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Como na Mesopotâmia, as cosmogonias egípcias têm grande importância nas orações e rituais, mas, ao contrário da Mesopotâmia, exercem papel fundamental também nas especulações filosóficas (obviamente todas religiosas). Não há no Egito um interesse na criação em si mesma e também não existe uma versão canônica, mas múltiplas cosmogonias convivendo paralelamente[6].
Vamos, olhar os elementos comuns às várias cosmogonias egípcias, que são cinco: · O período anterior à criação · O deus criador · A colina primordial · Os modos de manifestação do deus criador · O processo de criação A. O período anterior à criação Há dois modos de caracterizar o período anterior à criação: o modo negativo e o modo afirmativo. O modo negativo usa uma forma verbal negativa especial: n sdmt.f . No contexto da criação ele pode ser traduzido como "quando X ainda não tinha..." ou "antes que X existisse". Um exemplo: a frase "antes que o céu existisse, antes que a terra existisse" freqüentemente introduz uma série de entidades não existentes, como "antes que os homens existissem, antes que os deuses nascessem, antes que a morte existisse" etc. Especialmente significante entre as caracterizações negativas do período anterior à criação do mundo é a frase "antes que houvesse duas coisas", porque no pensamento egípcio antes da criação havia uma unidade, que não podia ser dividida em dois ou em vários. "Duas coisas" ou "milhões" exprimem ambos a diversidade do existente, que não existe na inexistência, una e indiferenciada. O deus criador faz a mediação entre o inexistente e o existente e os separa. Ele é o uno original que emerge do inexistente e marca o "começo" do processo de existência pela diferenciação de si mesmo na pluralidade do que existe e nos muitos deuses. Para se referir à unidade no reino do existente os egípcios usam a forma dual, contrapondo dois conceitos complementares: o Egito é chamado de "Duas Terras" ou de "o Alto e o Baixo Egito", o espaço é "céu e terra", a totalidade do que é pensado é "o existente e o inexistente" O modo positivo imagina o tempo anterior à criação como composto de águas sem limites (personificado como Nun), como a cheia primordial, a escuridão total. Estas imagens são derivadas da experiência de quem vive às margens do Nilo: onde a cheia do Nilo não alcançava havia o deserto estéril e silencioso. Quando a inundação anual baixava, ela deixava para trás pequenas colinas fervilhando de vida. Estas colinas, assim como rãs, lótus e ovos acompanhando nova vida deixada pelo rio , ocorrem freqüentemente como imagens de criação. Mas o inexistente não é transformado no existente e eliminado. Ele é eterno e nunca se transforma no existente. Os elementos anteriores à criação, como a cheia primordial, a escuridão, o inerte e a negação, permanecem no mundo criado de dois modos: · O primeiro modo é como o limite final, como o que está além das fronteiras, o lugar fora do limitado mundo do ser, como aparece no capítulo 175 do Livro dos Mortos onde no mundo subterrâneo - muito próximo ao inexistente - diz o recém-chegado: "Que espécie de terra é esta a que cheguei? Não tem água, não tem ar; é profundeza inescrutável, tão negra quanto a noite mais negra e nela vagueiam os homens desamparados"[7]. · O segundo modo é como presença no mundo cotidiano, como nas águas de um dique, na cheia anual quando a terra torna-se Nun e a noite torna todos os rostos irreconhecíveis, extinguindo todas as formas. O encontro com o inexistente tem dois lados, um hostil e outro regenerador: · Um hostil, quando os poderes que invadem a criação são nocivos e devem ser expulsos. Um exemplo de tais elementos primordiais da inexistência é um epíteto de Ramsés II como "aquele que fez inexistentes terras estrangeiras hostis". Outro exemplo é a confissão negativa de pecados do morto que está no capítulo 125 dos Livro dos Mortos a qual inclui a frase "não conheço o inexistente", testemunhando que não ultrapassou o limite da ordem criada. ·
O lado regenerador do
inexistente é ilustrado pela jornada noturna do sol através do oceano Enfim: o inexistente, no Egito, significa, negativamente, geralmente o que é indiferenciado, desarticulado, ilimitado; positivamente, a totalidade do que é possível, o absoluto, o definitivo. Comparado com o inexistente, o existente é claramente definido e marcado por limites e discriminações. B. O deus criador Vários deuses exercem o papel de criador no Egito: Ptah, Ra, Amon, Aton e Khnum, mas cada cosmogonia tem apenas um deus criador. O deus primordial, pouco importa qual seja, é, no começo, único e, com a criação e a diversificação, torna-se muitos. O epíteto "o uno que fez de si mesmo milhões", é aplicado ao deus criador a partir do Reino Novo. O mundo criado tem sua origem na diferenciação do uno ou pela separação de elementos unidos anteriormente. Terra e céu, antes unidos, são separados por Shu; a luz emerge das trevas, a terra das águas primordiais. Portanto, o deus criador é sempre o uno e a criação é uma autogeração. A expressão "deus criou os deuses" aparece freqüentemente nos primeiros períodos. Nos textos mais recentes a raça humana aparece ao lado dos deuses, como por exemplo, "ele que criou tudo o que existe, que fez homens e criou deuses", ou "trazendo a humanidade à existência, formando os deuses e criando tudo o que existe". Um trecho do Texto dos Sarcófagos diz: "Eu conduzi os deuses à existência com minha fragrância emanando do deus; homens são das lágrimas de meu olho". A palavra "humanidade" rmt e "lágrimas" rmit são semelhantes. O deus Ra aparece em quase
todos os relatos de criação, embora seu papel varie bastante de um para outro,
desde a função de criador até a função de Ptah cria por sua ação como deus de escultores e artesãos. Ele cria,
segundo a Teologia de Khnum, do mesmo modo, cria através de sua atividade, moldando os indivíduos e as coisas como um oleiro. Amon, cujo nome, "O Oculto", sugere transcendência, faz parte da cosmogonia de Hermópolis, tornando-se importante com a consolidação do Reino Novo. Cada sistema tem suas nuances próprias. Mênfis enfatiza o aspecto ctônico sobre o solar. Ptah de Mênfis leva o epíteto da colina primordial, Ta-tenen, que significa "a terra que surge". Na tradição de Heliópolis, por outro lado, o sol (sob os nomes de Ra-Aton-Khepri ou Ra-Harakhti) é o mais antigo demiurgo, e a deuses de outros santuários, como Amon e Khnum são atribuídas características divinas. O deus criador é sempre autogerado dentro de Nun. E do único deus criador sai a hierarquia de deuses. Mesmo a Enéade, os nove deuses que encarnam os elementos do cosmos, é uma manifestação do deus criador que se desdobra por três gerações de deuses. Aton gera os casais divinos Shu e Tefnut, Geb e Nut e os deuses Osíris, Ísis, Seth e Néftis. C. A Colina Primordial A partir da experiência da vida nova que nascia no vale do Nilo quando as águas da cheia baixavam, os egípcios desenvolveram a idéia de uma colina primordial (em alemão: Urhügel) da qual brotou toda a vida. O hieróglifo para esta idéia mostra a cheia primordial com o sol nascendo sobre ela, estilizado como uma colina, freqüentemente com degraus. A colina tem papel importante nas mais importantes cosmogonias egípcias. Em Heliópolis, Aton aparece como a colina primordial, que era às vezes chamada benben. Em Mênfis, o deus ctônico Ta-tenen, "a terra que emerge", foi amalgamado com Ptah a partir do Reino Novo. Em Hermópolis, a Ogdóade (os oito deuses) era colocada na "ilha das chamas", a colina explodindo com a vida. Outros santuários, igualmente, localizavam a colina primordial dentro de seus recintos. Associados à colina primordial estavam o templo e o trono. A criação era renovada a cada dia no templo, que assim se tornava a colina primordial. O rei, por outro lado, representando o deus na terra, doador de vida através de suas atividades, faz o papel de criador "in parvo". Assim como o criador, ele subia a colina primordial estilizada. O pedestal, geralmente com degraus, do trono, funcionava como a colina primordial. Assim, cada vez que o rei se assentava nele, especialmente na entronização, ele repetia a criação simbolicamente. D. Os modos de manifestação do deus criador Nun e a colina primordial eram anteriores à criação e passivos, enquanto que o criador aparece sob várias formas. Se a vida era pensada como uma explosão de vitalidade, então imagens biológicas era usadas: um ovo que se partia ou uma flor de lótus abrindo de manhã e fechando à noite. Serpentes também eram manifestações do poder criador: talvez pensassem a terra como encarnada em um réptil. Outra imagem era a do ganso sagrado que quebrava o ovo cósmico. Segundo os egiptólogos, todas as imagens de manifestação do deus criador se reportam a dois modelos básicos: Ptah, o deus da terra que se impõe sobre o elemento líquido e dele tira coisas inanimadas e animadas ou o deus Ra-Aton, o sol, cujo brilho é condição necessária para toda a criação (cabendo aqui também a ejaculação de seu pênis ou o brilho de seu olhar que dissipa as trevas). E. O processo de criação Há três maneiras para se criar: · Uma era a geração do casal divino Shu e Tefnut com o sêmen do criador, ejaculado pela masturbação ou, em algumas variantes, por sua saliva. Uma idéia semelhante é a que faz o jogo de palavras entre raça humana, rmt, que surge das lágrimas do deus criador, rmit. ·
Uma segunda maneira era a criação pela palavra. Ptah concebeu em
seu coração as coisas que ele quis criar e lhes deu existência através de
sua língua. Entretanto, não se deve acentuar a distinção entre a criação
por meios físicos · A terceira maneira era a atividade do artesão que construía e embelezava a sua obra. Assim, o deus Khnum, o deus artesão, o deus-oleiro, era o artista que moldava os seres humanos e os colocava como crianças no útero de suas mães. [6]. O que se segue é, em boa parte, um resumo de CLIFFORD, R. J., Creation Accounts in the Ancient Near East and in the Bible, pp. 99-116. [7]. Cf. BUDGE, E. A. W., O Livro Egípcio dos Mortos, São Paulo, Editora Pensamento, 1985, p. 463. |