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8. Os Selêucidas: a Helenização da Palestina
8.1.O Governo de Antíoco III, o GrandeQuando Antíoco III, o Grande, vence os exércitos dos Ptolomeus, os judeus de Jerusalém o apóiam nesta luta, segundo Flávio Josefo. O partido selêucida em Jerusalém está mais forte do que o ptolomaico. Por isso, Jerusalém é contemplada com um decreto de Antíoco III, em 197 a.C. Diz o decreto: "O rei Antíoco a Ptolomeu[1], saudações. Como os judeus, desde que entramos em seu país, nos testemunharam sua benevolência, como à nossa chegada em sua cidade, eles nos receberam magnificamente e vieram ao nosso encontro com o seu senado, como eles proveram abundantemente à subsistência de nossos soldados e de nossos elefantes e visto que nos ajudaram a expulsar a guarnição egípcia instalada na cidadela, nós, de nosso lado, havemos por bem reconhecer todos esses bons ofícios, reconstruir sua cidade arruinada pelos infortúnios da guerra e repovoá-la, fazendo voltar a ela os que foram dispersos. Em primeiro lugar, decidimos, em razão de sua piedade, fornecer-lhes, para os sacrifícios, uma contribuição em animais de sacrifício, em vinho, óleo e incenso, no valor de 20.000 dracmas de prata, artabes[2] sagradas de farinha de frumento, medidas segundo o costume do país, 1.460 médimos de trigo e 375 médimos[3] de sal. Quero que todas estas contribuições lhes sejam entregues segundo minhas instruções. Que sejam terminados os trabalhos do templo, os pórticos e tudo o que tiver necessidade de ser reconstruído. As madeiras serão tiradas na Judéia mesma e entre os outros povos e no Líbano, sem serem submetidas a nenhuma taxa. O mesmo será feito com todos os outros materiais necessários para se enriquecer a restauração do templo. Todos os membros da nação (éthnos) devem viver segundo as leis de seus pais. O senado, os sacerdotes, os escribas do templo e os cantores do templo serão isentos da capitação, do imposto coronário e da taxa sobre o sal. Para que a cidade seja repovoada mais depressa, concedo àqueles que a habitam atualmente e àqueles que nela se estabelecerem até o mês de hyperberetaios[4], uma isenção de impostos durante três anos. Nós os isentamos ainda, para o futuro, do terço do tributo, a fim de indenizá-los de suas perdas. Quanto aos que foram tirados da cidade e reduzidos à escravidão, nós lhes restituímos a liberdade e ordenamos que lhes sejam restituídos os seus bens"[5]. Examinemos um pouco o decreto. Além da reconstrução e do repovoamento da cidade - que sofrera três assédios consecutivos, em 201, 199 e 198 a.C. - o governo selêucida toma as seguintes medidas:
É interessante observarmos as medidas de Antíoco III sobre os impostos[6]. A madeira para a restauração do Templo está isenta do imposto alfandegário, que incide sobre todas as mercadorias em circulação. O senado e os funcionários do Templo ficam isentos da capitação, imposto pessoal recolhido dos adultos. Ficam isentos também do imposto coronário: a coroa de folhas é, para os gregos, o símbolo da vitória, concedida aos vencedores dos jogos ou a um rei vitorioso[7]. Com o tempo, as cidades começam a oferecer aos seus reis coroas de ouro ou uma soma equivalente em dinheiro. O que antes era espontâneo acaba institucionalizado e tornado obrigatório, podendo somente o rei conceder a isenção. Ainda: o senado e o Templo ficam isentos da taxa sobre o sal. Esta taxa é conhecida na Palestina e na Babilônia. Provavelmente paga-se determinado valor ao governo, ou talvez , na Palestina, que tem boas salinas, se aceite o produto "in natura". Os habitantes da cidade, finalmente, são isentos durante 3 anos do phóros, o tributo, em prata ou em produtos, exigido de uma província, de um templo, de um éthnos ou de uma cidade, este último sendo o caso de Jerusalém. Deve-se observar que, com este decreto, Antíoco III reforça o papel da aristocracia, associada há muito ao poder através da gerousia e que, sob outro aspecto, liga o destino do éthnos (= nação) judeu às decisões reais. Pois as leis dos antepassados (a Torá) devem ser obedecidas não porque assim o decidem os judeus, mas porque o quer o governo selêucida[8]. Apesar de parecerem benevolentes, estas medidas não devem , entretanto, nos enganar, pois não superam as decisões comuns tomadas em relação a outras cidades, naquela época. O que Antíoco III faz é seguir a velha política persa em
relação aos judeus. H. G. Kippenberg observa que "este decreto tem
paralelo no documento de É preciso observar também que a reconstrução e o repovoamento da cidade são medidas necessárias para o fortalecimento do governo e dos interesses de Antíoco III naquela região disputada pelos Ptolomeus. Entretanto, a expansão selêucida sob Antíoco III, o Grande, será impedida por Roma na medida em que seus interesses entram em choque com a forte república na Europa.
Durante o século III a.C. Roma disputa com Cartago a posse da Sicília e o controle do Mediterrâneo ocidental. Cartago é uma colônia fundada pelos fenícios no norte da África (na região da atual Tunísia) talvez no século IX a.C. Os cartagineses constroem importante império comercial, ao mesmo tempo em que Roma se torna líder de uma poderosa confederação italiana. Fatalmente os interesses das duas potências se chocam e o enfrentamento militar torna-se inevitável. Três grandes guerras são feitas entre as duas potências[10]. A primeira guerra dura 23 anos, de 264 a 241 a.C. A segunda guerra acontece de 218 a 202 a.C. com a vitória de Roma sobre o famoso general Aníbal. A terceira guerra, na qual Roma destrói Cartago e anexa seus territórios, se dá entre 149 e 146 a.C. Durante a segunda guerra púnica[11] Aníbal alia-se a Filipe V da Macedônia para abrir outro front para Roma. Então Roma faz uma acordo com a liga etólia12 , oposta à Macedônia em um confronto pelo Épiro. Após vencer Cartago, Roma ataca a Macedônia e vence Filipe V em Cinoscéfalos, em 197 a.C. O cônsul Flamínio proclama a "liberdade dos gregos" em 196 a.C., maneira de barrar a interferência de Filipe V na Grécia. Aliás, este tema da "liberdade dos gregos" é pura manobra política, bandeira desfraldada cada vez que reis e Estados rivais se enfrentam pela posse da região. Durante os jogos Ístmicos, realizados naquele ano, como sempre, em Corinto, o arauto anuncia, segundo Políbio: "'O Senado de Roma e o procônsul Tito Quíntio, após a vitória sobre o rei Filipos e os macedônios, deixam livres os seguintes povos, sem guarnições em suas cidades e sem a imposição de quaisquer tributos e governados pelas próprias leis de suas respectivas pátrias: os coríntios, os foceus, os lócrios, os eubeus, os aqueus ftióticos, os magnésios, os tessálios e os perrébios'. Desde o início haviam começado os aplausos ensurdecedores (...) Cessadas as aclamações ninguém mais demonstrou o menor interesse pelos atletas, e todos os presentes, falando com os seus vizinhos ou consigo mesmos, agiam a bem dizer como homens fora de si, de tal maneira que terminados os jogos a multidão quase matou Flamínio com suas demonstrações de gratidão. De fato, alguns dos presentes, desejosos de vê-lo frente a frente e de chamá-lo de seu salvador, outros, ansiosos por apertar-lhe a mão, e a maior parte lançando coroas e fitas frontais em sua direção, quase o reduziram a pedaços"[13]. Aníbal, após ser derrotado por Roma, refugia-se na corte selêucida e instiga Antíoco III a lutar contra Roma. Após muitas negociações frustradas, Roma enfrenta e vence Antíoco III na batalha de Magnésia, no começo de 189 a.C. O exército romano é comandado por Lucius Cornelius Cipião - depois cognominado "o Asiático" -, ajudado por seu irmão Cipião, o Africano. Antíoco, que tem 72 mil soldados, perde 50 mil homens de infantaria, 3 mil cavaleiros, 15 elefantes e Cipião faz 1400 prisioneiros. Os romanos perdem apenas 400 homens. Em 188 a.C. a paz entre Roma e os Selêucidas é estabelecida em Apaméia da Frígia, quando são impostas humilhantes condições a Antíoco III[14]. O tratado de Apaméia, conservado por Apiano, diz o seguinte: "Antíoco deverá abandonar tudo o que ele possui na Europa e, na Ásia, as províncias aquém do Taurus - as fronteiras serão traçadas em seguida. Ele entregará todos os seus elefantes e todos os navios que indicaremos. No futuro ele não terá mais elefantes e terá somente o número de navios que nós fixaremos. Ele fornecerá vinte reféns, segundo a lista elaborada pelo cônsul. Ele pagará pelas despesas desta guerra, da qual ele é o responsável, 500 talentos eubóicos imediatamente, 2.500 após a ratificação do tratado e 12.000 em doze anos, cada anuidade devendo ser paga a Roma. Ele nos entregará todos os prisioneiros e os desertores e restituirá a Eumênio tudo o que ele ainda retém das possessões adquiridas em virtude do acordo feito com Átalo, pai de Eumênio. Se Antíoco respeitar lealmente estas condições, nós lhe oferecemos paz e amizade sob condição de ratificação do Senado"[15]. M. Rostovtzeff comenta: "A situação geral do mundo helênico não foi afetada por esta guerra. O equilíbrio de poder de que Roma se tornara guardiã continuou a existir, embora de forma peculiar: Roma resolvia todas as disputas internas da Grécia, sem consultar, porém, a opinião grega, nem mesmo em assuntos gregos. Todos os reinos helênicos eram independentes, mas nenhum poderoso. A todos, e especialmente às cidades gregas, Roma garantia 'liberdade', mas no momento em que qualquer um deles mostrava tendências de realizar uma política independente, prontamente o esmagava"[16]. Assim começa o declínio do império selêucida. Daqui para a frente, Antíoco III e seus sucessores debater-se-ão em crescentes lutas internas pelo poder, assistindo à fragmentação progressiva dos seus domínios e lutando com grandes dificuldades financeiras. Só a Roma Antíoco deve pagar 15.000 talentos eubóicos. O talento eubóico, do nome da ilha de Eubéia, pesa cerca de 26 kg. Logo, Antíoco deve pagar a Roma o equivalente a 390.000 kg de prata. O que ocorrerá é que, em relação a cidades como Jerusalém, por exemplo, os sucessores de Antíoco III não terão condições de manter a prometida isenção tributária, premidos que estarão por Roma. O próprio Antíoco III é morto em 187 a.C., pela população revoltada, quando saqueia um templo elamita, para conseguir dinheiro com que pagar aos romanos. F.-M. Abel explica que ele foi "ao templo de Bel, famoso por possuir muito ouro e prata dedicado ao deus, e tendo-o assaltado de noite com suas tropas, não levou em conta a coragem vigilante das populações desta região rude. Ele foi morto, ele e os seus, pelos habitantes que acorreram em defesa do santuário. Este foi o fim pouco glorioso de Antíoco, dito o Grande, após trinta e seis anos de reinado com a idade de cerca de cinqüenta e cinco anos, em 187 a.C."[17]. Seu sucessor, Selêuco IV Filopator (187-175 a.C.), apoiado por judeus dissidentes do sumo sacerdote Onias III, tenta apoderar-se do dinheiro depositado no Templo de Jerusalém. É o conhecido incidente de Heliodoro, narrado em 2Mc 3,4-40. "Ora, certo Simão, da estirpe de Belga, investido no cargo de superintendente do Templo, entrou em desacordo com o sumo sacerdote a respeito da administração dos mercados da cidade. Não conseguindo prevalecer sobre Onias foi ter com Apolônio de Tarso, que naquela ocasião era o estratego da Celessíria e da Fenícia. E referiu-lhe que a câmara do tesouro em Jerusalém estava repleta de riquezas indizíveis, a ponto de ser incalculável a quantidade de dinheiro. E que esse dinheiro não tinha proporção alguma com as despesas dos sacrifícios, sendo portanto possível fazer tudo isso cair sob o domínio do rei. Entrevistando-se então com o rei, Apolônio informou-o acerca das riquezas que lhe haviam sido denunciadas. E o rei, escolhendo a Heliodoro, superintendente dos seus negócios, enviou-o com ordens de proceder à requisição das referidas riquezas" (2Mc 3,4-7). O texto continua dizendo que, ao manifestar suas intenções a Onias III, Heliodoro é informado por ele de que os depósitos, na verdade, pertencem aos órfãos e às viúvas, além do dinheiro do Tobíada Hircano. E que, ao contrário do que lhe fora dito, o total dos depósitos é de 400 talentos de prata (10.500 kg) e de 200 talentos de ouro (5.250 kg). O certo é que Heliodoro não consegue apossar-se do dinheiro do Templo. Segundo 2 Macabeus, o próprio Iahweh o impede através de anjos (2Mc 4,24-34). Esta lenda nos oculta totalmente o que de fato acontece em Jerusalém neste episódio. O desacordo entre o sacerdote Simão e o sumo sacerdote Onias III é a propósito da agoranomia, a supervisão dos mercados. Nas cidades gregas, a agoranomia é uma fiscalização encarregada de verificar os pesos e medidas e a regularidade das transações comerciais. Não sabemos exatamente em que consiste a agoranomia em Jerusalém e nem qual é a razão do conflito entre Simão e Onias. Muitas soluções são propostas[18]: ou Onias discorda da acumulação de cargos feita por Simão, que é supervisor dos mercados e superintendente (prostátes) do Templo[19]; ou porque Simão permite a venda, nos mercados, de produtos proibidos pela Lei; ou porque ele comete abusos na venda de animais destinados aos sacrifícios. Por outro lado, como administrador do santuário, Simão pode ter acusado Onias de entesourar os excedentes das subvenções reais destinadas aos sacrifícios, garantidas pelo decreto de Antíoco III. Heliodoro vai embora, mas as intrigas de Simão continuam. A tal ponto que Onias III é obrigado a ir a Antioquia dar explicações ao rei, segundo 2Mc 4,4-6: "Considerando, então, o perigo dessa rivalidade e como Apolônio, filho de Menesteu, estratego da Celessíria e da Fenícia, ainda fomentava a maldade de Simão, Onias foi ter com o rei. E isto, não para se tornar acusador de seus concidadãos, mas tendo em vista o interesse comum e o individual de toda a população. Pois ele estava percebendo que, sem uma intervenção do rei, não era mais possível alcançar a paz na vida pública, nem Simão haveria de pôr termo à sua demência". É possível que neste conflito entre Simão e Onias III estejamos assistindo ao primeiro embate entre judeus helenistas e judeus ortodoxos. De qualquer modo, Onias III acaba retido em Antioquia, enquanto em Jerusalém os acontecimentos se precipitam. [1]. Este Ptolomeu, a quem se dirige o rei Antíoco, é o estratego e sumo sacerdote selêucida da Celessíria. [2]. Artabe é uma medida egípcia de capacidade, de cerca de 40 litros. [3]. Médimo é uma medida antiga de capacidade, de cerca de 50 litros. [4]. Hyperberetaios é um mês macedônio que corresponde a agosto/setembro. [5]. Cf. JOSEFO, F., Antiquitates Iudaicae XII, 138-144. Uso para este texto a tradução que se encontra em AA.VV., Israel e Judá. Textos do Antigo Oriente Médio, São Paulo, Paulus, 19972, pp. 98-99. [6]. Cf., sobre os impostos selêucidas, SAULNIER, C., Histoire d'Israel III, pp. 456-458; PRÉAUX, C., Le monde hellénistique I, pp. 384-388. [7]. Há quatro grandes jogos pan-helênicos: os Jogos Olímpicos, em Olímpia; os Jogos Ístmicos, em Corinto; os Jogos Píticos, em Delfos e os Jogos Nemeus, no vale de Neméia. [8]. Cf. KIPPENBERG, H. G., Religião e formação de classes na antiga Judéia, pp. 77-81; BICKERMAN, E., The God of Maccabees. Studies on the Meaning and Origin of the Maccabean Revolt, Leiden, Brill, 1979, pp. 32-34. [9]. KIPPENBERG, H. G., o. c., p. 78. [10]. Cf. ROSTOVTZEFF, M., História de Roma, Rio de Janeiro, Zahar, 19774, pp. 56-78; PEIXOTO, P. M., Aníbal, o pai da estratégia, São Paulo, PAUMAPE, 1991; BRADFORD, E., Aníbal, um desafio aos romanos, São Paulo, Ars Poetica, 1993. [11]. As guerras entre Roma e Cartago são chamadas de "púnicas" porque os romanos chamam os cartagineses, em latim, de poeni (= fenícios), donde puni e "guerras púnicas". [12]. Com a decadência da pólis, a formação de confederações de cidades gregas é vista como uma solução. "Instalados na margem setentrional do golfo de Corinto, e obscuros durante muito tempo, os etólios acabam anexando quase toda a Grécia central, inclusive grande parte da Tessália", dizem AYMARD, A./AUBOYER, J., O Oriente e a Grécia Antiga II, Rio de Janeiro, Difel, 19775, p. 199. [13]. POLÍBIO, História XVIII, 46, Brasília, Editora da UnB, 1985, pp. 481-482. [14]. Cf. SAULNIER, C., Histoire d'Israel III, pp. 102-104; PRÉAUX, C., Le monde hellénistique I, pp. 153-163; WILL, E., Histoire politique du monde hellénistique II, Nancy, Presses Universitaires de Nancy, 19822, pp. 210-215;221-224. [15]. APIANO, Syriaka 38-39. Cf. o texto em SAULNIER, C., o. c., pp. 372-373. Apiano é natural de Alexandria e morre aproximadamente em 160 d.C. Trabalha como advogado em Roma e compila narrativas em grego de várias guerras romanas em 24 livros, dos quais temos hoje dez. [16]. ROSTOVTZEFF, M., História de Roma, p. 71. [17]. ABEL, F.-M., Histoire de la Palestine I, p. 104. Cf. também WILL, E., Histoire politique du monde hellénistique II, pp. 238-240. [18]. Cf. SAULNIER, C., Histoire d'Israel III, pp. 107-110; Idem, A revolta dos Macabeus, São Paulo, Paulus, 1987, pp. 19-21; ABEL, F.-M., Histoire de la Palestine I, pp. 105-108. [19]. O prostátes é o encarregado de administrar as finanças do santuário. |