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A Lei é lida e interpretada através dos profetas. Estes
têm grande importância na teologia da comunidade, pois, segundo as tendências
apocalípticas da comunidade, eles anunciaram tudo o que está acontecendo agora
e ainda acontecerá no futuro.
Mas a leitura dos profetas exige o discernimento dos
iniciados nos segredos escatológicos. Daí ser o Mestre da Justiça o seu mais habilitado intérprete.
Ao Mestre da
Justiça Deus revela "todos os
mistérios das palavras de seus servos os profetas" (1QpHab VII, 5);
ele é "o sacerdote [em cujo coração] Deus colocou [discernimento] para que ele
interpretasse todas as palavras de seus servos os profetas, através de quem ele
profetizou tudo o que aconteceria a seu povo e [à sua terra]" (1QpHab
II,8-10); ele "revelou às gerações posteriores aquilo que Deus fizera
à última geração, a congregação de traidores, aqueles que abandonaram o
caminho" (CD I, 12-13).
É assim que a comunidade se sente segura, correta, fiel, o
verdadeiro e único Israel, como reafirma a Regra da Comunidade: "Haverá uma plantação eterna, uma casa
de santidade para Israel, uma assembléia de santidade suprema para Aarão. Deverão
ser eles testemunhas da verdade no julgamento, e serão os eleitos da boa vontade que farão o resgate da terra e pagarão
aos iníquos sua recompensa. Será a muralha já tão testada, aquela preciosa
pedra angular, cujos alicerces não balançarão nem oscilarão. Será a santíssima
morada para Aarão, com o eterno conhecimento da aliança da justiça e exalará
um doce aroma. Será a casa da perfeição e da verdade em Israel, para que eles
possam estabelecer uma aliança de acordo com os preceitos eternos"(1QS
VIII,4-10).
Se a comunidade é o verdadeiro povo eleito, os outros são
os "filhos das trevas", que vivem sob o "domínio de
Satanás". São os "malditos", os "homens da falsidade",
"os que transgridem os mandamentos", os "homens do inferno", segundo a Regra da
Comunidade.
São os que "profanam o Templo", "blasfemam
contra as leis da aliança de Deus", "praticam a vingança e a maldade
contra seu irmão"; os que "saqueiam os pobres", "fazem das
viúvas suas presas", "tornam órfãs suas vítimas", segundo o
Documento
de Damasco.
São os "homens violentos que romperam a
aliança", guiados pelo "mentiroso", o "sacerdote
ímpio", cuja "ignomínia era maior que sua glória", e que
"viveu de maneira abominável em meio a toda deturpação impura",
segundo o Comentário de Habacuc.
Como uma comunidade separada, os essênios de Qumran
seguem seu próprio ritmo das festas, seus rituais de renovação da aliança,
abluções e refeição comum.
Seu calendário é solar, enquanto o calendário judaico da
época, usado pelo Templo, é o luni-solar; e seus sacrifícios são simbólicos,
sendo a própria comunidade uma oferenda permanente a Deus, já que o Templo de Jerusalém está profanado
pela usurpação macabéia.
Os essênios, que acreditam estar vivendo os momentos
decisivos da História, elaboram também uma doutrina - e até um manual - da
guerra final. Será a guerra dos filhos da luz contra os filhos das trevas,
codificada na Regra da Guerra. Nesta guerra os essênios vencerão os israelitas
desencaminhados da Lei e os estrangeiros que dominam o país.
"No
dia em que os kittin caírem, haverá
terríveis batalhas e massacres diante do Deus de Israel, pois este será o dia
designado desde os tempos antigos para a batalha da destruição dos filhos das
trevas. Nesta ocasião, a assembléia dos deuses e das hostes dos homens
combaterá, causando um enorme massacre; no dia da calamidade, os filhos da luz
combaterão a companhia das trevas em meio a gritos de uma enorme multidão, e
haverá clamor de deuses e homens para [tornar manifesto] o poder de Deus. será
realmente um tempo de [grande] tribulação para o povo redimido de Deus, mas ao
contrário de todas as suas tribulações anteriores,esta terminará
rapidamente em uma redenção que durará para sempre" (1QM I,9-12).
Como se pode ver, não é apenas uma batalha de homens; os
deuses também participam. E acreditam os essênios que "este será um tempo de salvação para os
povos
de Deus, uma era de domínio para todos os membros de sua companhia e de
destruição
eterna para toda a companhia de Satanás" (1QM I,5).
A esperança messiânica dos essênios é um pouco complexa.
Parece que eles aguardam a vinda de dois Messias - segundo alguns até mesmo
três -, um rei e um sacerdote, com o predomínio da figura sacerdotal sobre a
real. O que não é de se estranhar em uma comunidade dirigida por sacerdotes.
E pode ser que o Mestre
da Justiça, após a sua morte, tenha sido elevado por seus seguidores a uma
espécie de "profeta messiânico" ou "Messias-profeta" que
ensina a verdade à comunidade da nova aliança, na hora em que o
estabelecimento definitivo do reino já desponta no horizonte.
Para finalizar, é bom lembrarmos que as idéias
apocalípticas, que tão fortemente colorem a teologia essênia, pregam mesmo é a
mudança da ordem social em vigor. Segundo os padrões apocalípticos, essa
mudança social tem alcance mundial: "a revolução cósmica provocaria uma
revolta social".
Só que os essênios têm consciência de que os indivíduos
isolados jamais poderiam desencadear a mudança social, daí a necessidade da
ação comunitária; e de que o homem só é ainda incompetente para tal revolução
cósmica, donde a necessidade das forças divinas.
Os essênios têm esperança de alcançar benefícios
concretos dessa mudança, por isso rompem com a ordem social dominante e se
organizam segundo princípios alternativos.
A antiga solidariedade israelita baseada nas relações de
parentesco é inviável na sociedade helenizada que agora domina a Palestina. Mas
a solidariedade torna-se independente e é racionalizada em normas éticas, cuja
validade fica assegurada através de um pacto rigoroso que insiste na construção
de relações pessoais e recíprocas. Esse é o projeto dos essênios.
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atualizada em 22.03. 2009
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