Helenização - The Hellenization of Palestine

 

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2. Helenismo, Fenômeno Urbano

Um fato que logo chama a atenção de quem começa a estudar o helenismo é o fenômeno urbano. O helenismo é um fenômeno tipicamente urbano. A cidade é o seu berço. O processo de urbanização começa com Alexandre Magno - segundo Plutarco, só com o nome de Alexandria ele funda 70 cidades -, aprofundando-se com seus sucessores - veja-se o caso de Antíoco IV Epífanes - e se generaliza sob o Império Romano. Roma cria um forte mercado, transformando o Mediterrâneo em movimentada via de comunicação interna, o que leva as cidades portuárias a grande desenvolvimento. Este processo de urbanização atinge também o mundo judaico e a aristocracia de Jerusalém luta para transformá-la numa pólis. Por isso é preciso verificar este fenômeno de disseminação da pólis, na época, como fator de helenização.

Quando Alexandre Magno conquista o Oriente, a maior parte das cidades o acolhe favoravelmente e sem resistência. Nas cidades gregas da Ásia Menor - mas também nas cidades sírias e fenícias - Alexandre destitui os governos oligárquicos sustentados pela Pérsia e restabelece a democracia, restituindo-lhes a autonomia e a liberdade, embora coloque nestas cidades guarnições macedônias. As populações gregas da Ásia acolhem-no como um libertador. Por outro lado, se as cidades resistem à sua interferência, são destruídas e repovoadas com colonos estrangeiros. É o que acontece com Tiro, Gaza e Samaria, por exemplo. Às vezes, Alexandre mantém o tributo que é cobrado pelos persas, mas redireciona-o para as divindades locais, como faz em Éfeso, onde o santuário de Ártemis passa a recebê-lo. Com isto ele consegue o consenso da população local para a implantação da nova ordem macedônia.

Entretanto, o ideal sonhado pelas cidades libertadas é o de não pagar tributo, não alojar guarnições militares e nem sustentar o exército conquistador. Do que se conclui que sua "liberdade" é bastante relativa, pois Alexandre exige as três coisas.

Por que Alexandre fortalece as cidades? Porque ele precisa de fortalezas bem localizadas para a defesa do território, e as antigas cidades, em geral, estão em pontos estratégicos; porque ele precisa de sua estrutura social e política para garantir o seu domínio e porque ele precisa sustentar o seu exército[4].

As cidades orientais são também ideologicamente apropriadas pelos conquistadores, pelo menos segundo os escritores gregos, que relatam suas lendas de fundação como lendas gregas. Através de especulações etimológicas ou mitológicas, várias cidades da Palestina, por exemplo, são consideradas gregas porque "fundadas" por gregos. Assim Ráfia é relacionada com Dionísio, Gaza com um filho de Héracles, Dora com Doros, filho de Poseidon e assim por diante[5].

Os sucessores de Alexandre, em permanente conflito entre si, interferem muito nas cidades, transformando sua "liberdade" em obrigação de ficar do lado do governante do momento e não do lado do rei concorrente. Segundo Políbio, por exemplo, Filipe V, rei da Macedônia (221-179 a.C.) que está em confronto com Roma, dá a liberdade à cidade de Élis, situada a noroeste do Peloponeso, mas os seus habitantes preferem continuar aliados dos etólios que estão com os romanos. Os reis helenísticos chegam a vender cidades. Egina, conquistada pelos romanos e entregue aos etólios, é vendida por estes, em 211-210 a.C., por 30 talentos, ao rei de Pérgamo, Átalo I. E Antíoco III, o Grande, rei selêucida de 222-187 a.C., dá Stratonicéia de Cária a Rodes, segundo o mesmo Políbio[6].

Uma cidade, para ter autonomia, "que é um dos elementos da liberdade concedida pelos reis", precisa conservar os "organismos da vida política herdados da idade clássica"[7]. Estes organismos básicos são os seguintes: magistraturas e sacerdócios epônimos, a boulé ou gerousia, estrategia, funções judiciárias, ginasiarquia e educação, organização das festas, provisão e supervisão dos mercados e polícia. As constituições das póleis helenísticas inspiram-se nos modelos jônios, dórios ou atenienses. Ou combinam vários modelos. Platão e Aristóteles, no século IV a.C., trabalham a questão da dimensão política da cidade, embora estas dimensões variem muito na época helenística[8]. Apesar da autonomia, as cidades helenísticas não são totalmente independentes, pois estão situadas no interior de reinos e impérios. Daí os constantes e variados modos de intervenção real nas cidades[9].

3. E todos Falavam uma só Língua: a Koiné

Veículo fundamental de difusão do modo de vida grego no Oriente é a língua grega, conhecida neste período sob a forma de koiné. Koiné significa "comum", e designa a língua única, comum a todos, que substitui, após as conquistas de Alexandre Magno, a pluralidade dos dialetos gregos. Esta língua, mais simples do que o grego clássico e mais flexível na absorção de elementos novos, torna-se instrumento indispensável para a comunicação dos povos tão diferenciados que constituem as monarquias helenísticas.

Qual é a origem da koiné?

No fim do III milênio ou começo do II milênio a.C. tribos vindas do norte introduzem o indo-europeu na Grécia. Os gregos não chamam sua pátria de Grécia, mas de Hellás e a si mesmos de helenos, nome derivado de uma tribo que, na época das migrações indo-européias, se estabelece em parte da Tessália. Embora os gregos falassem vários dialetos, quando é criado o império ateniense no século V a.C. acontece uma tendência unificadora com predominância do dialeto ático. Com a conquista macedônia adota-se um dialeto único, baseado no ático, que é a koiné diálektos, a koiné do mundo helenístico[10].

Mas, para entendermos a importância da koiné como instrumento de helenização é necessário verificarmos o seu papel na circulação dos bens culturais e na estrutura política do dominador macedônio. Os modos de circulação da koiné são os jogos, as artes (poetas, músicos, atores), o comércio, a ciência, a filosofia, o exército, a administração...

M. Hengel observa que "os mercadores gregos negociavam nela [na koiné], tanto na Báctria, nas fronteiras da Índia, quanto em Marselha; as leis eram promulgadas nela e os tratados elaborados segundo determinado esquema; ela era a língua do diplomata e do homem de letras; e qualquer um que almejasse respeitabilidade social ou apenas a reputação de ser um homem educado deveria ter um impecável conhecimento dela"[11].

Vejamos, em primeiro lugar, os jogos, eficiente modo de circulação da koiné e dos padrões gregos de comportamento. Na época helenística há grande difusão dos jogos de tipo olímpico. Tanto os reis, como os santuários ou as cidades os instituem por toda a parte. Ou para honrar seus antepassados, ou para comemorar uma vitória, ou ainda para agradecer aos deuses por terem se salvado de alguma catástrofe.

Dolichos: corrida olímpica de longa distânciaH.-I. Marrou, em seu conhecido estudo sobre a educação na antigüidade, diz a propósito: "Onde quer que se implante o helenismo aparecem ginásios, estádios, edificações esportivas; reencontramo-los por toda parte, de Marselha à Babilônia ou Susa, do Egito meridional à Criméia e não somente nas grandes cidades, mas até nas menores aldeias de colonização, por exemplo, em Fayum. O esporte não é para os gregos apenas um divertimento apreciado; é algo de muito sério, que se relaciona com todo um conjunto de preocupações higiênicas e médicas, estéticas e éticas a um só tempo"[12].

Há quatro grandes festivais pan-helênicos, ocasião em que vêm visitantes de todas as partes do mundo grego e em que circulam músicos, atores, poetas, políticos e atletas. Estes festivais enfatizam a unidade da raça grega, incentivam a prática do atletismo como uma postura social civilizada e estimulam as artes, especialmente a poesia, a música, a escultura e a pintura. São eles: o festival Olímpico, celebrado em Olímpia a cada quatro anos; o festival Pítico, realizado em Delfos no terceiro ano de cada Olimpíada, em agosto-setembro, para celebrar a vitória de Apolo sobre a serpente Píton; o festival Ístmico, celebrado no istmo de Corinto em honra de Melicertes, um grego divinizado que morre afogado e cujo cadáver aparece numa praia do istmo de Corinto; e o festival Nemeu, realizado a cada dois anos no vale de Nemea, perto de Cleonéia, na Argólida, dois meses após o festival Ístmico. A tradição diz que o festival se celebra em honra de Ofeltes, morto durante a expedição dos Sete contra Tebas [13].

Sobre o festival Olímpico, observa P. Harvey: "Poetas e oradores aproveitavam-se da grande afluência de visitantes para tornarem-se conhecidos mediante a declamação de suas obras. Atletas e donos de cavalos de corridas vinham de muitos Estados gregos, e realizava-se simultaneamente uma grande feira. Pode-se fazer uma idéia aproximada do número de pessoas presentes ao festival considerando o fato de o estádio de Olímpia ter capacidade para acomodar 40.000 espectadores sentados"[14].

Além das festas pan-helênicas, há as festas regionais, que também atraem visitantes. Em Atenas são celebradas as Panatenaias, as Tesmoforias, as Targélias, as Pianêpsias, as Apatúrias e 4 festas em honra de Dionísio (as Dionísias Rústicas, as Lenaias, as Antestérias e as Dionísias Urbanas). Em Esparta são celebradas as Ginopedias e as Cárneias. Em Argos, a Heraia etc.

Mas, deixemos as festas. Vamos a outro modo de circulação da koiné: os médicos ambulantes. Há também os médicos da corte, que além de exercerem sua função técnica são, freqüentemente, discretos conselheiros reais e até embaixadores. Mas o que nos interessa são os médicos públicos.

O médico público é nomeado pela assembléia do povo na pólis, recebe seus proventos da cidade, que institui um imposto para tal fim, o iatrikon (iatrikós, "pertencente aos médicos ou à medicina"; he iatrikê, "a medicina"). São muito respeitados e vários decretos honoríficos louvam sua competência e devotamento, especialmente em situações críticas como terremotos e epidemias. Hipócrates, nascido em Cós por volta de 460 a.C. é o modelo do médico grego.

Como vimos, as conquistas de Alexandre alargam os domínios gregos em desmesurada proporção. As guerras contínuas entre os vários Estados helenísticos e entre estes e Roma criam a necessidade de amplo uso da diplomacia. Assim, os embaixadores são também portadores da língua grega que chamamos de koiné. Como não existe um corpo diplomático permanente e profissional, são filósofos, médicos, sábios, historiadores e juristas que cumprem tais tarefas. Ou homens ricos de famílias de renome. Veja-se o caso do historiador Políbio e de seu pai Licortas, participando de embaixadas no século II a.C. Aliás, Políbio escreve sua "História" na língua koiné[15].

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[4]. Cf. PRÉAUX, C., Le monde hellénistique. La Grèce et l'Orient (323-146 av. J.-C.) II, Paris, Presses Universitaires de France, 19882, pp. 408-410.

[5]. Cf. SCHÜRER, E., The History of the Jewish People in the Age of Jesus Christ II. A New English Edition, Edinburgh, T. & T. Clark, 1986, pp. 50-52. 

[6]. Cf. POLÍBIO, História IV, 84; XXII, 8,10 e XXX, 31, Brasília, Editora da UnB, 1985. Para outros dados sobre a liberdade das cidades, cf. PRÉAUX, C., Le monde hellénistique II, pp. 411-412.

[7]. PRÉAUX, C., Le monde hellénistique II, p. 414. 

[8]. Cf. PLATÃO, Leis V, 737d-738e, em Diálogos, vols. XII-XIII, pp. 149-151. ARISTÓTELES, Política VII, 1326 a-b, em Política, Brasília, Editora da UnB, 19882, pp. 229-231.

[9]. Cf. exemplos em PRÉAUX, C., Le monde hellénistique II, pp. 415-428. 

[10]. Cf. HARVEY, P., o. c., verbete Migrações e Dialetos.

[11]. HENGEL, M., Judaism and Hellenism . Studies in their Encounter in Palestine during the Early Hellenist Period I, London, SCM Press, 1981., p. 58.

[12]. MARROU, H.-I., História da educação na antigüidade, São Paulo, Editora Pedagógica e Universitária, 1990, 5ª reimpressão, p. 185.

[13]. Cf. HARVEY, P., o. c., verbete Festivais.

[14]. HARVEY, P., o. c., verbete Festivais

[15]. Cf. sobre os embaixadores, PRÉAUX, C., Le monde hellénistique I, pp. 220-224.


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