História de Israel - History of Israel

 

Próxima

 

4.3. A Assíria Vem Aí: Para Israel é o Fim

Com a morte de Jeroboão II desabou tudo o que ainda restava em Israel, apesar de tudo. De 753 a 722 a.C. seis reis se sucederam no trono de Samaria, abalado por assassinatos e golpes sangrentos. Houve 4 golpes de Estado (golpistas: Salum, Menahem, Pecah e Oseias) e 4 assassinatos (assassinados: Zacarias, Salum, Pecahia e Pecah):

O profeta Oseias lamenta o golpismo da época:

"No dia de nosso rei,

os príncipes ficaram doentes pelo calor do vinho,

e ele estendeu a sua mão aos petulantes quando se aproximaram.

Seu coração é como um forno em suas insídias,

a noite inteira dorme a sua ira,

pela manhã ela arde como uma fogueira.

Todos eles estão quentes como um forno,

devoram seus juízes.

Todos os seus reis caíram.

Não há entre eles quem me invoque" (Os 7,5-7).

A grande ameaça internacional era a Assíria. Em 745 a.C. subiu ao trono assírio um hábil rei: Tiglat-Pileser III.

Ele começou por resolver os problemas com os babilônios no sul da Mesopotâmia, dominando-os. Depois, tomou Urartu, ao norte. Pacificou os medos no norte do Irã. Em seguida, pôde ocupar-se com o oeste: começou pela Síria, contra a qual efetuou várias campanhas a partir de 743 a.C.

Por que a Assíria ambicionava a região? Por causa:

Em 738 a.C. Tiglat-Pileser III já submetera grande parte da Síria e da Fenícia. Israel começou a pagar-lhe tributo possivelmente já sob o governo de Menahem. Foi um imposto per capita que atingiu cerca de 60 mil proprietários de terras. Mas grupos patrióticos assassinaram em Israel o rei submisso à Assíria. E o oficial que subiu ao poder imediatamente tornou-se chefe de uma coalizão anti-assíria que congregava a Síria, os filisteus e outros.

Pecah, este era seu nome, queria que Judá se aliasse a ele. Judá, sabiamente não quis. Então, o rei de Damasco e o rei de Israel invadiram Judá pelo norte e cercaram Jerusalém. Isto foi no ano de 734 a.C. e é a chamada guerra siro-efraimita. Em Judá reinava Acaz.

Os edomitas, que dependiam de Judá, aproveitaram a ocasião e declararam sua independência. Derrotaram as tropas de Judá em Elat e destruíram a cidade.

Os filisteus, também dominados por Judá, igualmente não perderam tempo. Invadiram o Negueb e a planície da Shefelah, conquistando algumas cidades de Judá.

Deste modo, Judá foi invadido por três lados e não tinha como resistir. A saída foi pedir o auxílio da Assíria. Isaías foi contra este passo e avisou Acaz de que suas consequências seriam terríveis.

Is 7,3-6

Então disse Iahweh a Isaías: Vai ao encontro de Acaz, tu juntamente com o teu filho Sear-Iasub [= um resto voltará]. Encontrá-lo-ás no fim do canal da piscina superior, na estrada do campo do pisoeiro. Tu lhe dirás: Toma as tuas precauções, mas conserva a calma e não tenhas medo nem vacile o teu coração diante dessas duas achas de lenha fumegantes, isto é, por causa da cólera de Rason, de Aram, e do filho de Romelias, pois que Aram, Efraim e o filho de Romelias tramaram o mal contra ti, dizendo: 'Subamos contra Judá e provoquemos a cisão e a divisão em seu seio em nosso benefício e estabeleçamos como rei sobre ele o filho de Tabeel'.

Tiglat-Pileser III destruiu rapidamente as forças aliadas. Começou pela costa e avançou sobre os filisteus desbaratando-os completamente. Estabeleceu uma base no extremo sul, cortando qualquer possível ajuda egípcia. Virou-se, em seguida, contra Israel e saqueou toda a Galileia e a Transjordânia. Deportou uma parte do povo e destruiu numerosas cidades.

Neste ínterim, Pecah de Israel foi assassinado e seu sucessor, Oseias (não se confunda o rei Oseias com o profeta homônimo), submeteu-se imediatamente à Assíria e pagou-lhe tributo.

A destruição foi paralisada. Faltava só Damasco. Tiglat-Pileser III conquistou-a, executou o rei e deportou a população, em 732 a.C.

Depois da tempestade, o que se viu foi o seguinte: a Síria não existia mais, passara a província assíria. De Israel pouco restara: toda a costa, a Galileia e o Galaad passaram para a Assíria.

Entretanto, ainda não era tudo. O rei Oseias só se submetera à Assíria porque não tinha outra saída. Quando Tiglat-Pileser III foi sucedido por Salmanasar V, Oseias pensou ser o momento bom para a revolta. Começou a negar o tributo à Assíria e a ligar-se ao Egito.

Foi um suicídio. O Egito estava todo dividido e muito fraco. Não veio ajuda nenhuma. Salmanasar V atacou, prendeu o rei, ocupou o país e cercou Samaria em 724 a.C.

"Salmanasar, rei da Assíria, marchou contra Oseias e este submeteu-se a ele, pagando-lhe tributo. Mas o rei da Assíria descobriu que Oseias o traía: é que este havia mandado mensageiros a Sô, rei do Egito, e não tinha pago o tributo ao rei da Assíria, como o fazia todo ano. Então o rei da Assíria mandou encarcerá-lo e prendê-lo com grilhões. Depois, o rei da Assíria invadiu toda a terra e pôs cerco a Samaria durante três anos. No nono ano de Oseias, o rei da Assíria tomou Samaria e deportou Israel para a Assíria, estabelecendo-o em Hala e às margens do Habor, rio de Gozã, e nas cidades dos medos" (2Rs 17,3-6).

Samaria caiu em 722 a.C. e o filho de Salmanasar V, Sargão II foi quem se encarregou da deportação e substituição da população israelita por outros povos que foram ali instalados.

Segundo os anais de Sargão II, o número de deportados samaritanos foi de 27.290 pessoas. Com a instalação, no território, de outros povos e outros costumes chegou para Israel do norte o fim definitivo.


Entretanto, para Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman, este esquema bíblico, de uma monarquia unida, que se desintegra após a morte de Salomão, sempre foi aceito por arqueólogos e historiadores, mas está errado. Não há evidências de uma monarquia unida governada por Jerusalém, mas há boas razões para se acreditar que sempre houve duas diferentes entidades políticas na região montanhosa de Canaã, garantem os autores, no livro A Bíblia não tinha razão, p. 205-233.

A pesquisa arqueológica nos anos 80 retrata uma situação bem diferente do relato bíblico. Em cada uma das ondas de ocupação das montanhas (Idade Antiga do Bronze: 3500-2200; Idade Média do Bronze: 2000-1550 a. C.) sempre aparecem duas sociedades distintas, norte e sul, assim como no Ferro I (1150-900 a. C.) existe a distinção entre Israel e Judá. A região norte sempre aparece mais povoada, com uma complexa hierarquia de grandes, médios e pequenos sítios arqueológicos e sempre mais fortemente ligada à agricultura. A região sul sempre aparece como mais escassamente povoada, com pequenos sítios arqueológicos e uma população de grupos nômades mais significativa.

No Bronze Antigo dois únicos centros se destacam em Canaã: no sul, Khirbet et-Tell (Ai) e no norte Tell el-Farah (Tirsá). No Bronze Médio, dois centros se destacam no sul, Jerusalém e Hebron, e um centro no norte, Siquém. Além destas pistas arqueológicas, os Textos de Execra-ção egípcios mencionam, para este período, apenas dois centros nas montanhas de Canaã: Siquém e Jerusalém.

Uma inscrição egípcia do século XIX a. C., falando das ações de um general egípcio chamado Khu-Sebek na região montanhosa de Canaã, menciona a 'terra', e não a cidade, de Siquém em paralelo com Retenu (um dos nomes egípcios para Canaã). No Bronze Recente, as Cartas de Tell el-Amarna, do século XIV AEC, indicam duas cidades líderes na região das montanhas: Siquém e Jerusalém.

Assim, Siquém e Jerusalém, Israel e Judá, parecem ter sido sempre dois territórios distintos e rivais, concluem os autores.

Norte e sul possuem, de fato, dois ecossistemas bem diferentes sob qualquer aspecto: topografia, formação rochosa, clima, vegetação e potencial econômico. O sul é mais isolado por barreiras topográficas, enquanto que o norte possui vales férteis com maior potencial econômico. O maior desenvolvimento do norte pode ter proporcionado o surgimento de instituições econômicas mais complexas, levando ao surgimento de instituições políticas mais sofisticadas, nascendo daí um 'Estado'.

A evolução das colinas de Canaã em duas distintas entidades políticas foi um desenvolvimento natural. Não há evidência arqueológica em lugar algum de que esta situação de norte e sul tenha surgido de uma anterior unidade política - muito menos de uma localizada no sul, dizem os autores. 

Judá, nos séculos X e IX a. C., era pastoril e pouco significativo. Jerusalém era um pequeno povoado na época de Salomão e Roboão, enquanto que o norte já era mais populoso e desenvolvido. Israel (do norte) já era um Estado no século IX a. C., enquanto que a sociedade e economia de Judá pouco tinham mudado desde suas origens nas montanhas.

Sem dúvida, Israel e Judá da Idade do Ferro tinham muito em comum: ambos cultuavam Iahweh (além de outros deuses) e seus povos partilhavam muitas estórias sobre um passado comum. Falavam línguas semelhantes, ou dialetos do hebraico, e, por volta do século VIII a. C., partilhavam da mesma escrita. Mas experimentaram diferentes histórias e desenvolveram culturas distintas, sendo Israel mais desenvolvido do que Judá.

O norte pode ter se desenvolvido mais do que o sul, mas não era tão próspero e urbanizado como as cidades-estado cananeias das planícies e da região costeira. Foi a derrocada destas cidades na Idade Antiga do Bronze - quer tenha sido causada pelos Povos do Mar, ou por rivalidades entre elas ou, ainda, por desordens sociais - que possibilitou a sua independência.

Mas no século XI a. C. houve nova onde de prosperidade nas regiões das planícies: filisteus na costa sul e fenícios na norte. Meguido é um bom exemplo deste processo. Entretanto, este renascimento durou pouco: o faraó Shishaq (ou Sheshonq, nas inscrições egípcias), fundador da Décima Segunda Dinastia, fez agressivo ataque, no final do século X a. C., à região: Meguido, Taanach, Rehov e Bet-Shean, no vale de Jezreel, foram alvos das forças egípcias. Embora os motivos e detalhes desta destruição sejam problemas não respondidos até hoje... Mas isto tem importantes implicações: abriu caminho para a ocupação israelita do Vale de Jezreel...

Entretanto: por que a Bíblia narra tudo diferente, surgindo Israel (do norte) de uma ruptura com Judá? A resposta está em quatro profecias ligadas pela narrativa bíblica à queda da monarquia unida: Salomão como responsável pela quebra da unidade (1Rs 11,4-13); Jeroboão como 'herdeiro do norte, segundo o profeta Aías de Silo (1Rs 11,31-39); Jeroboão recebendo, em Betel, a profecia de "um homem de Deus" sobre Josias que destruirá o altar de Betel (1Rs 13,1-2); Aías de Silo falando à esposa de Jeroboão do extermínio de sua dinastia e do exílio de Israel (1Rs 14,7-16). Observo que o argumento de Finkelstein e Silberman pareceu-me aqui meio "circular" e pouco convincente...

Contudo, segundo eles, a inevitabilidade da queda de Israel e o triunfo de Josias tornou-se um tema central para o redator deuteronomista no século VII a. C. Betel, a ameaça ao santuário de Jerusalém, cai sob Josias...

O historiador deuteronomista transmite ao leitor a seguinte mensagem, segundo os autores: de um lado ele descreve Judá e Israel como Estados irmãos; de outro lado, ele mostra forte antagonismo entre eles. Era ambição de Josias expandir-se para o norte e tomar posse dos territórios montanhosos que outrora pertenceram ao reino do norte. Assim, a Bíblia legitima esta ambição, explicando que o reino do norte se estabelecera sobre os territórios da mítica monarquia unida, que fora governada a partir de Jerusalém; que havia um reino israelita irmão; que sua população era composta de israelitas que haviam prestado culto em Jerusalém; que os israelitas ainda vivendo nestes territórios deveriam voltar seus olhos para Jerusalém; e que Josias, o herdeiro do trono davídico e da promessa eterna feita a Davi, era o único legítimo herdeiro dos territórios do vencido Israel. Por outro lado, os autores da Bíblia precisavam deslegitimar o culto do norte - especialmente o santuário de Betel - e mostrar que as típicas tradições religiosas do reino do norte eram todas más, que elas deveriam ser eliminadas e substituídas pelo culto centralizado no Templo de Jerusalém (cf. p. 231-232).

Ao falar de Omri, Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman, no livro A Bíblia não tinha razão, p. 234-268, começam lembrando que, segundo o texto bíblico, os omríadas foram os piores: o casal Acab e Jezabel é acusado de idolatria, assassinatos brutais, confisco de terras de herança, tudo na mais perfeita impunidade. 

Mas, lembram Finkelstein e Silberman, a arqueologia hoje aponta noutra direção, mostrando que Acab foi um poderoso rei, seu casamento com Jezabel, filha do rei fenício Etbaal, foi uma grande vitória diplomática para Israel, suas construções foram magníficas, seu poder militar e suas conquistas territoriais foram brilhantes.

Em seguida, após repassarem a descrição bíblica dos governos do reino de Israel de Nadab a Jorão, ou seja, do segundo ao nono rei, os autores passam a mostrar as inconsistências e anacronismos da Obra Histórica Deuteronomista. Isto porque a narrativa bíblica, segundo eles, está por demais influenciada pela teologia dos escritores do século VII a.C. Estaríamos, nesta perspectiva, muito mais diante de uma novela histórica do que de posse de uma acurada crônica histórica.

Entretanto, os testemunhos extrabíblicos nos permitem ver os omríadas sob diferente perspectiva, exercendo forte papel aí a Estela de Mesha, a Inscrição de Tel Dan e os testemunhos assírios, como a Inscrição de Salmanasar III, que cita os dois mil carros de combate de Acab - número impressionante! - usados como parte de uma coalizão da Síria, Israel e Fenícia contra as suas investidas na região.

Além disso, as escavações de Samaria, Meguido, Hasor e Dan mostram os omríadas como grandes administradores e construtores arrojados. 

Para os autores, o que até então era atribuído a Salomão pode tranquilamente ser considerado como omríada. E eles mostram características comuns nas cidades de Samaria, Jezreel, Hasor, Meguido e Gezer, para eles, todas resultantes de atividades da dinastia de Omri. Como consequência, Salomão e Jerusalém ficam bastante diminuídos.

O poder dos omríadas impressiona também por sua presença na Transjordânia, e bem ao sul, no território de Moab, em Ataroth (= Khirbet Atarus) e em Jahaz (talvez Khirbet el-Mudayna, sítio que está sendo escavado por Michèle Daviau, da Wilfrid Laurier University, Canadá). 

Neste ponto, Finkelstein e Silberman se perguntam: de onde vinham os recursos para estas realizações? 

Eles acreditam que possam haver vários elementos em jogo. Como a destruição dos centros cananeus pelo faraó Shishaq no final do século X a. C., que teria aberto o caminho para que Omri tomasse posse dos territórios de Meguido, Hasor e Gezer. 

Mas especialmente a diversidade de populações no território - cananeus, israelitas, arameus e fenícios - seria um elemento importante, porque integrava vários ecossistemas e mecanismos econômicos que só fortaleciam o país. As duas capitais seriam representativas desta diversidade: Samaria seria mais israelita, enquanto Jezreel seria mais cananeia. A estimativa demográfica para o século nono é difícil, mas no século VIII a. C., segundo eles, seria de 350 mil habitantes em Israel, fazendo deste território o mais densamente povoado do Levante. Seu único rival possível seria o reino de Damasco. 

Este era um Estado "israelita"? Dificilmente... a identidade israelita atribuída ao território do norte parece ser muito mais a obra de escritores de uma monarquia judaíta mais recente! 

E uma última pergunta: por que, então, o Deuteronomista, séculos mais tarde, faz de tudo para deslegitimar os omríadas? Exatamente porque Omri, o primeiro rei verdadeiro do reino de Israel, ofuscou o pobre, marginalizado e rural território de Judá...

Quando tratam do domínio assírio sobre Israel, nas p. 269-307, Finkelstein e Silberman começam mostrando como a interpretação bíblica do trágico destino do reino de Israel, destruído pela Assíria, é muito mais teológica do que histórica: segundo o Deuteronomista, a devastação de Israel pelos exércitos estrangeiros fazia parte de um preciso plano divino, que puniu o povo e seus líderes por sua recusa do culto a Iahweh no Templo de Jerusalém e por sua adesão a outros deuses. Veja-se, por exemplo: Jeú: 2Rs 10,28-33; Joás: 2Rs 13,22-25; Jeroboão II: 2Rs 14,23-27; o motivo do fim do reino do norte: 2Rs 17,7-41. Mas a arqueologia apresenta uma perspectiva diferente: Israel foi invadido pelos assírios por ter sido um reino bem sucedido que, vivendo à sombra do grande império, suscitou sua cobiça.

Após mostrar os equívocos da arqueologia tradicional na pesquisa do reino de Israel, os autores colocam lado a lado os dados do Deuteronomista e da inscrição de Tel Dan, alertando o leitor para a tremenda importância de Aram no declínio de Israel, embora seja complicado decidir se foi Jeú, o general israelita (como diz o Dtr), ou Hazael, o rei arameu (como diz a inscrição de Tel Dan), o responsável pela queda dos omríadas. De qualquer maneira, detalham como Israel teve seu território destruído e parcialmente ocupado por Aram - leia-se por Hazael - por um período significativo.

Entretanto, a chegada ao poder do assírio Adad-nirari III decretou o fim da hegemonia de Damasco na região e fez com que o fiel vassalo assírio que era Israel começasse a se expandir sob Joás e Jeroboão II. Testemunhos arqueológicos desse crescimento, durante o governo de Jeroboão II, no século VIII AEC, segundo os autores, não faltam. 

Citam como exemplo os óstraca de Samaria que testemunham a grande produção e exportação de óleo de oliva e de vinho para a Assíria e Egito, o aumento da população que pode ter chegado a 350 mil habitantes - enquanto Judá teria cerca de 100 mil - as construções em Meguido, Hasor e Gezer, a criação de cavalos treinados para a guerra e exportados para a Assíria - possível interpretação para a origem dos controvertidos "estábulos" encontrados em Meguido - a riqueza de Samaria e, até mesmo, os desmandos da elite governante e dos comerciantes denunciados pelos profetas Amós e Oseias.

Só que este crescimento gerou rivalidade entre facções israelitas que, após a morte de Jeroboão, entraram em confronto, fazendo com que os golpes de Estado se sucedessem em ritmo frenético nos últimos 30 anos de Israel. Confronto este que se agravou com a ascensão ao trono do poderoso e ambicioso rei assírio Tiglat-Pileser III que acabará invadindo, destruindo e incorporando Aram e quase todo o Israel. Pouco mais tarde, Israel encontrou seu fim definitivo nas mãos dos assírios Salmanasar V e Sargão II. 

Tiglat-Pileser III

Resumo de GARELLI, P.; NIKIPROWETZKY, V. O Oriente Próximo Asiático. Impérios Mesopotâmicos - Israel. São Paulo: Pioneira-Edusp, 1982, p. 87-96.

A Assíria parecia inerte, até que, em 746 a.C., estourou uma rebelião em Kalhu, conduzindo ao trono Tiglat-Pileser III.  O golpe de Estado, de fato, assinala o termo da crise aberta, em 827, pela guerra civil. Ela acusara o triunfo da alta nobreza, em detrimento da autoridade real, cujo declínio quase arrastava à ruína todo o país. Verdade que não se dera nenhum revés de importância, sem dúvida graças à energia do turtanu Shamshi-Ilu, mas era nítida a perda de influência. Tiglat-Pileser III teria que enfrentar a perigosa situação que se desenvolvia nas fronteiras do reino.

A revolta que estourou em Kalhu, em 746 a.C., poderia parecer um simples episódio de uma época fértil em tentativas similares, mas, na realidade, levou ao trono aquele que iria tornar-se um dos maiores reis da Assíria, o verdadeiro fundador de seu império. Ignora-se a participação que teve na trama ou em sua repressão, tal como se ignora a filiação do novo soberano: enquanto em uma inscrição faz-se passar como filho de Adad-Nirari III, o que é pouco provável, por razões cronológicas, uma das listas reais apresenta-o como um dos filhos de Assur-Nirari V. Chegou-se a pensar que fosse um usurpador, cujo verdadeiro nome seria Pulu, pois assim o designam fontes babilônicas e bíblicas. Nada mais incerto; pode muito bem ter sido de linhagem real. Espírito metódico e audacioso, dele se fez o tipo de "rei reformador". Sem dúvida o foi, em política internacional. Atribui-se-lhe demasiado no plano interno; mas só se atribui aos ricos, e a personalidade do soberano era visivelmente rica. Os vizinhos da Assíria logo se aperceberiam disso, o que prova que a aparente paralisia do país refletia sobretudo uma crise do poder central.

Desde sua ascensão, Tiglat-Pileser III empreendeu uma série de operações militares contra a Babilônia e Namri, o que pode surpreender, visto que seu principal adversário, o rei de Urartu, acabara de obter a adesão dos países sírios. Imaginou-se, pois, que antes de ajustar contas com Sardur, rei de Urartu, e seus aliados, Tiglat-Pileser precisava garantir sua retaguarda e as grandes vias de comunicação com o Irã e o Golfo Pérsico. É possível, mas o fato também pode indicar que o perigo urártio não era tão premente quanto se tenderia a acreditar. A verdade é que, em 745 a.C., os exércitos assírios ganharam a rota do Sul.

Na Babilônia, a agitação permanecia endêmica. Os reis caldeus, desde muito tempo, esforçavam-se por firmar sua autoridade, porém conseguiram-no de forma bem imperfeita. A expedição levada a cabo por Tiglat-Pileser III em 745 a.C. é bastante curiosa, por outro lado. Em parte alguma as tropas assírias bateram-se com as forças de Nabonassar (Nabu-Nasir), que dois anos antes subira ao trono da Babilônia. Pode-se indagar, inclusive, se a intervenção assíria não se devera ao apelo de Nabonassar, ou, pelo menos , não tivera lugar com seu assentimento. Seria, em suma, uma repetição da que Salmanasar III levara a efeito havia um século. O adversário, aliás, em grande parte era o mesmo: as tribos aramaicas e caldeias. Encurraladas de Dur-kurigalzu e Sippar até o Golfo Pérsico, ao longo do tigre e do Kerkha (Uknu), bem como em redor de Nippur, na Babilônia central, tiveram de submeter-se. Milhares de deportados tomaram a rota da Assíria e foram estabelecidos em novas cidades, como Kar-Assur.

As conquistas de Tiglat-Pileser III são mal documentadas, mas sabe-se que de 743 a 738 a.C. ele desbaratou a coalizão siro-urártia e se impôs aos dinastas aramaicos. Em seguida, durante três anos, precisou transferir sua atenção para os medos e Urartu, antes de efetuar a conquista de Damasco e da Palestina, de 734 a 732 a.C. A revolta de Mukin-Zeri forçou-o, então, a dirigir-se novamente à Babilônia, oficialmente incorporada ao império em 729 a.C.

No decorrer desse vaivém contínuo, ao que tudo indica, houve raros confrontos de envergadura. Tudo decidira-se em 743 a.C., por ocasião de uma vitória decisiva sobre Sardur, em Comagena, que provocou a dissolução da coligação aramaica. Sua derrota incitou os países vizinhos, em particular Damasco, Tiro, Que (Cilícia) e Carquemish, a prestar submissão. Em 740 a.C., Tiglat-Pileser iria receber seus tributos em Arpade.

Os dinastas aramaicos manifestariam, mais uma vez, sua indestrutível coragem: as revoltas sucederam-se com grande obstinação, encerrando-se em 738 a.C. com a submissão de dezoito príncipes espalhados nos territórios compreendidos entre Tabal e Samaria. Essa demonstração não bastou para desencorajar todos os vencidos. Pecah, de Israel, e Razon, de Damasco, esperavam uma virada da situação. Para tanto, seria necessário um acordo, ou, no mínimo, a neutralidade do rei de Judá, Acaz, que não parecia muito entusiasmado pela aventura. Os conjurados tentaram então, de conluio com os edomitas, eliminar seu importuno vizinho, e o infeliz Acaz, apesar das advertências de Isaías (capítulos 7 e 8), viu-se obrigado a apelar para o auxílio do rei da Assíria, o qual agiu prontamente: descendo pela costa, atingiu Gaza e o Wadi El Arish, o Rio do Egito, impedindo qualquer possibilidade de socorro egípcio; a seguir, voltou-se contra Israel, cujo território saqueou. Ante o desastre, Pecah foi assassinado por um certo Oseias ben Elá, que se apressou a pagar tributo. Razon conseguiria resistir por três anos, antes de sucumbir por seu turno em 732 a.C.

Um elemento relevante, qual seja a política de ocupação permanente inaugurada por Tiglat-Pileser III, explica, em parte, a aparente facilidade das vitórias assírias. Até então, os soberanos da Assíria, mesmo os mais audaciosos, como Salmanasar III, concebiam suas operações ofensivas como expedições destinadas a aniquilar o poderio material de seus vizinhos e recolher despojos. Os vencidos tornavam-se tributários, mas, como conservam a independência, aproveitam-se imediatamente da menor dificuldade experimentada pelo poder assírio. Havia, assim, que recomeçar tudo. O primeiro a renunciar a tal concepção foi Tiglat-Pileser III, com quem a guerra converteu-se em guerra de conquista: o território ocupado era incluído nos limites da terra de Assur e dividido em províncias dirigidas por bel pihati, que dispunham de guarnições permanentes. As tropas assírias estavam, portanto, sempre a postos para sufocar as dissidências e empreender novas operações.

Por outro lado, o rei deportou numerosas populações para regiões excêntricas, a fim de separá-las de seu meio natural e impedir quaisquer veleidades de rebelião. Os prisioneiros de Babilônia foram disseminados por todo o arco de círculo montanhoso que cercava o reino a norte e a leste. Esse enorme amálgama de populações em muito contribuiu, sem dúvida, para a aramaização do império. Tiglat-Pileser pretendeu, no entanto, submetê-las a uma única jurisdição. Por isso, frequentemente, computou-as entre as pessoas da terra de Assur, submetendo-as, como tais, às mesmas contribuições e corveias. Chegou mesmo a implantar o culto de Assur na Média.

Em toda a parte praticou-se essa política de conquista e assimilação, exceto nas regiões excêntricas do planalto iraniano. E as vitórias se sucediam. Num único local, Urartu, o rei fora paralisado. Após a vitória de Comagena, em 735 a.C., tentou invadir o país, cuja capital, Turushpa, chegou a ser atacada. Apesar da derrota de Sardur, o esforço foi inútil: Urartu conservava considerável poderio, e Tiglat-Pileser III não insistiu. Tal revés não obscurece a amplitude de seus outros êxitos militares, cabendo indagar se o exército assírio não sofreu uma profunda reorganização.

Impossível evocar o reinado de Tiglat-Pileser III sem mencionar sua obra administrativa, que, segundo certos historiadores, refletiria suas mais aprofundas intenções em matéria de política interna. O rei teria procedido a uma nova divisão das províncias, fracionando as unidades demasiado vastas, a fim de diminuir o poderio da alta nobreza. Teria, portanto, revertido a evolução percorrida a partir de Shamshi-Adad V, que enfraquecera o poder real. Mas é uma hipótese apenas, sem confirmação nas fontes de que dispomos.

Certo é que Tiglat-Pileser III conseguiu perfeitamente manter as rédeas do seu mundo, canalizando as energias assírias para a conquista. E soube gerir seu imenso domínio, dosando habilmente firmeza e brandura. ATiglat Pileser III em Nimrud propósito, é sintomático verificar que as cidades fenícias, incorporadas ao império, continuaram a usufruir de grande liberdade. Cerca de 734 a.C., às vésperas da campanha contra Israel e Damasco, só se lhes interditara o comércio com a Palestina e o Egito. No resto, as autoridades locais agiam à vontade, e o fisco assírio contentava-se com a cobrança de uma percentagem sobre as mercadorias na entrada da cidade. Em caso de revolta contra os fiscais, a intervenção da legião itueia e algumas advertências prontamente restabeleciam a ordem. Não obstante, observa-se ao mesmo tempo que a chancelaria de Kalhu era cuidadosamente mantida ao corrente da evolução da situação, pois densa rede de correios sulcava o império. Um incidente num templo de Tiro, uma investida de nômades em Moab imediatamente eram comunicados à capital.

Daí em diante não houve mais um território nacional e territórios de caça, espoliados pelos exércitos assírios segundo as possibilidades do momento, e sim um império, mantido por guarnições administradas pelos governadores, que recolhiam os impostos. Esta sutil mistura de firmeza e diplomacia, disposta, em toda a medida do possível, a respeitar os interesses e franquias locais, permitiu a incorporação oficial da Babilônia ao império. Embora fosse senhor deste país a partir de 745 a.C., Tiglat-Pileser III não destronou o soberano legítimo, Nabonassar. Tampouco tomou qualquer medida contra o filho deste último. Tiglat-Pileser III só interveio quando o chefe da tribo Amukkanu, Nabu-Mukin-Zeri revoltou-se, por sua vez, e tomou o poder em 731 a.C. Em 729 a.C., o único senhor da Babilônia era o rei da Assíria. Entretanto, reduzir uma terra tão venerável, fonte de todas as tradições religiosas, à simples condição de província teria sido inabilidade. Tiglat-Pileser III não caiu nesse erro: fez-se reconhecer como rei e sua decisão foi ratificada na lista real babilônica. Quando de sua morte, em 727 a.C., todas as terras do Crescente Fértil se achavam unificadas sob o rótulo inédito de uma dupla monarquia assiro-babilônica.

O poderio do monarca assírio não era tal, contudo, que desencorajasse toda pretensão de independência. Foi o que ocorreu com Bar-Rekub de Sam'al e Oseias de Samaria. Foi Salmanasar V, filho de Tiglat-Pileser III quem os reprimiu. Samaria foi tomada em 722 a.C. e o filho de Salmanasar V, Sargão II deportou sua população para Kalhu, no Habur e para a Média. O reino de Israel foi, nesta ocasião, reduzido a província assíria. A data de 722 a.C. é duplamente simbólica: assinala uma importante inflexão da história de Israel e corresponde, ao mesmo tempo, à ascensão de um dos mais prestigiosos monarcas do antigo Oriente. Com efeito, mesmo sem ter sido o fundador do império, Sargão II contribuiu de forma decisiva para assegurar seu poderio e dar-lhe seu caráter definitivo.

 

Leituras Recomendadas

BRIGHT, J. História de Israel. 7. ed. São Paulo: Paulus, 2003.

DA SILVA, A. J. O Contexto da Obra Histórica Deuteronomista. Estudos Bíblicos, Petrópolis, n. 88, p. 11-27, 2005.

DONNER, H. História de Israel e dos povos vizinhos II. 4. ed. São Leopoldo: Sinodal/Vozes, 2006, p. 273-285; 299-362.

ECHEGARAY, J. G. O Crescente Fértil e a Bíblia. Petrópolis: Vozes, 1993, p. 137-174.

FINKELSTEIN, I.; SILBERMAN, N. A. A Bíblia não tinha razão. São Paulo: A Girafa, 2003, p. 205-307.

GALIL, G. The Chronology of the Kings of Israel and Judah. Leiden: Brill, 1996.

GARELLI, P.; NIKIPROWETZKY, V. O Oriente Próximo Asiático: impérios Mesopotâmicos-Israel. São Paulo: Pioneira-Edusp, 1982.

LEMCHE, N. P. The Israelites in History and Tradition. Louisville, Kentucky: Westminster John Knox, 1998.

LIVERANI, M. Para além da Bíblia: História antiga de Israel. São Paulo: Loyola/Paulus, 2008, p. 141-167;185-194.

PIXLEY, J. A história de Israel a partir dos pobres. 10 ed. Petrópolis: Vozes, 2008, p. 37-53; 63-67. 

SCHOORS, A. Die Königreiche Israel und Juda im 8. und 7. Jahrhundert v. Chr. Die assyrische Krise. Stuttgart: Kohlhamer, 1998.

TADMOR, H. The Inscriptions of Tiglath-Pileser III King of Assyria: Critical Edition, with Introductions, Translations and Commentary by Hayim Tadmor. Jerusalem: The Israel Academy of Sciences and Humanities, 1994.

>> Bibliografia atualizada em 04.07.2012

NEXT


Copyright © 1999-2014 Airton José da Silva. Todos os direitos reservados. Mapa do Site - Sitemap.