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Os Judeus - The Jews
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No século I a.C. temos seis autores gregos e suas opiniões sobre os judeus: Apolônio Mólon, Alexandre Poliístor, Diodoro Sículo, Nicolau de Damasco, Estrabão de Amaséia e Lisímaco.
Apolônio Mólon (Apollônios ho Mólôn) é um renomado retor. Nasce em Alabanda, na Cária. Mais tarde instala-se em Rodes, onde muitos romanos importantes são seus alunos, inclusive Cícero e César. O mais importante fragmento de sua obra De Iudaeis é preservado por Alexandre Poliístor que, por sua vez, é citado na Praeparatio Evangelica IX, 19, 1-3 de Eusébio[18].
Flávio Josefo, no Contra Apionem, acusa Apolônio de fanático anti-semita e de ter sido uma das fontes usadas por Apião para falar contra os judeus.
No trecho citado por Eusébio não há qualquer traço de anti-semitismo. Ele descreve o sobrevivente do dilúvio (Noé não é mencionado pelo nome), o nascimento e a descendência de Abraão ("este homem era sábio") até José e Moisés, que é considerado por ele neto de José[19] .
Flávio Josefo em Contra Apionem II, 145; 148 diz o seguinte:
"Vendo, entretanto, que Apolônio Mólon, Lisímaco e outros, parte por ignorância, mas especialmente por má vontade, fizeram reflexões que não são nem justas nem verdadeiras, sobre nosso legislador Moisés e seu código, acusando-o de charlatão e impostor e afirmando que dele [do código] nós recebemos lições de vício e não de virtude, eu desejo dar, com minha melhor habilidade, uma breve narrativa de nossa constituição (...) Eu adoto esta linha mais legível porque Apolônio, diferente de Apião, não reuniu as suas acusações, mas espalhou-as aqui e ali em toda a sua obra, injuriando-nos em uma passagem como ateístas e misantropos, em outra repreendendo-nos como covardes, enquanto algures, ao contrário, ele nos acusa de temeridade e atrevida loucura. Ele acrescenta que nós somos os mais tolos de todos os bárbaros e, conseqüentemente, o único povo que não contribuiu com inventos úteis para a civilização".
É instrutivo compararmos esta visão sobre o judaísmo de um grego tão culto como Apolônio, com a dos apologistas judeus que escrevem em grego. Ali veremos que eles respondem a este tipo de acusação - "o único povo que não contribuiu com inventos úteis para a civilização" - falando da sabedoria de Moisés e de seuu excepcional papel como legislador, da contribuição dos judeus para a humanidade (egípcios, fenícios e gregos) com o ensino do alfabeto, da astrologia, dos cultos etc.[20].
Alexandre Poliístor (Aléxandros ho Polyístôr), originário de Mileto, na Ásia Menor, nasce por volta de 105 a.C. É levado prisioneiro para Roma, tornando-se livre por volta de 80 a.C. e influente professor até a sua morte em aproximadamente 35 a.C.
Alexandre Poliístor coleta em suas obras, escritas em grego na metade do século I a.C., materiais de várias proveniências e autores, inclusive sobre os judeus e de autores judeus. No seu livro De Roma (Perì Rômês), conservado por Suda[21], encontramos a seguinte curiosidade:
"E nos seus cinco livros sobre Roma, nos quais ele diz que ali viveu uma mulher hebréia Mosó (hós gynê gégonen Hebraía Môsô), que compôs a Lei dos hebreus".
Curioso é que, apesar de conhecer muito bem a tradição judaica sobre Moisés - como veremos no próximo capítulo -, Alexandre Poliístor não hesita em citar esta versão que contradiz a judaica. Mosó é Moisés e é mulher.
Talvez esta história tenha surgido por causa da Sibila. As Sibilas são profetisas inspiradas por Apolo ou outra divindade. Provenientes da cultura grega, consta que as Sibilas se difundem por várias regiões do mundo romano.
Os Livros Sibilinos são coletâneas de oráculos em grego, trazidos, segundo a lenda, da Grécia para Roma e guardados nos subterrâneos do templo de Júpiter Capitolino. São consultados, por ordem do Senado romano, por ocasião de grandes calamidades, para se descobrir como contornar a ira dos deuses. Existem coletâneas de oráculos sibilinos de origem judaico-helênica ou judaico-cristã[22]. Por ser Moisés, segundo a tradição, o autor da Lei, e, além disso, profeta, terá surgido a analogia com a Sibila, transformando-o afinal em mulher.
O terceiro autor do século I a.C. que examinaremos é Diodoro Sículo. Diodoro é um siciliano contemporâneo de César e de Augusto. Escreve em grego a Bibliotheca Historica em 40 livros, que abrangem a história do mundo desde os tempos mitológicos até a conquista da Gália por César. De sua obra ainda existem 15 livros.
Diodoro é o menos original dos antigos historiadores: sua obra é apenas uma compilação de obras de autores anteriores. E, para nós, aí está o seu valor: ele nos transmite muitas obras que hoje estão perdidas[23].
M. Stern explica que "sua principal narrativa sobre os judeus, sua história e sua religião está incluída na sua narrativa da primeira captura de Jerusalém pelos romanos em 63 a.C."[24] .
Diodoro fala da circuncisão dos judeus e a explica como sendo trazida do Egito, já que os judeus emigraram de lá. Diz também que
"entre os judeus, Moisés atribuiu suas leis ao deus que é invocado como Iao"[25] .
É a primeira vez que Iáô aparece na literatura grega para designar Iahweh. O nome não aparece na LXX, mas está nos papiros de Elefantina[26] . Diodoro explica ainda, no mesmo parágrafo, que atribuir as leis à divindade, como o faz Moisés, é um modo de fazer o povo obedecê-las! Diodoro traz também a mais completa descrição do Mar Morto, e a extração do asfalto, que se conhece na literatura grega e latina.
Mas a descrição que mais nos interessa está em Bibliotheca Historica XXXIV-XXXV, 1,1-5. Aí se diz que quando Antíoco VII Sidetes (139-128 a.C.) sitia Jerusalém, seus amigos aconselham-no a destruir completamente os judeus porque eles não prestam, sendo inimigos de todos os homens e não se misturando com as outras nações.
"Eles disseram também que os ancestrais dos judeus tinham sido expulsos do Egito como homens ímpios e detestados pelos deuses. Pois, para purificar o país, todas as pessoas que tinham manchas brancas ou leprosas nos seus corpos foram reunidas e conduzidas além da fronteira, como sob maldição; os refugiados ocuparam o território nas cercanias de Jerusalém e, tendo organizado a nação dos judeus, fizeram do seu ódio à humanidade uma tradição e para isto introduziram leis completamente exóticas: não partir o pão com nenhuma outra raça, nem mostrar-lhes nenhuma boa vontade".
Os amigos do rei lembram-lhe também de que, quando Antíoco IV Epífanes vence os judeus e entra no Santo dos Santos do Templo de Jerusalém, ele
"encontrou ali uma estátua de mármore de um homem extremamente barbado montado num asno, com um livro nas mãos, e ele supôs ser uma imagem de Moisés, o fundador de Jerusalém e organizador da nação, o homem, enfim, que determinou aos judeus os seus misantrópicos e ilegais costumes".
E então Antíoco IV Epífanes, chocado com tal ódio dos judeus à humanidade, proíbe suas práticas tradicionais. O texto termina dizendo que os amigos de Antíoco Sidetes nada conseguem contra o judeus, porque ele apenas cobra o tributo devido, destrói as muralhas de Jerusalém e leva reféns, pois o rei é uma pessoa magnânima e misericordiosa.
As observações que devem ser feitas sobre este texto são as seguintes:
Este cerco de Jerusalém, pelo rei selêucida Antíoco VII Sidetes, acontece no começo do governo de João Hircano I, em 133 a.C. Antíoco VII impõe um tributo a João Hircano e o obriga a combater ao seu lado contra os partos.
A proibição das práticas judaicas, decretada por Antíoco IV Epífanes, acontece em 167 a.C.
Aparece aqui mais uma vez, o tema do segregacionismo judaico, como já vimos em Apolônio Mólon.
Aqui não aparece a lenda da cabeça de asno que seria cultuada no Templo de Jerusalém - como em Mnaseas de Patara (ap. 200 a.C.), Apião (séc. I d.C.) e Damócrito (séc. I d.C.) -, mas apenas a da estátua de Moisés cavalgando um asno com um livro nas mãos!
Reaparece em Diodoro Sículo o tema dos judeus que são expulsos do Egito por serem leprosos, como em Maneton (séc. III a.C.), Lisímaco (séc. I a.C.) e Apião (séc. I d.C.).
Nicolau de Damasco (Nikólaos ho Damaskenós) é o quarto autor do século I a.C. a ser abordado. Nicolau nasce em Damasco por volta de 64 a.C. de uma importante família. Historiador, professor e escritor. Conselheiro de Herodes Magno a partir de 14 a.C. "Ele supervisionou a educação do rei e foi um de seus principais conselheiros, representando-o em várias ocasiões"[27] .
Antes disso, Nicolau fora professor dos filhos de Antônio e Cleópatra. Após a morte de Herodes, passa a representar os interesses de seu filho Arquelau. Parece que Nicolau termina seus dias em Roma, no começo do século I d.C.
Sua grande obra é a Historiae, em 144 livros. Os fragmentos que falam dos judeus nos são transmitidos através das Antiquitates Iudaicae de Flávio Josefo.
Ele escreve sobre o governo de Antíoco IV Epífanes, sobre a guerra de Antíoco VII Sidetes contra os partos, sobre as guerras de Ptolomeu Latiro, sobre as campanhas de Pompeu e Gabínio contra os judeus etc.
"Como se poderia naturalmente esperar de um historiador que foi amigo pessoal e servidor de um rei judeu e que defendeu os direitos judaicos diante de Agripa, Nicolau mostrou mais respeito para com o passado e as tradições judaicas do que a maioria dos escritores greco-romanos", explica M. Stern[28] .
Flávio Josefo, em Antiquitates Iudaicae I, 159-160 diz:
"Nicolau de Damasco, no seu quarto livro das