História de Israel - History of Israel

 

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11.1.5. De Agripa II ao Fim da Judéia

Quando morre Herodes Agripa I (44 d.C.), os romanos não quiseram entregar logo o governo para seu filho Agripa II que é apenas um garoto de 17 anos e vive em Roma. O país é governado, então, pelos procuradores.

Mas em 48 d.C. Agripa II recebe o governo de Cálcis, território antes dirigido por seu tio. Em 52 d.C. Agripa recebe também a antiga tetrarquia de Felipe e partes da Galiléia e da Peréia. Já antes, em 49 d.C., ele havia sido nomeado Inspetor do Templo, com direito de designar o sumo sacerdote, embora a Judéia continue governada por procuradores romanos. Agripa II é o último governante da família herodiana. Quando Jerusalém é destruída em 70 d.C., ele muda-se para Roma, onde morre após o ano 93 d.C.

Agripa II vive incestuosamente, dizem, com sua irmã Berenice e não é bem visto pelos judeus, especialmente pelos sacerdotes, graças às mudanças arbitrárias de sumos sacerdotes que sempre fez. Teve pouca influência sobre a comunidade judaica.

É diante de Agripa II e Berenice que Paulo comparece, quando prisioneiro em Cesaréia, segundo At 25,23-26,3.

A crescente revolta judaica contra a ocupação romana é, com freqüência, atribuída ao sempre vivo espírito nacionalista judaico e à sua imorredoura fé na libertação messiânica, mas historicamente é condicionada e ocasionada pela inabilidade dos procuradores e até mesmo de alguns Imperadores.

Vimos como Pilatos cometera arbitrariedades sem conta, muitas delas com o deliberado propósito de irritar os judeus, julgados totalmente impotentes frente ao poderio romano.

E esta atitude prepotente não pára com Pilatos, que afinal é punido pelo que fizera, sendo destituído por Tibério e chamado a Roma, onde tem que se explicar.

O Imperador seguinte, Calígula, proclama-se deus e obriga todas as províncias, inclusive a Judéia, a cultuá-lo, oferecendo-lhe sacrifícios. Quando os judeus se recusam a cultuá-lo, são perseguidos tanto na diáspora (em Alexandria, por exemplo) como na Judéia e demais províncias.

Calígula chega a exigir que uma estátua do Imperador seja colocada no Templo, contra todo o bom senso. Petrônio, legado da Síria, tenta demover o Imperador de seus propósitos: é condenado à morte, ou seja, recebe ordem do Imperador para se suicidar. Só que assassinam Calígula em 41 d.C., e Cláudio, seu sucessor, dispensa os judeus do culto ao Imperador, salvando também a vida de Petrônio.

Na Palestina do século I d.C. havia um verdadeiro clima de terror.  Richard L. Rohrbaugh, na Introdução de um volume sobre “As Ciências Sociais e a Interpretação do Novo Testamento ”, diz sobre a expectativa de vida da população do Império Romano nesta época: “Cerca de 1/3 daqueles que ultrapassavam o primeiro ano de vida (portanto, não contabilizados como vítimas da mortalidade infantil) morriam até os 6 anos de idade. Cerca de 60% dos sobreviventes morriam até os 16 anos. Por volta dos 26 anos 75% já tinha morrido e aos 46 anos, 90% já desaparecido, chegando aos 60 anos de idade menos de 3% da população”[14].

É claro que estes dados não são uniformemente distribuídos por toda a população da época. Os que mais sofriam pertenciam às classes mais pobres das cidades e povoados, já que um pobre em Roma, no século I de nossa era, tinha uma expectativa de vida de 30 anos, quando muito. E o autor acrescenta: “Estudos feitos por paleopatologistas indicam que doenças infecciosas e desnutrição eram generalizadas. Por volta dos 30 anos a maioria das pessoas sofria de verminose, seus dentes tinham sido destruídos e sua vista acabado (...) 50% dos restos de cabelo encontrados nas escavações arqueológicas tinham lêndeas”[15].

Com moradias precárias, sem condições sanitárias adequadas, sem assistência médica, com uma má alimentação... Olhemos para a audiência de Jesus, por exemplo: este mesmo Jesus, com seus trinta e poucos anos de idade, era mais velho do que 80% de sua audiência. Uma audiência doente, desnutrida e com uma expectativa de mais 10 anos de vida, se tanto!

Douglas E. Oakman, em um estudo sobre as condições de vida dos camponeses palestinos da época de Jesus , mostra que a violência que sofriam era brutal. Fraudes, roubos, trabalhos forçados, endividamento, perda da terra através da manipulação das dívidas atingiam a muitos. Existia uma violência epidêmica na Palestina[16].

Quando Vitélio Cumano (48-52 d.C.) é procurador, acontece violenta revolta dos judeus durante a festa da Páscoa, por causa de um ultraje cometido por um soldado romano. Cumano reprime o tumulto e vinte mil judeus perdem a vida.

No tempo de seu sucessor Antônio Félix (52-60 d.C.) a tensão aumenta perigosamente. É no seu tempo que surge o grupo dos sicários, assim chamados por usarem em suas ações uma adaga curva e curta chamada “sica”. Sua tática é provocar tumultos e desestabilizar o governo através de assassinatos inesperados de personagens importantes. Escondem a sica sob as vestes e misturados na multidão eliminam não só romanos, mas também quem colabora com a ocupação estrangeira. Um dos assassinados neste tempo pelos sicários é o sumo sacerdote Jônatas.

Outros grupos tentam despertar no povo os sentimentos messiânicos, proclamando-se profetas e fazendo promessas utópicas. Tais grupos são duramente reprimidos pelos romanos através de grandes matanças. Félix manda crucificar inúmeros zelotas durante o seu mandato[17].

Outro procurador terrivelmente corrupto e repressor é Lucéio Albino (62-64 d.C.). Seu sucessor Géssio Floro (64-66 d.C.) consegue então jogar a gota d’água para que o ódio acumulado pelos judeus derrame.

Quando, após muitas arbitrariedades, G. Floro requisita 17 talentos do tesouro do Templo, a revolução estoura. Os judeus escarnecem do procurador, fazendo uma coleta para o “pobrezinho” Floro.

Resultado: Floro entrega para os seus soldados uma parte de Jerusalém, para que seja saqueada e crucifica alguns homens importantes da comunidade judaica. O povo, em supremo desprezo, não reage diante do saque, e o desprezo é vingado: há uma carnificina geral.

Então, os revolucionários chefiados por Eleazar, filho do sumo sacerdote, ocupam o Templo e a fortaleza Antônia. Agripa II tenta conter a revolta e não consegue. Céstio Galo, legado da Síria, ataca com uma legião, mas é rechaçado com pesadas perdas, assim como antes Floro teve que se retirar para Cesaréia ao ser derrotado. É a guerra definitiva.

Começam os preparativos para o que der e vier. A Galiléia é entregue ao sacerdote fariseu Josefo, o nosso conhecido historiador Flávio Josefo. Josefo fortifica várias cidades e se prepara. Também as fortalezas de Massada e Heródion são ocupadas pelos rebeldes. 

“Reuniu-se um grande número daqueles judeus que queriam a guerra a qualquer preço. Tinham se dirigido para uma fortaleza chamada Massada. Aí surpreenderam a guarnição romana, massacraram-na e em seu lugar colocaram um destacamento constituído pela própria gente. Nessa época, Eleazar, filho do sumo sacerdote Ananias, um jovem de grande atrevimento que comandava então a guarda do Templo, incitou os sacerdotes em exercício a não aceitar donativos ou sacrifícios da parte de não-judeus. Este foi o começo propriamente dito da guerra contra os romanos, pois nesta ocasião foi praticamente rejeitado o oferecimento de sacrifício em favor dos romanos e do Imperador”[18].

O Imperador Nero confia então a Palestina a um experiente general: Vespasiano. Em companhia de seu filho Tito, Vespasiano ataca a Galiléia na primavera de 67 com 10 legiões (60 mil soldados, sem contar as tropas auxiliares, o que duplica este número). Conquistam facilmente o território, mas a fortaleza de Jotapata só cai após 47 tentativas de assalto. Josefo é aprisionado e muito bem tratado. Até o outono a Galiléia está nas mãos dos romanos, que então podem hibernar tranqüilamente.

Veja a posição ambígua de Flávio Josefo na guerra contra Roma aqui!

Na primavera de 68 Vespasiano ocupa sucessivamente a Peréia, a costa, as montanhas da Judéia, a Iduméia e a Samaria. Está para atacar Jerusalém quando Nero se suicida.

Vespasiano espera se definir a situação em Roma. Três Imperadores passam pelo trono, mas nenhum pára. Finalmente Vespasiano é aclamado Imperador no dia primeiro de julho de 69 e marcha para Roma, deixando a guerra sob o comando de Tito.

Tito cerca Jerusalém pouco antes da Páscoa de 70, com quatro legiões (24 mil soldados). A cidade está repleta de peregrinos. Uma cidade com cerca de 30 mil habitantes fixos. Mas nesta época ultrapassava os 180 mil.

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Tito ocupa o setor norte da cidade, abre um fosso ao seu redor para que ninguém escape e em julho de 70 toma a fortaleza Antônia, um dos redutos rebeldes. Como os muros do Templo não cedem, Tito o incendeia. É agosto de 70[19]. Toda a construção é consumida pelas chamas, mas os rebeldes conseguem se refugiar no palácio de Herodes.

Em setembro de 70 também o palácio cai. Os chefes rebeldes, João de Gíscala, zelota, e Simão Bargiora, sicário, são aprisionados e levados triunfalmente para Roma. A cidade é saqueada e os habitantes assassinados, vendidos ou condenados a trabalhos públicos.

Estão ainda de pé três fortificações rebeldes: Heródion, Massada e Maqueronte, defendidas pelos sicários e zelotas. Heródion e Maqueronte caem logo, mas Massada resiste um ano de cerco. Quando finalmente é tomada, os rebeldes incendeiam-na e se suicidam em massa para não caírem em mãos romanas.

Vespasiano manda cunhar moedas sobre as quais estão um soldado romano, uma mulher de luto e uma palmeira simbolizando Israel. A inscrição dizia: Judaea capta. Em Roma, o arco do triunfo de Tito, de pé ainda hoje, celebra a vitória romana. A Judéia é separada da Síria e torna-se uma província imperial, dirigida por um governador que mora em Cesaréia.

Quando reina Adriano (117-138 d.C.), há ainda nova revolta judaica. É que o Imperador, em giro pelo Oriente, decide reconstruir Jerusalém com o nome de Aelia Capitolina e manda fazer um templo dedicado a Júpiter no mesmo local onde existira o Templo de Salomão.

Simeão Bar-Kosibah é o chefe desta nova revolta, começada em 131 d.C. Ele é chamado também de Bar-Kokhba (filho da estrela), numa interpretação messiânica de Nm 24,17, feita por Rabi Aqiba.

Os rebeldes ocupam Jerusalém e algumas fortalezas espalhadas pelo território judaico. Depois de muita luta, um enviado especial de Adriano, Júlio Severo, consegue dominar a revolta, vendendo, em seguida, os rebeldes como escravos. É o ano 135 d.C.

Jerusalém torna-se, então, Colonia Aelia Capitolina e o templo a Júpiter é levantado no local do antigo Templo dos judeus, além dos outros templos construídos na cidade.

Aos judeus Jerusalém foi proibida, sob pena de morte. A Judéia torna-se parte da província Síria-Palestina.

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[14]. ROHRBAUGH, R. L., Introduction, em ROHRBAUGH, R. L. (ed.), The Social Sciences and New Testament Interpretation, Peabody, MA, Hendrickson, 1996, pp. 4-5.

[15]. Idem, ibidem, p. 5.

[16]. Cf. OAKMAN, D. E., The Countryside in Luke-Acts, em NEYREY, J. H. (ed.), The Social World of Luke-Acts: Models of Interpretation, Peabody, Massachusetts, Hendrickson, 1991, p. 168.

[17]. Cf. GRABBE, L. L., Judaism from Cyrus to Hadrian. Volume II: The Roman Period, Minneapolis, Fortress Press, 1991, pp. 441-442.

[18]. JOSEFO, F.,  Bellum Iudaicum, 2,408-409.

[19]. A data exata da destruição do Templo é controvertida. A tradição rabínica diz que foi no dia 9 do mês de Ab (29 de agosto de 70), enquanto Flávio Josefo diz que foi no dia 10 de Ab. Cf. SCHÜRER, Storia del Popolo Giudaico I, pp. 613-614, nota 115; GRABBE, L. L., Judaism from Cyrus to Hadrian II, p. 460; JOSEFO, F., Bellum Iudaicum, 6, 250.


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