|
|
Os Macabeus II: a Independência
10.1. Simão Consegue a Independência da JudéiaSimão sucede a seu irmão Jônatas em 143 a.C. e, enfrentando Trifão, agora rei, repele um seu ataque na Judéia. Demétrio II ainda comanda a Cilícia e a Mesopotâmia e Simão faz aliança com ele. Consegue muitos benefícios para o povo judeu, como consta do decreto de Demétrio II citado em 1Mc 13,36-42. Simão toma Gazara, estratégica cidade helenística. Gazara (= Gezer) é judaizada à força e João Hircano, filho de Simão, torna-se o seu governador militar. E a independência da Judéia do jugo dos Selêucidas é garantida com a destruição da Acra por Simão em 141 a.C. e a expulsão dos gentios do território. A importante fortaleza é transformada no palácio dos Macabeus[1]. 1Mc 13,49-52 descreve a tomada da Acra por Simão: "Ora, os da guarnição da Cidadela, em Jerusalém, impedidos de sair e de andar pela vizinhança, para comprar ou vender, começaram a passar muita fome, perecendo não poucos dentre eles à míngua. Então clamaram a Simão para que aceitasse a sua mão direita, e ele os atendeu. Expulsou-os, porém dali e purificou a Cidadela, removendo-lhe as abominações. Finalmente nela entraram no vigésimo terceiro dia do segundo mês do ano cento e setenta e um[2], entre aclamações e palmas, ao som de cítaras, címbalos e harpas, e entoando hinos e cânticos, porque um grande inimigo havia sido esmagado e expelido fora de Israel. Simão estabeleceu que se comemorasse cada ano esta data com alegria. Fortificou ainda mais o monte do Templo, na parte contígua à Cidadela, e habitou ali, ele com os seus". Simão fortalece também as alianças com Esparta e com Roma, restituindo, afinal, à Judéia, sua importância política. Como narra 1Mc 14,24: "Simão enviou Numênio a Roma com um grande escudo de ouro, de mil minas de peso, para confirmar a aliança com eles"[3]. Simão acaba assassinado, com dois filhos, por um genro seu, Ptolomeu, filho de Abrebo, perto de Jericó, durante um banquete. Este seu genro está em conluio com Antíoco VII Sidetes (irmão de Demétrio II), que entre 139 e 128 a.C. é o rei selêucida. Este Antíoco VII inicialmente reafirma os acordos dos reis anteriores, mas em seguida reclama de Simão as localidades por ele conquistadas e o tributo dos territórios anexados por Simão à Judéia (1Mc 15,25-26). Como não chegam a um acordo, Antíoco VII apóia a ação criminosa de Ptolomeu contra Simão. Entretanto, Simão é, durante seu governo, muito querido pelos judeus que resolvem fazer-lhe um elogio, gravado em placas de bronze e afixado no monte Sião, segundo 1Mc 14,25-26. O decreto é de setembro de 140 a.C. 1Mc 14,27-49 traz a inscrição sobre os feitos de Simão e da família dos Macabeus. Aí vemos que ele é etnarca (líder da etnia judaica), tem o direito de usar a púrpura e a fivela de ouro (v. 44) - o que faz dele um dinasta - é estratego (tem autoridade sobre o exército), é chefe (hegoumênos, expressão grega usada na LXX para traduzir sar, "príncipe", ou rosh, "chefe") e sumo sacerdote hereditário. "Não se pode dizer que ele tenha um poder legislativo, porque o povo é regido pela Lei; entretanto, ele tem o direito de fazer 'julgamentos' que não podem ser contestados por ninguém, nem mesmo pelos sacerdotes, sob pena de condenação; não se pode mais fazer reuniões sem a sua aprovação"[4]. 10.2. João Hircano I e as Divisões Internas dos JudeusQuando Simão é assassinado, um filho seu, chamado João Hircano, consegue escapar e assume o poder, governando de 134 a 104 a.C. Durante seus primeiros anos de governos João Hircano I enfrenta enormes dificuldades para manter a independência da Palestina. Antíoco VII, por exemplo, consegue cercar Jerusalém em 133 a.C., impor a João Hircano o tributo e obrigá-lo a combater ao seu lado contra os partos. Sua intenção é a de submeter novamente a Judéia ao poder selêucida, inclusive reocupando a Acra, o que não consegue. Flávio Josefo diz desse momento: "Antíoco, que conservava ainda o ressentimento pelas vantagens que Simão, pai de HIrcano, tinha obtido sobre ele, atacou a Judéia, no quarto ano de seu reinado, que era o primeiro do principado de Hircano e a centésima sexagésima segunda Olimpíada. Depois de ter devastado os campos e obrigado Hircano a se retirar para Jerusalém, ele o sitiou, dividindo o seu exército em sete corpos, para cercar assim toda a praça"[5]. Quando o poder selêucida muda de mãos, entretanto, João Hircano I continua as conquistas de seu pai Simão, judaizando importantes localidades palestinas como Mádaba, Samega, Siquém, Adora, Marisa, a Iduméia. A. Paul lembra que a expansão territorial e os métodos imperialistas dos Macabeus vão se tornando cada vez mais fortes. "A maior parte das guerras terminou com a conversão forçada dos vencidos e muitas vezes com extermínios que lembravam o 'anátema' praticado por Josué. João Hircano destruiu o templo do monte Garizim e a cidade helenizada de Samaria e reduziu seus habitantes a escravos. Os idumeus e os itureus da Galiléia foram obrigados a se circuncidarem (...) Era necessário aniquilar a civilização grega com suas realizações, e não só suas resistências. 'Ou o judaísmo ou a morte': esta frase poderia resumir o programa político dos grandes Asmoneus. Foram destruídas assim muitas cidades de importância econômica e cultural tanto para a Palestina como para os territórios vizinhos. Tal foi, em particular, o destino das grandes e prósperas cidades costeiras e das cidades helenísticas fundadas a leste do Jordão"[6]. Para se libertar da tutela selêucida, João Hircano I apela para os romanos, com quem renova o tratado de amizade, já antes estabelecido por seus antepassados. Os romanos não morrem de amor pelos judeus, mas apóiam qualquer iniciativa que possa enfraquecer os Selêucidas, cujo território ambicionam. O Senado romano renova então a amizade (filia) e a aliança (symmachía) com os judeus em 126 ou 125 a.C., mas também manda dizer que, no momento, há outros problemas mais urgentes em Roma. Logo que puder, o Senado procurará defender os interesses dos judeus[7]. Entretanto, as crueldades cometidas por João Hircano I contra as cidades conquistadas e as populações forçadamente judaizadas provocam a primeira reação dos fariseus contra os governantes Macabeus. Flávio Josefo, para explicar a ruptura de João Hircano I com os fariseus, narra um episódio, bastante lendário, por sinal, segundo o qual, durante um banquete, um fariseu teria requerido de João Hircano I que abandonasse o sumo sacerdócio. Pois sua mãe teria sido prisioneira de Antíoco IV Epífanes - tendo se tornado suspeita de ter sido violentada e tornada impura -, o que o incapacitava para o cargo de sumo sacerdote, segundo Lv 21,14. João Hircano I tenta punir este fariseu com a morte, ação que o partido farisaico não aprova. A partir deste momento João Hircano I alia-se aos saduceus e rompe com os fariseus[8]. João Hircano I, na verdade, para conseguir as suas conquistas e garantir o seu território, começa a incorporar ao seu exército mercenários gentios. Naturalmente pagos com os tributos recolhidos do povo judeu. O que já desagrada bastante aos aliados dos Macabeus. P. Sacchi explica: "Os gentios engajados eram impuros que viviam junto ao povo judeu. Para os essênios a contaminação da cidade crescia, para os assideus surgiam problemas sobre a pureza que antes não existiam. A suspeita em relação ao Asmoneu devia crescer"[9]. Originariamente aliados dos Macabeus no combate à helenização, os assideus acabam divididos na época de Jônatas. Deles saem os essênios, que rompem com o governo dos Macabeus, e os fariseus, que ainda o apóiam[10]. É preciso considerar também que, pouco a pouco, o governo macabeu toma rumos semelhantes aos de seus inimigos Selêucidas, afastando-se dos ideais originais da resistência. É isto principalmente que provoca os atritos com os judeus mais rigorosos na observância da Lei. Observando outro aspecto, A. Paul crê que a política macabéia de destruição do helenismo é, a longo prazo, um suicídio. Esta política "consistia, de um lado, em destruir todos os traços, inclusive os humanos, do helenismo político e cultural das cidades da Palestina justamente quando a numerosa diáspora manifestava sua legalidade e impunha sua verdade, impregnando-se profundamente do modo grego de pensar, de viver e de se exprimir". Além do que, esta política "significava o aniquilamento das infra-estruturas e das estruturas sociais e econômicas, das quais dependiam a salvação e a prosperidade da Palestina". E o autor acrescenta: "Poucos decênios depois, quando da queda súbita do Estado asmoneu em 63 a.C., a história mostrou que, já nos tempos dos troféus, o processo de morte estava profundamente consolidado e generalizado". Para concluir, diz A. Paul: "Da luta pelo restabelecimento da paz civil e, depois, pela independência nacional, passara-se, com efeito, a conquistas cuja finalidade era garantir a segurança necessária às novas fronteiras, muito vulneráveis. Formava-se assim uma engrenagem irresistível, já que a segurança conseguida pelas armas exigia a garantia de uma outra segurança, a qual, por sua vez, devia também ser conseguida pelas armas"[11]. Também M. Hengel acredita que nesta época só a monarquia de tipo helenístico ou a pólis têm condição de sobreviver, sendo inviável qualquer outro tipo de Estado. Por que? Porque sem um exército moderno, um aparelho administrativo e financeiro eficiente e uma participação competitiva no mercado mundial um Estado não tem espaço neste contexto. Os judeus não conseguem compreender isso e estão destinados à falência, pois tentam transplantar seu antigo ideal teocrático para uma realidade política de um mundo transformado[12]. [1]. Sobre Simão, cf. ABEL, F.-M., Histoire de la Palestine I, pp. 191-206; SAULNIER, C., Histoire d'Israel III, pp. 146-149; SCHÜRER, E., Storia del popolo giudaico al tempo de Gesù Cristo I, pp. 250-261. [2]. O vigésimo terceiro dia do segundo mês do ano cento e setenta e um da era selêucida corresponde aos começos de junho de 141 a.C. [3]. Uma mina ática pesa 436 gramas: o escudo pesaria quase meia tonelada de ouro. Entretanto, na resposta dos romanos à embaixada judaica se diz: "Eles nos trouxeram um escudo de ouro de mil minas" (1Mc 15,18). Deve-se entender que o escudo vale mil minas de prata, o equivalente a aproximadamente 44 kg de ouro, peso aceitável para esse tipo de escudo decorativo. [4]. SAULNIER, C., Histoire d'Israel III,
p. 155. [5]. JOSEFO, F., Antiquitates Iudaicae XVII, 236. Sobre João Hircano I, cf. SCHÜRER, E., o. c., pp. 261-279. [6]. PAUL, A., O judaísmo tardio, pp. 191-192. JOSEFO, F., Bellum Iudaicum I, 64-66 descreve o cerco e a queda de Samaria. [7]. Cf. o texto em JOSEFO, F., Antiquitates Iuadaicae XIII, 259-266. [8]. Cf. JOSEFO, F., Antiquitates Iudaicae XIII, 288-298. Cf. também SCHÜRER, E., o. c., pp. 275-278. Na p. 277 diz este autor: "Na sua forma anedótica, a história traz, sem dúvida, as marcas da lenda, e provavelmente Josefo a recebeu apenas de uma tradição oral. Não obstante, pode-se considerar como um dado de fato que Hircano verdadeiramente se distanciou dos fariseus e aboliu as suas prescrições". [9]. SACCHI, P., Storia del mondo giudaico, Torino, Società Editrice Internazionale, 1976, p. 115. [10]. Cf., sobre os fariseus, saduceus e essênios, SCHÜRER, E., The history of the Jewish people in the age of Jesus Christ II, Edinburgh, T & T Clark, 1986, pp. 381-414; 555-590. [11]. PAUL, A., O judaísmo tardio, pp. 193-196. [12]. Cf. HENGEL, M., Ebrei, Greci e Barbari, pp. 134-135. |