por FITZMYER, J. A., A Bíblia na Igreja, São Paulo, Loyola, 1997. [53]. PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA, A Interpretação da Bíblia na Igreja, pp. 32-33. [54]. Idem, ibidem, pp. 68-69. [55]. Idem, ibidem, p. 69. [56]. Idem, ibidem, p. 71. [57]. FITZMYER, J. A., A Bíblia na Igreja, pp. 58-59. [58]. Idem, ibidem, p. 59. Este "ler nas entrelinhas do texto bíblico e não as linhas propriamente ditas" serve para desqualificar o valor dos métodos citados. [59]. Cf. TERRA, J. E. M., Como se lê a Bíblia na América Latina, em Revista de Cultura Bíblica, n. 45 e 46, São Paulo, Loyola/LEB, 1988, pp. 40-56. [60]. Cf. BOFF, C., Teologia e Prática. Teologia do Político e suas Mediações, Petrópolis, Vozes, 19933, pp. 175-237. |