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Os Instrumentos da Helenização
"Verificou-se desse modo, tal ardor de helenismo e tão ampla difusão de costumes estrangeiros (...) que os próprios sacerdotes já não se mostravam interessados nas liturgias do altar" (2Mc 4,13a.14a).
A chegada dos poderosos exércitos macedônios com Alexandre Magno em 332 a.C., mas, principalmente, as várias guerras travadas por seus sucessores na regiões da Síria e da Palestina constituem, sem dúvida, eficaz elemento de helenização das populações locais. A fundação de novas cidades ou a transformação de várias cidades orientais em póleis constituem outro mecanismo fundamental de mudança de mentalidade e estilo de vida. Nas cidades, a língua grega que se difunde sempre mais e a educação aristocrática desenvolvida nos ginásios completam este quadro de transformação social, levando à assimilação de grandes camadas da população à nova realidade. O assunto deste artigo é este: verificar como os vários mecanismos da sociedade e da cultura grega carreiam para a Palestina os valores do dominador estrangeiro. Uma versão mais reduzida deste artigo foi publicada em Estudos Bíblicos n. 61, Petrópolis, Vozes, 1999, pp. 23-37. 1. O Exército, as Técnicas Militares e a GuerraQuando Alexandre chega à Ásia, vence os exércitos persas, destrói a fabulosa resistência de Tiro, toma posse do resto da Palestina sem esforço, é aclamado no Egito, o que sentem os judeus? Sentem evidentemente o impacto da chegada de uma poderosa organização militar e de suas bem estruturadas técnicas de cerco e combate. Assim, é o exército macedônio o primeiro veículo concreto do helenismo na Palestina e a certeza de que novos tempos estão começando. A unidade básica do exército macedônio é a falange, que mantém sua forma e superioridade desde que é desenvolvida por Filipe II até sua derrota para a legião romana. A falange é formada por uma unidade de infantaria pesada agrupada numa frente de dezesseis fileiras de soldados. Estes usam o capacete macedônio, uma couraça, um escudo de forte concavidade, uma espada e, sobretudo, a sarissa, uma longa lança que pode ultrapassar os 5 metros de comprimento. O resultado é uma concentração impenetrável de lanças que avança inexoravelmente ao encontro do inimigo. Os combatentes da primeira fila são protegidos pelas lanças dos soldados da segunda, terceira, quarta e quinta filas, de modo que, antes dos romanos, só uma falange pode vencer outra falange. Todas as formações existentes nos exércitos orientais mostram-se impotentes para detê-la. O problema da falange é que ela exige terreno plano para combater com eficiência e possui pouca flexibilidade, ficando exposta aos ataques nos flancos e não conseguindo se voltar para enfrentar uma manobra de envolvimento. Por isso, é necessário protegê-la com a cavalaria e com tropas ligeiras, o que Alexandre Magno sabe fazer com eficiência. No século II a.C. a falange sucumbe frente à legião romana, como ilustra a batalha de Cinoscéfalos, quando em 197 a.C. o cônsul romano Flamínio vence o rei Filipe V da Macedônia. Convém, enfim, observar que os exércitos helenísticos são constituídos, na sua maioria, pela infantaria, pois a cavalaria representa apenas cerca de 10% do total. Os mercenários, sempre numerosos, usam, em geral, seu armamento característico de acordo com sua origem e avançam com maior mobilidade à frente da falange, enfrentando os primeiros embates. O elefante asiático é outro elemento importante nos exércitos macedônios, verdadeiro "tanque" de guerra, incorporado após a campanha de Alexandre na Índia. Todos os governantes macedônios procuram usá-lo. Diz-se que Selêuco, na batalha de Ipsos, em 301 a.C., conta com 480 elefantes. Ptolomeu II Filadelfo começa a treinar elefantes africanos. Na batalha de Ráfia, em 217 a.C., Ptolomeu IV usa 73 elefantes africanos contra os 102 elefantes indianos de Antíoco III, o Grande. Também os cartagineses os usam em suas guerras contra Roma, tornando-se famoso o elefante de Aníbal, chamado Suro. Os efetivos usados pelos reis helenísticos nas batalhas são consideráveis se comparados aos da pólis clássica. O efeito que podem provocar no inimigo é o terror, como descreve 1Mc 6,41, a propósito da batalha de Bet-Zacarias entre as forças de Judas Macabeu e o exército selêucida: "Ficavam apavorados todos os que ouviam o clamor daquela multidão, o marchar de tanta gente e o retinir de suas armas, pois era um exército extraordinariamente numeroso e forte". Exércitos com cerca de 100 mil homens de infantaria, 10 mil cavaleiros e uma centena de elefantes são bastante comuns nas batalhas da época. Por isso, às vezes, uma guerra é decidida em uma única batalha. Tantos são os recursos mobilizados, que o perdedor não consegue mais se recuperar a curto prazo. Além do que, os mercenários não costumam permanecer com um rei ou general derrotado. Para a conquista das cidades, em geral todas fortemente muradas, as técnicas de assédio empregadas pelos macedônios são sofisticadas. A artilharia de cerco usa dezenas de catapultas de 7 a 10 metros de altura, que lançam projéteis de 80 kg a uma distância de 400 a 700 metros. Consta que no assalto a Tiro Alexandre usa torres de até 50 metros de altura, montadas sobre rodas, para alcançar e atingir os defensores das muralhas. Mas estas medidas são exageradas, já que tal altura ultrapassa em muito a das muralhas. Outro cerco famoso é o que Demétrio Poliocerta (= "conquistador de cidades") faz a Rodes em 304 a.C. Outra técnica de assédio é o uso de minas que destroem as muralhas. Consiste em abrir um túnel sob as muralhas e escorá-lo com madeira, na qual, em seguida, se coloca fogo: o calor produzido faz desabar aquele trecho das fortificações. No mar, a trirreme continua a ser a unidade fundamental, mas "vê-se também aparecerem grandes barcos com trinta ou quarenta fileiras de remadores, cobertos com blindagem de madeira contra os golpes de esporões e trazendo em abundância torres e máquinas"[1]. São usadas frotas de até 500 barcos de guerra. Nau de três bancadas, a trirreme é construída pela primeira vez em Corinto, por volta de 700 a.C. Uma trirreme clássica é uma embarcação estreita e longa: mede cerca de 40 metros de comprimento por 5 metros de largura. Possui um mastro e uma vela principais, baixados antes do combate e às vezes substituídos por um mastro e uma vela menores. Uma trirreme ateniense, por exemplo, leva uma tripulação de 200 homens. Destes, 170 remam, enquanto 30 ficam de reserva. Uma trirreme chega à velocidade de 7,5 milhas marítimas por hora. As trirremes não possuem espaço a bordo para o preparo das refeições e nem para que os homens durmam. Isto é feito em terra[2]. É preciso lembrar, no que diz respeito à Palestina, que mercenários judeus já lutam em exércitos gregos mesmo antes de Alexandre Magno. Tornam-se, assim, conhecedores competentes desta organização militar, o que será útil, mais tarde, à resistência macabéia contra os Selêucidas. Enfim, a guerra é um elemento central na civilização helenística, por razões econômicas, estratégicas ou ideológicas. De tal modo que a paz é apenas um período de preparação de uma nova guerra[3]. Calcula-se que, entre a morte de Alexandre, em 323 a.C., e a chegada de Pompeu, em 63 a.C., a Palestina é palco de pelo menos 200 campanhas militares, o que não é de se desprezar. Com todas as seqüelas conhecidas de destruições, requisições, mortes, escravidão. A literatura da época conserva imagens significativas da visão judaica sobre o poder de Alexandre Magno e de seus sucessores. Como em 1Mc 1,1-4 que fala de "numerosas guerras", do extermínio dos "reis da terra", de seu avanço "até as extremidades do mundo", e, pateticamente, do silêncio da terra diante do conquistador poderoso, que é Alexandre Magno. Ou na simbólica linguagem de Dn 7,7 e Dn 11,3. [1]. LÉVÊQUE, P., Impérios e barbáries do século III a.C. ao século II d.C., Lisboa, Dom Quixote, 1979,, p. 32. [2]. Cf. HARVEY, P., Dicionário Oxford de literatura clássica grega e latina, verbete Embarcações. [3]. Cf. PRÉAUX, C., Le monde hellénistique. La Grèce et l'Orient (323-146 av. J.-C.) I, Paris, Presses Universitaires de France, 19872, pp. 332-357. Cf. também PLUTARCO, Pirro 12, em Vidas Paralelas III, São Paulo, PAUMAPE, 1991, p. 21. Plutarco faz eco a Platão que em Leis I, 626a diz: "O que a maioria dos homens denomina paz, disso tem apenas o nome, pois em verdade, embora não declarada, é a guerra o estado natural das cidades entre si". Cf. PLATÃO, Diálogos, vols. XII-XIII, Belém, Universidade Federal do Pará, 1980, p. 21. Copyright © 1999-2010 Airton José da Silva. Todos os direitos reservados. Mapa do Site - Sitemap. |