Os Judeus - The Jews

 

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6. Os Judeus Fazem Sacrifícios Humanos

Do século I d.C. abordarei quatro autores: Apião, Queremon, Damócrito e Nicarco.

Apião (Apíôn), que pode ser situado na primeira metade do século I d.C., "era um escritor e professor grego de origem egípcia, que exerceu um importante papel na vida cultural e política de seu tempo. Ele ficou famoso como um mestre em Homero e como autor de uma obra sobre a história do Egito"[33] .

Apião não nasce em Alexandria, mas torna-se cidadão alexandrino. Representa os gregos contra os judeus de Alexandria diante de Calígula, enquanto Fílon de Alexandria representa os judeus, no ano 40 d.C., na questão dos direitos cívicos dos judeus alexandrinos.

Apião é o mais ferrenho dos anti-semitas do mundo helenístico e, como é um escritor muito popular, tem grande influência na formação da opinião pública culta de sua época.

Ele fala dos judeus nos livros 3 e 4 de sua Aegyptiaca. Flávio Josefo o escolhe como alvo entre todos os anti-semitas e escreve o Contra Apionem por volta de 95 d.C., através do qual conhecemos as acusações que Apião faz aos judeus.

Diz Flávio Josefo que o tratamento de Apião a respeito dos judeus pode ser dividido em três seções:                   

a) o êxodo

b) o ataque aos direitos dos judeus alexandrinos

c) o ataque ao Templo e aos costumes religiosos judaicos[34] .

Em Contra Apionem II, 10-11 temos:

"No terceiro livro de sua História do Egito ele [Apião] faz a seguinte colocação: 'Moisés, como eu ouvi de pessoas idosas no Egito, era um nativo de Heliópolis que abandonando os costumes de seu país, erigiu casas de oração (proseuchàs anêgen) ao ar livre, em vários distritos da cidade, todas voltadas para o leste; tal sendo também a orientação de Heliópolis. No lugar de obeliscos ele erigiu colunas, debaixo das quais havia um modelo de barco; e a sombra formada na sua base pela estátua desenhava um círculo correspondente ao curso do sol nos céus'".

Esta ligação dos judeus com a cidade de Heliópolis, que acontece após a geração de Maneton, parece influenciada pela construção do templo na região por Onias IV, por volta de 150 a.C.

Onias IV, filho do sumo sacerdote Onias III, que fora morto por ordem de Menelau, um usurpador do partido helenizante, funda um templo semelhante ao de Jerusalém em Leontópolis. Pois com a ascensão dos Macabeus, os Oníadas, família que fornecia os sumos sacerdotes do Templo de Jerusalém, fica excluída. As casas de oração mencionadas por Apião são as sinagogas, em grego, proseuchê.

Sobre o êxodo, lemos em Contra Apionem II, 15:

"Sobre a questão da data em que ele [Apião] coloca o êxodo dos leprosos, cegos e coxos sob a liderança de Moisés...".

Em Contra Apionem II, 20-21, lemos sobre o sábado:

"Ele [Apião] dá uma espantosa explicação para a etimologia da palavra 'sábado'. 'Após seis dias de marcha', ele diz, 'eles formaram tumores na virilha, e foi por isto, que depois de alcançarem em segurança o país agora chamado de Judéia, eles descansaram no sétimo dia e chamaram a este dia sábaton, preservando a etimologia egípcia, pois doença na virilha, no Egito, é chamada de sabátosis'".

Sobre o culto do Templo, lemos em Contra Apionem II, 80:

"Apião tem a coragem de afirmar que, dentro deste santuário, os judeus conservam uma cabeça de asno, cultuando este animal e julgando-o merecedor da mais profunda reverência; o fato foi desvendado, ele sustenta, por ocasião do saque do templo por Antíoco Epífanes, quando a cabeça, feita de ouro e valendo um alto preço, foi descoberta".

Em Contra Apionem II, 91-96 ele [Apião] diz que Antíoco encontra no Templo um homem, servido de todas as iguarias, e destinado ao sacrifício. A prática é repetida a cada ano, quando, diz o § 95,

"Eles raptavam um grego, engordavam-no durante um ano  e então conduziam-no para uma floresta, onde eles o matavam, sacrificavam seu corpo de acordo com seus rituais costumeiros, partilhavam sua carne e, enquanto imolavam o grego, faziam um juramento de hostilidade contra todos os gregos. Os restos de sua vítima eram lançados num buraco".  


Segundo M. Stern, Queremon (Chairêmona), escritor greco-egípcio, "pode ser considerado um intelectual na tradição de Maneton - alguém que tinha grande apreço pelo passado e imemoriais tradições de seu país, descrevendo-as em grego. Ele estava também profundamente imbuído da cultura grega, e ele se tornou um de seus mais notáveis representantes no século I d.C."[35].

Os fragmentos sobre os judeus que temos de sua Aegyptiaca Historia estão em Contra Apionem I, 288-292. Aí ele narra como Ísis aparece em sonhos ao faraó Amenófis e repreende-o por destruir seu templo em uma guerra. Um escriba aconselha-o então a purificar o Egito das pessoas contaminadas, para ficar em paz. Por isso ele as bane do país, milhares de pessoas. E o texto diz no § 290:

"Seus líderes eram escribas, Moisés e um outro escriba sagrado - José. Seus nomes egípcios eram Tisiteu (para Moisés) e Petesef (José)".

Em Pelusium eles encontram milhares de pessoas que Amenófis proibira de entrar no Egito. Feita uma aliança entre os dois grupos, eles invadem o Egito, enquanto Amenófis foge para a Etiópia, deixando para trás sua mulher grávida. Seu filho, ao nascer e crescer, Ramsés, expulsa os judeus para a Síria e reconduz seu pai ao Egito.


Damócrito  (Damókritos) é  um historiador que escreve um livro sobre tática. Conhecemo-lo através de Suda, que afirma ter ele escrito um livro sobre os judeus. Não conhecemos com certeza sua data, mas deve ser do século I d.C. Quanto ao local, nenhuma pista.

O texto de Suda diz:

"Damócrito, um historiador. Ele escreveu um livro sobre tática em dois volumes, e um livro Sobre os judeus. Neste último ele assegura que eles costumavam cultuar uma cabeça de asno dourada e que a cada sete anos eles capturavam um estrangeiro e sacrificavam-no. Eles costumavam matá-lo, repartindo sua carne em pequenos pedaços".


Nicarco (Níkarchos) é o nosso último autor. Ele parece ser um greco-egípcio, porque suas afirmações sobre Moisés, preservadas no léxico de Fótios[36], estão na linha dos escritores egípcios helenizados. Nada sabemos sobre ele.

"Alfa: uma cabeça de vaca era assim chamada pelos fenícios, e também Moisés o legislador dos judeus era assim chamado, porque ele tinha muitas manchas brancas de lepra (alfoús) no seu corpo. Esta maluquice é contada por Nicarco, o filho de Amônio, no seu livro sobre os judeus".

 

Bibliografia

BRÉHIER, E., História da filosofia I/1, traduzido do francês por Eduardo Sucupira Filho, São Paulo, Mestre Jou, 1977.

COMBY, J. & LEMONON, J.-P., Roma em face de Jerusalém. Visão de autores gregos e latinos, traduzido do francês por Benôni Lemos, São Paulo,  Paulus, 1987.

DE SOUZA BRANDÃO, J., Dicionário mítico-etimológico da mitologia grega I, Petrópolis, Vozes, 1991.

DIEZ MACHO, A., Apócrifos del Antiguo Testamento, vol. II, Madrid,  Cristiandad, 1983.

HARVEY, P., Dicionário Oxford de literatura clássica grega e latina, traduzido do inglês por Mário da Gama Kury, Rio de Janeiro,  Jorge Zahar, 1987.

HOLLADAY, C. R., Fragments from Hellenistic Jewish Authors, vol. I: Historians, Chico, California, Scholars Press, 1983.

JOSEFO, F., Antiquitates Iudaicae, traduzido do grego por Vicente Pedroso, São Paulo,  Editora das Américas, 1956.  As obras completas de Josefo, com o título de História dos Hebreus, foram reeditadas, na mesma tradução de Vicente Pedroso, pela Casa Publicadora das Assembléias de Deus, do Rio de Janeiro, em 1992 [9. ed.: 2005].

JOSEFO, F., Contra Apionem, traduzido do grego por Vicente Pedroso, São Paulo,  Editora das Américas, 1956.

KIPPENBERG, H. G., Religião e formação de classes na antiga Judéia, traduzido do alemão por João Aníbal G. S. Ferreira, São Paulo, Paulus, 1988.

LÉVÊQUE, P., O mundo helenístico, traduzido do francês por Teresa Meneses, Lisboa,  Edições 70, 1987.

STERN, M., Greek and Latin Authors on Jews and Judaism I-III, Jerusalem,  The Israel Academy of Sciences and Humanities, 1976-1984.

TANNAHILL, R., O sexo na história, traduzido do inglês por Luísa Ibañez, Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1983.

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[33]. Idem, ibidem, p. 389.

[34]. Cf. JOSEFO, F., Contra Apionem II, 6-7.

[35]. STERN, M., Greek and Latin Authors on Jews and Judaism I, p. 417.

[36]. Fótios é patriarca em Constantinopla de 857 a 886.


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