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7.6. A Administração Ptolomaica da PalestinaEste sistema administrativo ptolomaico é também implantado na Palestina, durante os 103 anos de domínio de Alexandria sobre a região. Mas, com algumas modificações, pois a estrutura social da região é diferente da egípcia e a complexidade política é maior. Os Ptolomeus implantam um sistema de arrendamento, a famílias ricas da terra, do direito de cobrar os impostos locais, repassados, por elas, aos senhores estrangeiros. O centro administrativo parece ser Acco, que tem seu nome mudado para Ptolemaida. Politicamente a região da Celessíria é composta das seguintes etnias:
O modo de vida grego se implanta mais rapidamente nas cidades fenícias, mas também as póleis mais significativas do interior, tanto na Judéia quanto na Iduméia, na Samaria como na Galiléia, são inexoravelmente helenizadas. Não há cidades livres, no sentido da Grécia clássica, dentro do reino ptolomaico. Mas há cidades que se aproximam do modelo da pólis grega, com seus magistrados e seu território. Assim são as mais importantes cidades fenícias e palestinas, como Tiro, Sídon, Acco-Ptolemaida, Gaza, Ascalon, Jope e Dor. Ou Marisa, na Iduméia[37]. Os judeus que habitam na Galiléia, na Iduméia e na Transjordânia não têm qualquer estatuto especial, mas o distrito de Judá é considerado como "Estado do Templo", território sagrado, onde valem as leis tradicionais do povo judeu e onde o sumo sacerdote é o chefe principal. Acredita-se, entretanto, que já teria havido, no tempo dos Ptolomeus, um oficial especial que se encarrega, ao lado do sumo sacerdote, da administração das finanças[38]. Outra instituição que se desenvolve provavelmente durante o domínio ptolomaico é a gerousia (= senado), uma assembléia aristocrática composta pelos chefes das famílias mais influentes, pelos sacerdotes e pelos escribas do Templo. Será o conhecido Sinédrio da época de Jesus. Uma de suas funções é a de limitar o poder do sumo sacerdote. De modo geral, convém observar que o desenvolvimento econômico da região da Celessíria faz parte de uma estratégia política bem definida por parte dos Ptolomeus. É a maneira mais eficaz de impedir o avanço de seus rivais Selêucidas sobre a região. E tal política se implanta principalmente através da aliança grega com os aristocratas locais, dos quais já falei a propósito da crise agrária da época de Neemias. É bem ilustrativo da política ptolomaica para a região da Celessíria um decreto de Ptolomeu II Filadelfo, provavelmente de 261/260 a.C.: "Ordem do rei. Os habitantes da Síria e da Fenícia, que compraram um nativo livre (sôma laikòn eleúteron) ou dele se apropriaram com violência, ou o adquiriram de um ou outro modo, devem declará-lo e apresentá-lo ao ecônomo em qualquer hiparquia dentro de vinte dias após a publicação deste decreto". Mais adiante, após declarar que podem ser conservadas as pessoas que já eram escravas antes da compra, valendo o mesmo para as pessoas livres vendidas em leilões reais, continua o decreto: "E no futuro a ninguém será permitido, sob qualquer pretexto, vender ou penhorar nativos livres, exceto aqueles que o governador das rendas do Estado sírio ou fenício entregou ao processo de execução (prosbolé = arremate de propriedade a terceiros), também daqueles sobre os quais já foi pronunciada a pena de execução, como se encontra na lei do arrendamento"[39]. Este decreto, aparentemente filantrópico, na verdade estabelece um monopólio real na venda de homens livres. É uma medida econômica, mas também política, porque a caça ao homem livre cria uma desordem perigosa na região, provocando a indignação e a revolta das populações locais. H. G. Kippenberg observa a propósito: "Pode-se duvidar de que este decreto tenha realmente surtido efeito na Palestina, onde naquela época grassava a escravidão. Ele é digno de nota porque legaliza a escravidão como conseqüência da inadimplência fiscal"[40]. Muito próximo deste decreto é outro conservado na Carta de Aristeas a Filócrates, também emitido por Ptolomeu II Filadelfo, só que, desta vez, a respeito dos judeus: "Ordem do rei. Todos aqueles que tomaram parte na expedição de nosso pai nas regiões da Síria e da Fenícia e, invadindo o território dos judeus tornaram-se senhores de indivíduos judeus, quer os tenham trazido para a cidade [de Alexandria] e para o país [do Egito], quer os tenham vendido a outros - igualmente os que são da mesma raça e que os tenham precedido aqui ou que tenham sido deportados depois deles - que os possuidores os deixem livres e recebam imediatamente em compensação 20 dracmas por cada pessoa, os militares no pagamento de seu soldo, os outros no banco real"[41]. Também os arquivos de Zenão são importantes para a compreensão da administração ptolomaica da Palestina[42]. Trata-se de uma coleção de cerca de 2.000 papiros, encontrados após 1910, perto da antiga Filadélfia, localizada nas vizinhanças do oásis de Fayum, onde o dioceta de Ptolomeu II Filadelfo, o poderoso Apolônio, mantém sua dôréa. Descobertos por escavadores clandestinos, os papiros de Zenão são dispersos pelo mundo afora durante a 1ª Guerra Mundial. Estão em Londres, no Cairo, em New York, na Alemanha, na Itália... Os papiros cobrem um período de 32 anos, entre 261 e 229 a.C., e trazem os arquivos de Zenão, originário de Caunos, cidade da Cária controlada por Ptolomeu II. Zenão vai para o Egito, onde entra para o serviço de Apolônio, no qual permanece 13 anos, de 261 a 248 a.C. A partir deste ano, Zenão deixa Apolônio - do qual não temos mais notícias após 245 a.C. - e se dedica a seus negócios particulares em Filadélfia. O seu último documento datado é de 14 de fevereiro de 229 a.C. A dôréa de Apolônio é liquidada em 243 a.C. Acredita-se que teria sido para proteger-se contra possíveis problemas jurídicos e políticos futuros a respeito de suas posses que Zenão meticulosamente arquiva os papiros referentes aos negócios de Apolônio sob sua responsabilidade e os papiros relativos a seus próprios negócios. Apolônio, ao mesmo tempo que é um poderoso ministro de Estado, encarregado das finanças e da fiscalização de todo o reino, é também um grande proprietário e negociante. Zenão é um de seus homens de confiança - administra, por exemplo, a sua dôréa durante nove anos - e cuida de seus negócios particulares, não sendo, portanto, um funcionário do governo. Mas Apolônio parece não separar bem estas duas esferas de negócios, a pública e a privada, e Zenão está também, por isso, ligado às questões públicas. Zenão vai para a Palestina, em viagem de negócios para seu patrão, no final de 260 a.C. Fica na região até o começo de 258 a.C., isto é, por um período de 13 a 14 meses. Estamos em plena segunda guerra síria (260-253 a.C.), quando Ptolomeu II enfrenta-se com o Selêucida Antíoco II. Como o dioceta Apolônio é também responsável pelos suprimentos do exército ptolomaico, a missão de Zenão, que atinge as fronteiras do reino, não é apenas privada. O seu roteiro na região não é muito fácil de ser reconstituído, mas é possível que ele tenha desembarcado em Gaza e da lá ido a Marisa, na Iduméia. Nesta cidade ele se vê às voltas com a fuga de três escravos que comprara na Iduméia. Interessante é também sua visita aos Tobíadas, na Transjordânia. Para lá chegar, ele passa por Jerusalém e Jericó, segundo um papiro da coleção. Com os Tobíadas, Zenão realiza negócios para Apolônio e para o rei Ptolomeu II, como a compra de uma menina escrava, registrada no seguinte contrato: "No ano vinte e sete do reinado de Ptolomeu, filho de Ptolomeu, e de seu filho Ptolomeu, sendo epônimos o sacerdote de Alexandre e dos deuses irmãos e a canéfora de Arsinoé Filadelfo que estão em função em Alexandria, no mês de Xandikos, na birta de Auranítide, Nicanor, filho de Xanocles, cnidiano, do séqüito de Tobias, vendeu a Zenão, filho de Agreofon, cauniano, do séqüito de Apolônio o dioceta, uma escrava babilônia chamada Sfragis, de sete anos de idade, por cinqüenta dracmas. Foi fiador [...], filho de Ananias, o persa, cleruco de Tobias. Foram testemunhas [...], juiz, Polemon, filho de Straton, macedônio, todos os dois clerucos do corpo de cavaleiros de Tobias, Timopolis, filho de Botes, milésio, Heráclito, filho de Filipe, ateniense, Zenão, filho de Timarcos, colofoniense, Demóstratos, filho de Dionísio, aspendiano, todos os quatro do séqüito de Apolônio o dioceta"[43]. Zenão fiscaliza também a hiparquia da região norte da Celessíria. Uma hiparquia é um distrito territorial governado por um hiparco. Este distrito, assim como os nomos egípcios, divide-se em aldeias (kômê) chefiadas por um comarca. C. Orrieux observa a propósito da visita de Zenão à fronteira com os Selêucidas: "Pode-se imaginá-lo como um enviado especial de Apolônio, fazendo o leva-e-traz entre Alexandria e a Síria-Fenícia a fim de informar seu patrão diretamente sobre os problemas financeiros colocados pela proximidade das operações militares. Sem ser funcionário ele tem a função de conduzir delicadas negociações oficiosas"[44]. Zenão visita igualmente a Galiléia e fiscaliza propriedades de Apolônio nesta região. Apolônio é o proprietário da aldeia de Beth-Anath da Galiléia. O seu administrador consegue aumentar extraordinariamente a cultura da vinha, mas os camponeses estão em desacordo com ele quanto à quantidade de trigo, uva, vinho e figo que lhe devem fornecer, como documenta um dos papiros de Zenão[45]. No ano seguinte, entretanto, o administrador consegue sucesso, como testemunha a seguinte carta enviada a Apolônio: "Glaukias a Apolônio, saudações (...) Ao chegar a Baitanata, eu tomei comigo Melas e nós examinamos as novas plantações e todos os outros empreendimentos. Considero satisfatório a situação dos trabalhos. Ele me disse que a vinha tem 80 mil pés. Ele construiu uma cisterna e uma casa adequada. Ele me fez provar o vinho e eu não pude adivinhar se ele vem de Quios ou da propriedade. Tu podes acreditar que um acaso feliz te favorece de todas as maneiras. Passe bem! Ano 23, Xandikos 7"[46]. Estas notícias sobre a viagem de Zenão estão em cerca de 40 daqueles quase 2.000 papiros do arquivo recuperado próximo a Fayum. O que resulta da leitura destes papiros é a impressão de intensa atividade política e econômica dos Ptolomeus na região da Palestina. Estes administram os territórios conquistados "com a mesma desenvoltura com que um agricultor macedônio administra suas próprias terras"[47]. Outro dado interessante para se conhecer a administração ptolomaica da Palestina é a história de José, o Tobíada e de seu filho Hircano, transmitida por Flávio Josefo[48]. Os Tobíadas vivem numa espécie de feudo na Transjordânia, ao sul do Galaad. O centro do território é a birta (= fortaleza) de Amon, identificada pelos arqueólogos com o `Arak el Emir atual. Tobias, descendente do Tobias da época de Neemias (Ne 13,4), dirige uma cleruquia lágida na Transjordânia. Quando Zenão visita a Palestina em 259 a.C. ele comanda o clã. Diz A. Paul: "Comandante de uma klerouchia militar (cujo centro era a birta ou `fortaleza' de família, construída inicialmente para resistir às invasões dos beduínos do deserto), Tobias era o chefe de uma importante tribo local, tendo ainda as funções de um prefeito do rei do Egito, a serviço do qual punha seus soldados, suas relações e suas influências"[49]. Duas cartas de Tobias, pertencentes aos papiros de Zenão, ilustram suas relações com os Ptolomeus. A primeira é dirigida a Ptolomeu II, a segunda a Apolônio. "Ao rei Ptolomeu, Tobias deseja bom dia! Eu te enviei dois cavalos, seis cães, um meio-onagro, cruzamento de jumenta, dois jumentos árabes brancos de tração, dois filhotes de meio-onagro e um filhote de onagro. Felicidades! Ano 29, Xandikos 10 [= 13 de maio de 257]". "Tobias a Apolônio, saudações! Se tu vais bem e se teus negócios e o restante estão como tu desejas, graças aos deuses! Eu estou bem, lembrando-me de ti sem cessar, como é o certo. Eu te enviei Aineas para te oferecer um eunuco e quatro rapazes, escravos [...] de excelente estirpe. Eu reproduzo, a seguir, para teu uso, as características destes rapazes. Passe bem! Ano 29, Xandikos 10 [13 de maio de 257]". A seguir vem as características dos escravos...[50]. José, o filho de Tobias, sobrinho do sumo sacerdote Onias II por parte de mãe, nasce na Judéia em uma aldeia da família. Quando acontece a terceira guerra síria ( 246-241 a.C.), Onias II, partidário dos Selêucidas, se recusa a pagar os impostos devidos aos Ptolomeus, que é de 20 talentos. O rei Lágida, Ptolomeu III Evergetes, ameaça então reduzir a Judéia a uma colônia militar. José, pró-Lágida, após ser designado pelo povo como chefe (prostátes), vai representar os interesses da Judéia diante do rei Ptolomeu em 242 a.C., obtendo muito mais até: consegue o direito de recolher os impostos de toda a Celessíria[51]. Com o auxílio de 2 mil soldados ele exige duramente os impostos das cidades e dos campos, enriquecendo-se com isso consideravelmente. Com créditos samaritanos ele financia antecipadamente o arrendamento e "em lugar de 8.000 talentos para a província sírio-fenícia, José ofereceu o dobro. Dotado de plenos poderes estatais para aplicar a força, José recolheu o tributo das cidades e mandou executar os parentes dos magistrados que relutaram. As cidades provavelmente só puderam pagar as novas cargas fiscais impondo aos camponeses doação parcial em mantimentos, baseando-se no fato de que a terra era propriedade do dominador"[52]. Flávio Josefo diz que ele leva os judeus à prosperidade. Como? Diminui o número de bocas para comer, através da escravidão - que ainda rende mais excedentes - e estimula culturas mais rentáveis, por exemplo, olivais em vez de cereais. Ao morrer em 226 a.C., seu filho Hircano o sucede no cargo, até o advento dos Selêucidas na região, tendo se suicidado quanto Antíoco IV assume o governo[53]. Vejamos um trecho do relato de Flávio Josefo sobre José, o Tobíada, através do qual poderemos apreciar os seus métodos: "José tomou, depois, dois mil homens das tropas do rei, a fim de poder obrigar os que se recusavam a pagar os tributos e, depois de ter dado a Alexandria quinhentos talentos, foi para a Síria. Os habitantes de Ascalon foram os primeiros a desprezar suas ordens. Não se contentaram em não querer pagar, mas o ultrajaram com palavras; mas ele soube castigá-los. Mandou prender imediatamente vinte dos principais, que mandou matar; escreveu ao rei para lhe dar contas do que tinha feito e mandou-lhe mil talentos do confisco de seus bens. O príncipe ficou tão satisfeito com seu proceder, que o elogiou magnificamente e permitiu que, dali por diante, usasse deles como quisesse. O castigo dos ascalonitas encheu de temor as outras cidades da Síria, que lhe abriram suas portas e pagaram seu tributo sem dificuldade alguma"[54].
Leituras Recomendadas
[37]. Cf. ABEL, F.-M., Histoire de la Palestine I, pp. 51-60. [38]. Cf. HENGEL, M., Judaism and Hellenism I, pp. 24-29. [39]. Cf. KIPPENBERG, H. G., Religião e formação de classes na antiga Judéia, pp. 73-74; SAULNIER, C., Histoire d'Israel III, p. 364. [40]. KIPPENBERG, H. G., o. c., p. 74. [41]. CARTA DE ARISTEAS A FILÓCRATES, 22, em DIEZ MACHO, A., Apócrifos del Antiguo Testamento II, pp. 22-23. Cf. ABEL, F.-M., o. c., pp. 62-63. PRÉAUX, C., Le monde hellénistique II, p. 568 acredita na autenticidade deste documento, pelo menos nos seus termos mais gerais. [42]. Cf. ORRIEUX, C., Les papyrus de Zenon; ABEL, F.-M., o. c., pp. 65-71; SAULNIER, C., Histoire d'Israel III, pp. 450-451. [43]. Cf. ORRIEUX, C., Les papyrus de Zenon, p. 42-43. O contrato é redigido em abril/maio de 259 a.C. O documento segue as regras mais estritas para este tipo de escrito: ano de reinado, corregência, sacerdotes epônimos dos cultos dinásticos, fiador, testemunhas etc. [44]. ORRIEUX, C., o. c., p. 42. [45]. Cf. KIPPENBERG, H. G., o. c., pp. 74-75. [46]. Cf. ORRIEUX, C., o. c., p. 47. Esta carta está datada em 9 de maio de 257 a.C. [47]. HENGEL, M., Ebrei, Greci e Barbari. Aspetti dell'ellenizzazione del giudaismo in epoca precristiana, Brescia, Paideia, 1981, p. 48. [48]. Cf. JOSEFO, F., Antiquitates Iudaicae, XII, 158-236. [49]. PAUL, A., O judaísmo tardio, p. 178. [50]. Cf. ORRIEUX, C., o. c., pp. 43-44. [51]. Com o título de prostátes, "ao qual estava ligado o principal cargo administrativo e financeiro da Judéia, efetuou-se, de fato, uma transferência de poderes do sumo sacerdote pró-selêucida para o Tobíada pró-lágida. Com isso, José se tornou o mais alto funcionário civil de Jerusalém", diz PAUL, A., o. c., p. 179. [52]. KIPPENBERG, H. G., Religião e formação de classes na antiga Judéia, p. 76. [53]. Cf., sobre José e os Tobíadas, SAULNIER, C., Histoire d'Israel III, pp. 451-454; PRÉAUX, C., Le monde hellénistique II, pp. 571-572. [54]. JOSEFO, F., Antiquitates Iudaicae XII, 181. | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||