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6. Bruce Malina e a Antropologia do Mundo Mediterrâneo: de 1981 a 2006

Os vários estudos de Bruce J. Malina, professor na Creighton University, Nebraska, começando com uma publicação feita em 1981, são significativos para a leitura sócio-antropológica do Novo Testamento, especialmente no âmbito da exegese norte-americana. Abaixo, um elenco de seus principais livros (omiti aqui os artigos, mas muitos deles foram relançados em alguns destes livros):

·         The New Testament World: Insights from Cultural Anthropology, Atlanta, John Knox Press, 1981 (3rd Revised Edition, 2001).

·         The Gospel of John in Sociolinguistic Perspective, Berkeley, Center for Hermeneutical Studies, 1985.

·         Christian Origins and Cultural Anthropology: Practical Models for Biblical Interpretation, Atlanta, John Knox Press, 1986.

·         Calling Jesus Names: The Social Value of Labels in Matthew, Sonoma, Calif., Polebridge Press, 1988 (com Jerome H. Neyrey).

·         Vários capítulos em NEYREY, J. H. (ed.), The Social World of Luke-Acts: Models for Interpretation, Peabody, Mass., Hendrickson Publishers, 1991.

·         Social-Science Commentary on the Synoptic Gospels, Minneapolis, Fortress Press,1992, (com Richard L. Rohrbaugh); [20032:this volume is a thoroughly revised edition of this popular commentary. They include an introduction that lays the foundation for their interpretation, followed by an examination of each unit in the Synoptics, employing methodologies of cultural anthropology, macro-sociology, and social psychology].  

·         On the Genre and Message of Revelation: Star Visions and Sky Journeys, Peabody, Mass., Hendrickson, 1995.

·         Portraits of Paul: An Archaeology of Ancient Personality, Louisville, Westminster/John Knox, 1996 (com Jerome H. Neyrey).

·         The Social World of Jesus and the Gospels, London and New York, Routledge, 1996.

·         Social-Science Commentary on the Gospel of John, Minneapolis, Fortress Press, 1998 (com Richard L. Rohrbaugh).

·         Social-Science Commentary on the Book of Revelation, Minneapolis, Fortress Press, 2000 (com John J. Pilch).

·         The Social Gospel of Jesus. The Kingdom of God in Mediterranean Perspective, Minneapolis, Augsburg Fortress, 2001 (em português: O evangelho social de Jesus. O reino de Deus em perspectiva mediterrânea, São Paulo, Paulus, 2004).

·        Social-science Commentary on the Letters of Paul, Minneapolis, Fortress Press, 2006 (com John J. Pilch).

Bruce Malina fundamenta-se em teorias antropológicas atuais para entender a cultura do mundo mediterrâneo antigo onde o Novo Testamento foi gerado. Seu enfoque privilegia o estudo dos ambientes sociais, dos modos de pensar e dos padrões de comportamento das comunidades bíblicas em contraste com o mundo do intérprete moderno da Bíblia, tentando construir uma ponte entre estes dois mundos que nos permita resgatar o sentido dos textos do Novo Testamento. É assim que Malina estuda Paulo e a lei numa perspectiva sócio-antropológica, Jesus mais como um personagem de consagrada reputação do que uma figura carismática[25], o grupo de contracultura que produziu o evangelho de João, a pobreza como ausência de laços sociais e não apenas como falta de bens materiais, os códigos de hospitalidade pressupostos na terceira carta de João, a relação patrão-cliente modelando a relação Deus-homem e as orações de Jesus[26], a percepção característica do tempo na antigüidade modelando as noções de escatologia e apocalíptica...[27].

Diz Bruce Malina, na introdução de um de seus livros, que o objetivo da interpretação do Novo Testamento é "descobrir o que um grupo específico do século primeiro do Mediterrâneo oriental entendia quando documentos contidos em o Novo Testamento eram lidos para eles. Por isso, minha tarefa é descobrir o que os documentos têm a dizer e o que eles significavam para os seus destinatários originais. Eu considero que o sentido, tanto lá como aqui, reside, em última instância, no sistema social compartilhado por pessoas que regularmente interagem umas com as outras"[28].

7. J. H. Elliot e a Sociologia da 1a  Carta de Pedro: 1981/1990

Em 1981 J. H. Elliot publicou uma análise da primeira carta de Pedro com o título de A Home for the Homeless: A Sociological Exegesis of 1 Peter; Its Situation and Strategy, na qual, utilizando uma teoria de Robbin Scroggs de que o cristianismo primitivo constituiu uma seita messiânica surgida dentro do judaísmo, o autor aplica o modelo de seita desenvolvido por Bryan Wilson para retratar a precária situação do cristianismo da Ásia Menor e a estratégia de resposta da carta a tal situação[29].

Avaliando o resultado de seu estudo do ponto de vista metodológico, J. H. Elliot diz que "analisar 1 Pedro em termos de um modelo sectário forneceu um recurso heurístico para visualizar a dinâmica social implícita neste escrito e esclarecer a maneira na qual os vários conteúdos, temas e metáforas organizadoras foram integrados para formar uma comunicação coerente e persuasiva para motivar sua audiência para uma forma efetiva de ação social"[30].

8. Wayne Meeks e os Primeiros Cristãos Urbanos: 1983

Em 1983 Wayne A. Meeks, da Universidade de Yale, publicou The First Urban Christians: The Social World of the Apostle Paul. Usando a abordagem do funcionalismo estrutural,  estudou a origem, posse e status social dos indivíduos das comunidades paulinas, e também os programas, a organização e o comportamento dos grupos mencionados no conjunto dos textos paulinos, para chegar à conclusão de que o típico cristão paulino era o artesão livre e o pequeno comerciante, gente dotada de alta mobilidade social nas grandes cidades do Império Romano. Não teriam pertencido às comunidades paulinas nem o topo da pirâmide social da época (aristocratas donos de terras, senadores, cavaleiros etc.) e nem a base da pirâmide, constituída, então, pelos agricultores pobres, escravos agrícolas, trabalhadores braçais da roça, entre outros[31]

Em 1986, na Grã-Bretanha, Francis Watson leu com o recurso da sociologia a visão de Paulo a respeito do judaísmo, da lei, e dos gentios em Gálatas e Romanos, focalizando as raízes sociais de seu pensamento. Em 1987, Philip Francis Esler estudou Lucas e Atos e seu programa teológico como um processo de legitimação ideológica. Em 1988 Margaret MacDonald estudou as estratégias, os processos e estágios da institucionalização do cristianismo primitivo nas cartas paulinas e dêutero-paulinas. Também em 1988 o norueguês Halvor Moxnes, da Universidade de Oslo, publicou The Economy of the Kingdom: Social Conflict and Economic Relations in Luke's Gospel, analisando o evangelho de Lucas à luz das relações econômicas antigas, "abrindo, assim, uma nova perspectiva para a sustentação da visão de Lucas sobre os fariseus como 'amigos do dinheiro' e a base social da 'economia do Reino' de Lucas"[32].

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[25]. Cf. MALINA, B. J., The Social World of Jesus and the Gospels, London and New York, Routledge, 1996, pp. 123-142.

[26]. Idem, ibidem, pp. 143-175.

[27]. Cf. ELLIOT, J. H., What is Social-Scientific Criticism?, pp. 24-27.

[28]. MALINA, B. J., The Social World of Jesus and the Gospels, p. XI.

[29]. Cf. ELLIOT, J. H., What is Social-Scientific Criticism?, pp. 24-25. O estudo de Elliot, A Home for the Homeless: A Sociological Exegesis of 1 Peter; Its Situation and Strategy, Philadelphia, Fortress Press, 1981 foi traduzido pela Paulus, em 1985, com o título Um lar para quem não tem casa. Interpretação sociológica da primeira carta de Pedro. Este livro foi relançado em  2a edição com  nova introdução e outro subtítulo: A Home for the Homeless: A Social-Scientific Criticism of 1 Peter; Its Situation and Strategy, with a New Introduction, Minneapolis, Fortress Press, 1990. O estudo de Robbin Scroggs é The Earliest Christian Communities as Sectarian Movement, em NEUSNER, J. (ed.), Christianity, Judaism and Other Greco-Roman Cults, Leiden, E. J. Brill, 1975. 

[30]. ELLIOT, J. H., What is Social-Scientific Criticism?, p. 86.

[31]. Cf. MEEKS, W.  A., The First Urban Christians: The Social World of the Apostle Paul, New Haven, Yale University Press, 1983. Em português: Os primeiros cristãos urbanos. O mundo social do apóstolo Paulo, São Paulo, Paulus, 1992; cf. também DA SILVA, A. J., Do campo para a cidade: o evangelho de Paulo, em Vida Pastoral 152 [maio-junho de 1990], pp. 13-18. Naturalmente as conclusões de W. A. Meeks não foram unanimemente aceitas, pois os dados dos quais se inferem os resultados são em geral bastante vagos. Para uma recensão do livro de Meeks, cf. COMBLIN, J., Sociologia das comunidades paulinas, em Estudos Bíblicos n. 25, Petrópolis, Vozes/Metodista/Sinodal, 1990, pp. 58-64. 

[32]. ELLIOT, J. H., What is Social-Scientific Criticism?, p. 28; WATSON, F., Paul, Judaism and the Gentiles: A Sociological Approach, New York, Cambridge University Press, 1986; ESLER, Ph. F., Community and Gospel in Luke-Acts: The Social and Political Motivations of Lucan Theology, New York, Cambridge University Press, 1987; MACDONALD, M. Y., The Pauline Churches: A Socio-Historical Study of Institutionalization in the Pauline and Deutero-Pauline Writings, New York, Cambridge University Press, 1988; MOXNES, H., The Economy of the Kingdom: Social Conflict and Economic Relations in Luke's Gospel, Philadelphia, Fortress Press, 1988; em português: A economia do Reino. Conflito social e relações econômicas no Evangelho de Lucas, São Paulo, Paulus, 1995.