|
|
11. Arens e a Ásia Menor nos Tempos de Paulo, Lucas e João: 1995Eduardo Arens escreveu, em 1995, sobre a Ásia Menor nos tempos de Paulo, Lucas e João. O autor, nascido na Alemanha e vivendo no Peru, reconstrói o contexto social, econômico, político e religioso necessário para compreender o nascimento, o desenvolvimento e a expansão das comunidades cristãs pela Ásia Menor no primeiro século da nossa era. "Quais foram as condições de vida e os diversos estratos sociais nas comunidades de Paulo, Teófilo e João (todas elas na Ásia Menor)?", pergunta o autor, para dizer, em seguida: "O objetivo desse estudo é responder a essa e outras perguntas conexas, esboçando as condições sociais e econômicas da Ásia Menor durante a segunda metade do século I d.C., com o fito de ajudar a compreender melhor certos aspectos dos escritos de Lucas e João, assim como das cartas de Paulo (e deuteropaulinas)"[45]. Arens fundamenta-se, para isso, em duas convicções básicas: "Os textos bíblicos originaram-se em época e situações históricas concretas, e seus escritores dirigiram-se a comunidades que viviam dentro de coordenadas socioeconômicas, políticas e religiosas determinadas (...) Assim, por exemplo, se se quiser compreender o que um autor como Lucas quis comunicar a seu auditório (a comunidade para a qual escreveu) acerca de pobreza e riqueza, será necessário tomar consciência de que não tratou em seu evangelho desses temas por lhe terem ocorrido espontaneamente ou por tê-los considerado de interesse teológico. Fê-lo antes porque correspondiam a uma situação concreta: havia nessa comunidade um conflito relacionado com as diferenças socioeconômicas entre seus membros. Para começar a compreender, portanto, a mensagem de Lucas sobre a relação do homem com os bens materiais, será necessário familiarizar-se com as condições socioeconômicas do mundo em que viviam os membros da comunidade de Teófilo, para os quais Lucas escreveu sua obra"[46]. 12. The Context Group: Vários Estudos de 1989 até HojeThe Context Group, grupo de pesquisa do qual já falamos acima, vem trabalhando desde 1989, com reuniões anuais de seus membros para avaliação dos resultados obtidos com o emprego das ciências sociais na leitura do Novo Testamento. Seus resultados podem ser elencados, rapidamente, com a menção de alguns estudos mais importantes, como os de John Pilch sobre a lepra, a doença e o sistema de saúde na antigüidade; os de Jerome Neyrey sobre o simbolismo do corpo na primeira carta aos Coríntios, o sistema judaico de pureza e sua crítica nos escritos do NT, a "ideologia da revolta" no Evangelho de João e sua leitura de Paulo; os de Douglas Oakman sobre a dimensão do ensinamento de Jesus; os de Richard Rohrbaugh sobre o conceito de classe no estudo do cristianismo primitivo, o uso de modelos na análise sócio-antropológica; as contribuições de J. H. Elliot sobre o fenômeno da relação patrão-cliente no cristianismo primitivo, sobre o "olho mau", sobre a função da casa, do templo e da refeição em Lucas e nos Atos; os de K. C. Hanson sobre o parentesco e os herodianos; os estudos de Bruce Malina, já citados; o trabalho conjunto editado, em 1991, por Jerome Neyrey sob o título de The Social World of Luke-Acts: Models of Interpretation, com treze capítulos sobre temas como uma teoria da leitura dos textos bíblicos, a honra e a vergonha como valores fundamentais no mundo mediterrâneo, os modelos para interpretar os conflitos e tensões entre o campo e a cidade etc.[47]. 13. Classificando os Estudos: Cinco CategoriasEstes e outros estudos, que têm o "social" como pressuposto, são classificados por J. H. Elliot em cinco categorias, conforme a abordagem assumida[48]: · Alguns são investigações de realidades sociais, tais como grupos, ocupações, instituições e semelhantes, que ilustram aspectos da realidade da época bíblica, mas não analisam, sintetizam e explicam os fatos sociais de maneira científica. Tais são estudos como os de Joachim Jeremias, Frederick C. Grant, Stephen Benko e J. J. O'Rourke, Abraham J. Malherbe e John E. Stambaugh e David L. Balch[49]. · Outros estudos são abordagens sócio-históricas de um determinado período, movimento ou grupo. Exemplos típicos são Martin Hengel, Robert M. Grant, Luise Schottroff e Wolfgang Stegemann[50]. · Um terceiro tipo usa a abordagem sociológica para estudar as forças e instituições sociais do cristianismo primitivo, tais como os já citados Gerd Theissen, John Gager e Wayne Meeks. · Estudos do Novo Testamento que utilizam as ferramentas da antropologia cultural são os de Bruce Malina, Jerome Neyrey e outros membros do The Context Group, também já citados acima. · E, finalmente, há aqueles que fazem uma análise sociológica dos textos bíblicos, com os já citados Fernando Belo, John H. Elliot, Philip Esler e Halvor Moxnes. John H. Elliot aceita que estes estudos sejam complementares nas suas abordagens, mas diz que é preciso distinguir entre duas atitudes básicas: uma é a abordagem sócio-histórica que se preocupa em descrever os dados sociais relevantes, enquanto a outra é a abordagem sociológica que procura explicar os fatos sociais[51]. [45]. ARENS, E., Ásia Menor nos Tempos de Paulo, Lucas e João. Aspectos sociais e econômicos para a compreensão do Novo Testamento, São Paulo, Paulus, 1998, p. 6. O original espanhol é Asia Menor en tiempos de Pablo, Lucas y Juan - Aspectos sociales y económicos para la comprensión del Nuevo Testamento, Eduardo Arens, 1995. [46]. Idem, ibidem, p. 5. [47]. Cf. ELLIOT, J. H., What is Social-Scientific Criticism?, pp. 29-30 e pp. 138-174 para uma compreensiva bibliografia; ROHRBAUGH, R. (ed.), The Social Sciences and New Testament Interpretation, volume produzido totalmente pelo The Context Group, com destaque, a meu ver para os estudos de Bruce Malina sobre os indivíduos no mundo mediterrâneo, de K. C. Hanson sobre o parentesco, de Douglas E. Oakman sobre a economia antiga, de J. H. Elliot sobre a clientela e de D. C. Duling sobre o milenarismo. [48]. Cf. ELLIOT, J. H., What is Social-Scientific Criticism?, pp. 18-20. [49]. JEREMIAS, J., Jerusalem zur Zeit Jesu, Göttingen, Vandenhoeck & Ruprecht 19693 (em português: Jerusalém no tempo de Jesus. Pesquisas de história econômico-social no período neotestamentário, São Paulo, Paulus, 1983); GRANT, F. C., The Economic Background of the Gospels, London, Oxford University Press, 1926; BENKO, S. & O'ROURKE, J. J. (eds.), The Catacombs and the Colosseum: The Roman Empire as the Setting of Primitive Christianity, Valley Forge, Pa., Judson Press, 1971; MALHERBE, A. J., Social Aspects of Early Christianity, Baton Rouge, La., Louisiana State University, 1977; STAMBAUGH, J. E. & BALCH, D. L., The New Testament in Its Social Environment, Philadelphia, Westminster Press, 1986. [50]. HENGEL, M., Judentum und Hellenismus. Studien zu ihrer Begegnung unter besonderer Berücksichtigung Pälestinas bis zur Mitte des 2 Jhs. v. Chr., Tübingen, 1969 (versão inglesa: Judaism and Hellenism. Studies in their Encounter in Palestine during the Early Hellenist Period I-II, London, SCM Press, 1981); GRANT, R. M., Early Christianity and Society, New York, Harper & Row, 1977; SCHOTTROFF, L. & STEGEMANN, W., Jesus von Nazareth - Hoffnung der Armen, Stuttgart, W. Kohlhammer, 1978. [51]. Cf. ELLIOT, J. H., What is Social-Scientific Criticism?, p. 20. É preciso, porém, lembrarmos que esta é uma distinção que só se pode fazer a partir de (e dentro de) uma teoria funcionalista da sociedade. O marxismo reivindica o direito de explicar os fatos sociais e executa uma análise histórica com pressupostos e categorias que desvenda os fundamentos de uma determinada realidade social. Veja-se, como exemplo teórico e prático, o volumoso estudo de DE STE. CROIX, G. E. M., The Class Struggle in the Ancient Greek World from the Archaic Age to the Arab Conquests, Ithaca, N. Y., Cornell University Press, 1981, 732 pp. |