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3. Gerd Theissen e o Radicalismo Itinerante: 1973

Em 1973, Gerd Theissen, exegeta alemão e, na época, professor da Universidade de Bonn, publicou um artigo chamado "Radicalismo Itinerante. Aspectos de sociologia da literatura na transmissão de palavras de Jesus no cristianismo primitivo"[10], no qual ele propõe que "analisar o Novo Testamento na perspectiva da sociologia da literatura significa (...) perguntar pelas intenções e condicionamentos do comportamento inter-humano de autores, transmissores e destinatários de textos neotestamentários". E continua um pouco mais à frente: "A transmissão das palavras de Jesus no Cristianismo primitivo é um problema sociológico sobretudo pelo fato de Jesus não haver fixado suas palavras literariamente" e que "uma tradição oral [em contraposição à escrita] depende do interesse de seus transmissores e destinatários. Sua preservação está ligada a condicionamentos sociais bem específicos..."[11].

E a tese que Gerd Theissen defendeu neste estudo foi a seguinte: "O radicalismo ético da tradição das palavras de Jesus é um radicalismo itinerante. Ele somente pode ser praticado e transmitido sob condições extremas de vida: somente quem está desligado das relações do mundo, somente quem abandonou casa, mulher e filhos, quem deixou aos mortos o enterrar os seus mortos e toma os pássaros e os lírios como exemplo pode renunciar à moradia, à família, à propriedade, ao direito e à defesa. Somente em tais circunstâncias podem ser transmitidas semelhantes orientações sem que caiam no descrédito. Essa ética tem chance somente na margem da sociedade, somente aí ela tem um Sitz im Leben, ou para ser mais exato: ela não tem um Sitz im Leben. Deve, isso sim, a partir de um ponto de vista externo, levar uma vida questionável à margem da vida normal. Somente aqui as palavras de Jesus estavam protegidas contra alegorizações, modificações, minimizações e supressões pela simples razão de que aí eram levadas a sério e praticadas. Somente carismáticos apátridas podiam fazê-lo"[12].

J. H. Elliot faz o seguinte comentário sobre o artigo de Gerd Theissen: "A fusão de exegese e 'sociologia da literatura' e esta tese explodiu no meio exegético como uma bomba. As familiares mas domesticadas palavras da ética radical de Jesus não mais puderam ser tratadas isoladamente das condições sociais do tempo de Jesus ou das circunstâncias sociais e dos interesses específicos dos seguidores de Jesus. Este casamento criativo entre crítica histórica e uma perspectiva sociológica mais rigorosa trouxe uma perspectiva nova e revigorante que alimentou um velho e cansado empreendimento e foi decisiva para expandir e incrementar a aventura exegética. A crítica histórica estava sofrendo uma promissora transformação"[13].

Os estudos de Gerd Theissen, embora abranjam uma larga faixa de temas, tratam prioritariamente do movimento de Jesus na Palestina tentando explicar as razões de sua falência ali e de seu grande sucesso no meio gentio fora da Palestina. Sua pesquisa, entretanto, provocou menos pelo método empregado (funcionalismo estrutural[14]) do que pelas questões levantadas. A exegese não estava assim tão habituada a olhar os textos do Novo Testamento perguntando prioritariamente pelas condições sociais da época, pelos problemas levantados e pelas estratégias empregadas pelo movimento de Jesus.

4. A Leitura Materialista de Fernando Belo: 1974

No ano seguinte ao do pioneiro artigo de Gerd Theissen de 1973, um estudo, com sabor de manifesto, causou viva discussão nos meios exegéticos: foi o do português Fernando Belo.

Utilizando dados da leitura estruturalista do texto, segundo Roland Barthes, somados à análise marxista dos modos de produção na linha de Louis Althusser e à psicologia e psicanálise de Jacques Lacan, entre outros[15], Fernando Belo escreveu, em 1974, um estudo revolucionário sobre o evangelho de Marcos, chamado Lecture matérialiste de l’évangile de Marc Récit-pratique-idéologie, Paris, Du Cerf, 1974.

Neste estudo Fernando Belo adota a perspectiva de que ler Marcos de modo materialista é tomá-lo como uma narração que não se pode compreender fora da situação social de seu autor e dos protagonistas (Jesus, seus amigos, seus adversários, a multidão...). É pôr o acento menos nas palavras de Jesus do que na sua prática; tanto mais que a narração de Marcos não é uma coleção de "palavras" ou "discursos", mas expõe práticas e estratégias.

A obra de Fernando Belo, de 415 páginas, linguagem difícil dado o ecletismo do método, traz, em primeiro lugar, um ensaio formal do conceito de modo de produção. Depois trata do modo de produção da Palestina antiga e do séc. I d.C., para só então propor uma leitura de Marcos. Fernando Belo termina o livro com um ensaio de eclesiologia materialista.

Merece, no mesmo contexto, ser citado o experimento de CLÉVENOT, M., Enfoques materialistas da Bíblia. O original francês vem de Paris e é de 1976. Livro modesto, mais um divulgador de Belo do que um criador, mas com aspectos interessantes, tanto no que diz respeito ao Antigo Testamento quanto à leitura de Marcos. “Responsável pela edição do ‘Belo’, pareceu-me útil apresentar aos numerosos leitores interessados por esse novo acesso à Bíblia um livro menor, mais modesto e, espero, mais abordável”[16].

A 1a parte do livro de Clévenot, fruto de um seminário de dois anos, do qual participou também Fernando Belo, traz uma abordagem materialista das tradições Javista, Eloísta, Sacerdotal e Deuteronomista, vistas como produto da conjunção de fatores ideológicos, políticos e econômicos. A 2a parte faz uma leitura do evangelho de Marcos como um relato da prática de Jesus, seguindo os passos de Fernando Belo. Como explica Clévenot, na p. 22, “nós consideraremos os textos que compõem a Bíblia como produtos ideológicos. Nosso projeto será analisar as condições nas quais ele foi produzido”.

Mas o que vem a ser este enfoque materialista de Clévenot? Ele mesmo explica: “Ao contrário da filosofia alemã (idealista), que desce dos céus à terra, aqui nós subiremos da terra para o céu. Quer dizer, nós não nos baseamos no que os homens dizem, pensam, representam, nem naquilo que eles são segundo as palavras, pensamentos, imaginação e representação de outros para então chegar aos homens em carne e osso; não, nós nos baseamos nos homens em suas atividades reais, quer dizer, é a partir do processo real de vida que podemos representar o próprio desenvolvimento dos reflexos e das repercussões ideológicas desse processo vital”[17].

5. John Gager e a Hipótese Milenarista: 1975

Em 1975, John G. Gager publicou Kingdom and Community: The Social World of Early Christianity, Englewood Cliffs, N. J., Prentice-Hall. Nesta obra, o professor de Princeton procurou explicar a natureza e o desenvolvimento do cristianismo como um movimento milenarista, a função social de seus mitos, a atividade missionária cristã como uma resposta para a não ocorrência do fim antecipado do mundo, os meios cristãos para legitimar o poder e controlar os desvios internos, e o relativo e rápido sucesso do cristianismo como religião dominante no mundo gentio[18].

John Gager utilizou duas teorias para estruturar seu estudo: a teoria da dissonância cognitiva de L. Festinger e a teoria das funções do conflito social de L. Coser. Além disso, Gager apoia-se na sociologia do conhecimento de Peter Berger e Thomas Luckmann, na análise dos movimentos carismáticos de Max Weber e nos estudos sobre movimentos milenaristas de K. O. L. Burridge[19].

O resultado, segundo H. C. Kee, é uma "reconstituição histórica iluminadora e sugestiva quanto ao amplo enquadramento da evolução do cristianismo a partir de uma seita milenarista, passando por um período de incipiente estruturação e disciplina, até chegar ao estabelecimento da Igreja da era constantiniana". Mas, "apesar de insistir na importância dos métodos científico-sociais para o estudo histórico e de sua maestria admirável em manuseá-los, ele concentra a sua atenção em problemas estritamente sociais, tendendo a negligenciar e até mesmo evitar temas religiosos, teológicos ou hermenêuticos, que, com certeza, também se esclarecem mediante os métodos sociológicos"[20].

Não é este o momento de explicarmos detalhadamente estas teorias e nem de verificarmos sua aplicação. Só quero chamar a atenção para o pressuposto utilizado: as teorias são aqui utilizadas como instrumentos heurísticos que sugerem um conjunto de questões e estimulam a pesquisa[21].

Embora na Europa o uso das ciências sociais na leitura da Bíblia tenha menor penetração, em 1977, na Alemanha, Alfred Schreiber usou uma pesquisa sociológica sobre dinâmica de grupos para propor uma reconstrução hipotética da interação social entre Paulo e os coríntios. Em 1980, o sueco Bengt Holmberg aplicou modelos weberianos de dominação para analisar os níveis de poder nas comunidades paulinas e o processo de passagem de uma autoridade carismática para uma autoridade institucionalizada e racionalizada[22].

Em 1980 Howard Clark Kee, da Universidade de Boston, publicou Christian Origins in Sociological Perspective. Methods and Resources, no qual chama a atenção para o valioso recurso que é o uso das ciências sociais tanto na reconstrução histórica das origens cristãs quanto na interpretação de sua literatura[23]. "A intenção do nosso livro", escreve ele no primeiro capítulo, "consiste, portanto, em explicitar uma série de recursos metodológicos desenvolvidos ou em desenvolvimento nas ciências sociais, que possam nos prover de paradigmas adequados à análise da literatura cristã das origens, com o propósito de aumentar a compreensão dos acontecimentos relatados, bem como das circunstâncias e do ambiente vital, a partir dos quais e para os quais foram preparados os relatos"[24].

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[10]. THEISSEN, G., Wanderradikalismus: Literatursoziologische Aspekte der Überlieferung von Worten Jesu im Urchristentum, em Zeitschrift für Theologie und Kirche 70 (1973), pp. 245-271. Este texto está no livro de THEISSEN, G., Sociologia da cristandade primitiva. Estudos, pp. 36-55. 

[11]. THEISSEN, G.,  Sociologia da cristandade primitiva. Estudos, p. 37.

[12]. Idem, ibidem, p. 41.

[13]. ELLIOT, J. H., What is Social-Scientific Criticism?, pp. 21-22. Gerd Theissen posteriormente publicou uma série de estudos provocadores, tais como Soziologie der Jesusbewegung. Ein Beitrag zur Entstehungsgeschichte des Urchristentums, München, Chr. Kaiser Verlag, 1977; Studien zur Soziologie der Urchristentums, Tübingen, J. C. B. Mohr, 1979; Social Reality and the Early Christians: Theology, Ethics, and the World of the New Testament, Minneapolis, Fortress Press, 1992. Os dois primeiros estão traduzidos em português e são Sociologia do movimento de Jesus, Petrópolis/São Leopoldo, Vozes/Sinodal, 1989  e o já citado Sociologia da cristandade primitiva. Estudos.

[14]. O funcionalismo estrutural "enfatiza a unidade essencial de sociedades, uma unidade que emerge quando diferentes grupos conseguem o equilíbrio através do consenso (...) A abordagem funcionalista estrutural identifica e analisa as estruturas básicas de uma sociedade específica e examina suas relações; seu interesse maior está em entender como os componentes de uma determinada sociedade (suas instituições, estruturas, crenças etc.) funcionam dentro da sociedade mais ampla", define CARTER, C. E., A Discipline in Transition, em CARTER, C. E. & MEYERS, C. L. (eds.), Community, Identity and Ideology. Social Sciences Approaches to the Hebrew Bible, Winona Lake, Indiana, Eisenbrauns, 1996,  p. 9.

[15]. Cf. Barthes, R., S/Z. Essai, Paris, Seuil, 1970; Althusser, L., A favor de Marx. Pour Marx, Rio de Janeiro, Zahar, 1979 (original francês: 1965); Ler o Capital, 2 vols., Rio de Janeiro, Zahar, 1979 (original francês: 1966);  Lacan, J., Ecrits, Paris, Seuil, 1966.

[16]. CLÉVENOT, M., Enfoques materialistas da Bíblia, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1979, p. 17.

[17]. Idem, ibidem, p. 22.

[18]. Cf. ELLIOT, J. H., o. c., p. 24.

[19]. Cf. FESTINGER, L. et al., When Prophecy Fails: A Social and Psychological Study of a Modern Group that Predicted the Destruction of the World, Minneapolis, University of Minnesota Press, 1956; Idem, A Theory of Cognitive Dissonance, Evanston, Row Peterson, 1957; COSER, L., The Functions of Social Conflict, New York and London, Routledge and Kegan Paul, 1956; BERGER, P., O dossel sagrado. Elementos para uma teoria sociológica da religião, São Paulo, Paulus, 1985; WEBER, M., Economy and Society, Berkeley, University of California Press, 1968; BURRIDGE, K. O. L., New Heaven, New Earth: A Study of Millenarian Activities, New York, Schoken Books, 1969.

[20]. KEE, H. C., As origens cristãs em perspectiva sociológica, São Paulo, Paulus, 1983, p. 16.

[21]. Cf. para uma exposição crítica, RODD, C. S., On Applying a Sociological Theory to Biblical Studies, em CHALCRAFT, D. J. (ed.), Social-Scientific Old Testament Criticism. A Sheffield Reader, Sheffield, Sheffield Academic Press, 1997, pp. 22-33. Rodd diz na p. 32: "Gostaria de afirmar que as tentativas de aplicar teorias sociológicas a documentos bíblicos não parecem ter sido frutíferas. A chance de testar uma hipótese é tão pequena que pode ser negligenciada". E acrescenta na p. 33: "Minha convicção é de que há uma enorme diferença entre a sociologia aplicada à sociedade contemporânea, onde o pesquisador pode testar suas teorias face à evidência coletada, e a sociologia histórica, onde há somente uma evidência fossilizada que foi preservada por acaso ou para propósitos muito diferentes daqueles do sociólogo". Entretanto, o capítulo 3 de Kingdom and Community, sobre o milenarismo - "Earliest Christianity as a Millenarian Movement" - chamou a atenção dos estudiosos para o estudo da categoria no cristianismo primitivo, produzindo boas pesquisas, segundo DULLING, D. C., Millennialism, em ROHRBAUGH, R. (ed.), The Social Sciences and New Testament Interpretation, p. 200.

[22]. Cf. ELLIOT, J. H., What is Social-Scientific Criticism?, p. 28; SCHREIBER, A., Die Gemeinde in Korinth: Versuch einer gruppen-dynamischen Betrachtung der Entwicklung der Gemeinde von Korinth auf der Basis des erster Korintherbriefes, Münster, Aschendorff, 1977; HOLMBERG, B., Paul and Power: The Structure of Authority in the Primitive Church as Reflected in the Pauline Epistles, Philadelphia, Fortress Press, 1980.

[23]. Cf. KEE, H. C., Christian Origins in Sociological Perspective. Methods and Resources, Philadelphia, Westminster Press, 1980. Em português: As origens cristãs em perspectiva sociológica, São Paulo, Paulus, 1983.

[24]. Idem, As origens cristãs em perspectiva sociológica, pp. 16-17.