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As cosmogonias mais importantes são as de Heliópolis, a de Mênfis e a de Hermópolis. Durante o Reino Antigo (22575-2134 a.C.), com sua capital Mênfis, o deus criador Ptah tem o predomínio. Mas durante a quinta dinastia o sacerdócio de Heliópolis, ao norte de Mênfis, aumentou seu poder, e o deus Aton, passa a ser o principal deus criador, gerando a Ogdóade, os oito deuses primordiais. Durante o Reino Novo (1550-1070 a.C.), com sua capital em Tebas, no Médio Egito, o deus Amon, torna-se o mais importante criador segundo a teologia de Hermópolis. Estas cosmogonias mais relevantes foram preservadas nos Textos das Pirâmides (2400-2200 a.C.), nos Textos dos Sarcófagos (2200-2000 a.C.) e no Livro dos Mortos (após 1500 a.C.). A Cosmogonia de Heliópolis Heliópolis, "cidade do
sol" em grego, a bíblica On, ao sul da moderna Cairo, era o centro do
culto ao deus sol Ra. Já no Reino
Antigo Ra era conhecido como criador. Seu nome era freqüentemente Ra era o criador do céu e da terra por ser o deus sol que dá luz e calor aos seres humanos, aos animais e às plantas. Por isso ele era o deus das estações e seu aniversário caía no Dia do Ano Novo. Entretanto, ele não exerce o papel principal na cosmogonia de Heliópolis. Este papel é de Aton e da Enéade (= os nove deuses). Aton, gera, ou pela masturbação ou pela saliva, no cuspe, o
primeiro casal divino, Shu
(atmosfera) e Tefnut (umidade?), que
geram, por sua vez, Geb (a terra) e Nut
(o firmamento), Um dos Textos das Pirâmides diz o seguinte: "Atum-Khoprer, you became high on the height, you rose up as on the bnbn-stone in the Mansion of the 'Phoenix' in On, you spat out Shu, you expectorated Tefenet, and you set your arms about them as the arms of a ka-symbol, that your essence might be in them. O Atum, set your arms about the King, about this construction, and about this pyramid as the arms of a ka-symbol, that the king's essence may be in it, enduring for ever... O you Great Ennead which is in On, (namely) Atum, Shu, Tefenet, Geb, Nut, Osiris, Isis, Seth, and Nephthys; O you children of Atum, extend his goodwill (?) from you toward Atum, that he may protect this King, the he may protect this pyramid of the King and protect this construction of his from all the gods and form all the dead and prevent anything from happening evilly against it for ever"[9]. O texto abaixo, do Livro dos Mortos, esclarece a relação de Aton com Nun. O primeiro parágrafo descreve o criador, Ra-Aton. O segundo parágrafo sugere que havia outro deus ao lado de Nun no começo, transmitindo a tradição de que Ra veio à existência por si mesmo e atribui a criação a Nun e Ra, resolvendo o problema da inércia de Nun. O terceiro parágrafo identifica os oito deuses, a Ogdóade, como aspectos de Ra, ou seja, partes de seu corpo: "Eu era Aton quando eu estava sozinho no Nun: eu sou Ra em sua (primeira) aparição, quando começou a governar o que ele criou. Quem é ele? Este "Ra, quando ele começou a governar o que ele criou" significa que ele começou a aparecer como um rei, como alguém que existia antes que as colinas de Shu aparecessem, quando ele estava sobre a colina que está em Hermópolis. "Eu sou o grande deus que veio à existência por si mesmo". Quem é ele? "O grande deus que veio à existência por si mesmo" é a água. Ele é Nun, o pai dos deuses. Outra versão: ele é Ra. "Eu sou aquele que criou seus nomes, o Senhor da Enéade". Quem é ele? Ele é Ra, que criou os nomes das partes de seu corpo. Assim vieram à vida estes deuses que seguem suas pegadas"[10]. A Cosmogonia de Mênfis Mênfis, a capital dos Reinos Antigo e Médio, era o mais importante centro urbano do Egito. Ptah, assim como Amon em Tebas, era importante porque era o deus de uma capital. Com toda a probabilidade ele foi primeiro considerado criador em virtude de ser o artesão divino - os gregos o identificavam com Hefesto. Somente mais tarde a criação através da palavra ou da atividade sexual lhe foi atribuída. A partir do século XIII a.C. ele foi associado e até mesmo identificado com o deus menfita Ta-tenen, a Colina Primordial. A criação em Mênfis era concebida como uma atividade artística, mas do que um processo natural como se pensava em Heliópolis. Sendo Ptah o padroeiro dos escultores, é natural que seu processo criativo combine o "material" com o "imaterial", assim como um escultor "imprime" sua imagem mental na pedra, transformando-a numa estátua. "A criação é inteiramente explicada por um processo psicológico: a dialética do coração, pensamento e vontade, e da língua, palavra eficaz"[11]. Teologia Menfita Este texto foi encontrado na pedra Shabaka, nome do faraó etíope da 25a dinastia, que a mandou gravar no final do século VIII a.C. É uma cópia de um manuscrito mais antigo, descoberto em péssimo estado de conservação. Provavelmente o texto remonta ao Antigo Império. A pedra Shabaka está hoje no British Museum. II Aquele que se manifestou no coração, aquele que se manifestou com a língua, sob a aparência de Aton, esse é Ptah, o muito importante, que deu a vida a todos os deuses e as seus kas por este coração e por esta língua, através dos quais Horus e Tot tornaram-se Ptah. III Ora, acontece que o coração e a língua têm poder sobre todos os (outros) membros, pelo fato de um estar no corpo, o outro , na boca de todos os deuses, de todos os homens, de todos os animais, de todos os répteis de tudo quanto é animado, um concebendo o outro, decretando tudo quanto quer o primeiro. IV Sua Enéade está diante dele, sendo os dentes e os lábios, isto é, a semente e as mãos de Aton. Com efeito, a Enéade manifestou-se como sua semente e seus dedos. Mas a Enéade é, com efeito, os dentes e os lábios nesta boca que pronuncia o nome de todas as coisas, da qual Shu e Tefnut saíram e que pôs no mundo a Enéade. V Os olhos vêem, os ouvidos ouvem, o nariz respira. Eles formam o coração. É ele que transmite todo conhecimento, é a língua que repete o que o coração pensou. VI Assim todos os deuses foram postos no mundo, e a Enéade foi completada. E toda a palavra de deus se manifestou segundo o que o coração concebia e a língua ordenava. Assim são criados os kas e são determinados Hemsut, que produzem todo alimento e dão incremento a esta palavra. Quanto àquele que faz o de que gostamos, a vida lhe é certamente concedida, se ele for pacífico. Mas àquele que faz o que detestamos, a morte lhe é destinada, pois é perturbador. VII Assim foram criados todos os trabalhos e a arte, a atividade das mãos, o caminhar das pernas, o funcionamento de cada membro, segundo a ordem que o coração concebeu e que se exprimiu pela língua, e é executada em todas as coisas. VIII Portanto, denomina-se Ptah 'o autor de tudo que fez os deuses existirem'. Porque foi ele, Ta-tenen, foi ele que pôs os deuses no mundo, dos quais todas as coisas provêm, alimento e nutrição, oferendas divinas, tudo é maior do que a dos outros deuses. Assim Ptah ficou satisfeito, após tudo ter feito, ter feito toda palavra de deus. IX Ele pôs os deuses no mundo, ele construiu cidades, orientou suas oferendas, cuidou de seus santuários, formou seus corpos visíveis segundo o desejo deles. Assim, os deuses entraram em seus corpos visíveis, em toda espécie de planta, toda espécie de pedra, toda espécie de argila, em todas as coisas que crescem sobre seu relevo e através das quais podem manifestar-se. X Assim, todos os deuses reuniam-se com ele, assim como seus kas, satisfeitos e reunidos no senhor dos Dois Países.
A Cosmogonia de Hermópolis Hermópolis, no Médio Egito, foi assim chamada pelos gregos que
identificaram o deus principal da cidade, Tot com o seus deus Hermes. Tot não
faz parte da doutrina da criação da cidade. O nome egípcio da cidade é A Ogdóade consiste de quatro casais de deuses: Nun e sua esposa Naunet (águas primordiais), Huh e Hauhet (dilúvio), Kuk e Kauket (escuridão) e Amon e Amaunet (dinamismo oculto). Os machos eram representados com cabeças de sapo e as fêmeas com cabeças de serpente. As deusas não têm existência independente e nenhum casal, a não ser Amon e Amaunet, tinha um culto. A Ogdóade representa as condições existentes antes da criação, estando presentes na primeira aparição do sol. O ovo, do qual nasceram todas as coisas, é importante na cosmogonia de Hermópolis, e o sol, na sua primeira aparição como uma criança saindo de um lótus.
[8]. Cf. CLIFFORD, R. J., o. c., pp. 107-110. [9]. Pyramid Texts 246-247, sections 1652-1653 e 1655-1656. Tradução de R. O. FAULKNER, The Ancient Egyptian Pyramid Texts, Oxford, Clarendon, 1969, em CLIFFORD, R. J., o. c., p. 108. [10]. Cf. CLIFFORD, R. J., o. c., p. 109; AA.VV., A Criação e o Dilúvio segundo os textos do Oriente Médio Antigo, São Paulo, Paulus, 1990, pp. 100-101. [11]. AA.VV., A Criação e o Dilúvio..., p. 104. A tradução do texto também está nesta obra, nas pp. 104-105. |