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A filosofia é outro instrumento de circulação da koiné. Quatro grandes escolas florescem, além de outras tendências menores. Gente de todo o mundo helenístico acorre aos grandes centros filosóficos ou escuta os filósofos ambulantes. As quatro grandes escolas são a Academia, fundada por Platão, que pensa em dedicar-se à política, mas acaba voltando-se para a filosofia quando conhece Sócrates, por volta de 407 a.C., tornando-se seu fiel aluno[16]; outra grande escola filosófica é o Liceu, fundada por Aristóteles em 335 a.C. A influência de Aristóteles sobre todo o conhecimento, ciência e cultura posteriores é imensa. Entre os peripatéticos da época helenística destaca-se Teofrasto (ap. 371-ap. 287 a.C.), sucessor de Aristóteles à frente do Liceu; o Jardim é a escola fundada por Epicuro em 306 a.C.[17]; o Pórtico, fundado por Zenão de Cítion, um semita de Chipre, por volta de 315 a.C. em Atenas e leva este nome porque funciona em uma Stoá (= colunata, pórtico). Um dos aspectos mais populares do estoicismo é a sua pregação de uma fraternidade universal entre os homens, onde não haveria distinção entre gregos e bárbaros nem entre livres e escravos. Segundo o estoicismo "o essencial é distinguir 'o que depende de nós' e 'o que não depende de nós'. No segundo grupo fica tudo o que depende das paixões, e o que é preciso aprender a renunciar através de uma longa ascese que vai conduzir ao domínio sobre si próprio, à apatia (ausência de paixão). O que depende de nós é precisamente a vontade, que faz do sábio um igual a Deus. Moral dura mas exaltante, que torna o homem independente das circunstâncias, e, em particular, da sua classe e da sua situação"[18]. Mas esta moral estóica é fatalista, pois sustenta o conformismo a uma dada ordem. Além destas quatro grandes escolas, devem ser mencionados também os céticos e os cínicos. A Escola Cética é fundada por Pírron de Élis, que vive de ap. 365 a 275 a.C. Pírron participa da expedição de Alexandre Magno. Pírron parte das contradições percebidas pelos sentidos e pelas operações do espírito para afirmar a impossibilidade do conhecimento da natureza das coisas. Então ele prega a suspensão do julgamento e a indiferença em relação ao mundo exterior[19]. A Escola Cínica é fundada em Atenas por Antístenes, nascido por volta de 440 a.C. Antístenes é discípulo e amigo de Sócrates. A escola tem esse nome porque funciona no ginásio Cinosarges, nome de um local a leste de Atenas, fora das muralhas, onde há um santuário de Héracles, aliás, segundo Antístenes, o modelo a ser imitado. O cinismo é um típico fenômeno de contracultura, meio parecido com o movimento hippie. "O cinismo é uma reivindicação de liberdade absoluta, tanto em relação às paixões quanto às necessidades físicas e às obrigações sociais. Ele é uma exasperação do ideal de autarquia, tão fortemente enraizado na mentalidade grega"[20]. Para terminar a questão filosófica, é útil lembrarmos que com Sócrates, Platão e Aristóteles a filosofia grega chega ao seu ápice. Mas a sua reflexão se situa no âmbito da cidade-estado independente, condição que as conquistas de Alexandre Magno e a fundação das monarquias helenísticas ultrapassam. Os ensinamentos destes grandes filósofos tornam-se insuficientes para responder à nova realidade. As novas correntes de pensamento, especialmente o estoicismo e o epicurismo, atentos a essa realidade, deslocam o interesse da metafísica e da epistemologia para os problemas práticos da conduta humana. Entretanto, "são filosofias mais da resignação que da esperança, e procuram um caminho para a paz e a felicidade no estado de espírito do indivíduo, tornando-o independente das circunstâncias exteriores"[21]. Deixando de lado a filosofia e voltando à Judéia, observamos que também aí a koiné deixa as suas marcas. Os papiros de Zenão, testemunham ser a língua grega bem conhecida pela alta sociedade do judaísmo palestino já por volta do ano 260 a.C. e as cartas que o judeu Tobias escreve a Apolônio e ao rei Ptolomeu II Filadelfo testemunham que seu secretário domina um excelente grego[22]. Devemos supor que também em Jerusalém, no século III a.C., uma respeitável minoria aristocrática fale o grego corretamente. Sabemos que José, o filho de Tobias, incrementa o modo de vida grego em Jerusalém a partir de 242 a.C., quando se torna o prostátes, chefe administrativo e financeiro da Judéia. M. Hengel observa que "enquanto o senhor feudal Tobias residia na Transjordânia, José e os seus descendentes viviam na cidade junto com a nobreza que tendia a urbanizar-se, de modo que Jerusalém pouco a pouco se abriu à influência helenística"[23]. [16]. Cf. PLATÃO, Diálogos 13 vols., Belém, Universidade Federal do Pará, 1973-1980; DE ROMILLY, J., Fundamentos da literatura grega, Rio de Janeiro, Zahar, 1984, pp. 188-202. A influência e a difusão do platonismo são imensas em todo o mundo helenístico. Entre os vários nomes célebres da Academia, lembro, a propósito da Palestina, Antíoco de Askalon, do século I a.C. [17]. HARVEY, P., o. c., verbete Epícuros, explica que "os ensinamentos dessa escola filosófica são condensados concisamente nas doze palavras que o filósofo epicurista Diôgenes de Oinoanda (na Líbia) inscreveu em um lugar de meditação em sua cidade: 'Aphobon ho theôs, anáistheton ho thânatos, tô agathon êukteton, tô deinon euekkartêreton' (não há o que temer em Deus, não se sente a morte, o Bem está ao nosso alcance, o Mal é suportável)". Segundo o epicurismo não há o temer dos deuses, porque eles são indiferentes em relação aos homens e não há porque temer a morte, porque a alma é constituída de sutis átomos materiais e se desagregam no momento da morte. O epicurismo é uma filosofia de notável sucesso na época helenística, tanto no Oriente quanto em Roma. Atinge as classes populares, as mulheres e os escravos. Da Palestina conhecemos Filodemo de Gadara, filósofo epicurista do século I a.C. [18]. LÉVÊQUE, P., O mundo helenístico, Lisboa, Edições 70, 1987, p. 119. O estoicismo difunde-se muito por todo o mundo helenístico e no ambiente romano. Cícero, Sêneca, o Filósofo, e Marco Aurélio, imperador romano, por exemplo, são estóicos. Na Palestina destacam-se os filósofos estóicos Boécio de Sidon, do século II a.C., e Antíoco de Askalon, dos séculos II/I a.C. [19]. Cf. HARVEY, P., o. c., verbete Escola Cética. [20]. PRÉAUX, C., Le monde hellénistique II, p. 620. Diôgenes de Sinope, do século IV a.C., é o mais famoso filósofo cínico. Vários ditos espirituosos atribuídos a Diógenes são recolhidos por Diógenes Laércio, escritor do século III d.C. Um filósofo cínico conhecido da Palestina é Menipo de Gadara. Escravo de nascimento, vive no século III a.C. e cria uma obra filosófica satírica que conquista o mundo grego e, mais tarde, Roma. [21]. HARVEY, P., o. c., verbete Filosofia. O que é confirmado por PRÉAUX, C., Le monde hellénistique II, p. 607: "Os filósofos helenísticos têm uma função de evasão: vontade de contracultura dos cínicos, procura de indiferença pelos epicuristas, fatalismo dos estóicos, suspensão de julgamento dos céticos". [22]. Os papiros de Zenão constituem uma coleção de cerca de 2.000 papiros, encontrados após 1910, perto da antiga Filadélfia, localizada nas vizinhanças do oásis de Fayum, Egito, e trazem os arquivos de Zenão, que entra para o serviço de Apolônio, poderoso ministro de Ptolomeu II Filadelfo, no qual permanece 13 anos, de 261 a 248 a.C. Zenão faz uma viagem de negócios para seu patrão, à Palestina, no final de 260 a.C. Fica na região até o começo de 258 a.C., isto é, por um período de 13 a 14 meses e alguns de seus papiros relatam o que aconteceu por lá. Cf. ORRIEUX, C., Les papyrus de Zenon. L'orizon d'un grec en Egypte an IIIe siècle avant J. C., Paris, Macula, 1983. [23]. HENGEL, M., Ebrei, Greci e Barbari. Aspetti dell'ellenizzazione del giudaismo in epoca precristiana, Brescia, Paideia, 1981 , p. 60. |