Os Essênios
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6. A Teologia dos Essênios

Explicitar a teologia dos essênios não é tarefa fácil, pois os manuscritos não trazem uma exposição teológica sistemática. Além do que, corre-se o risco de se fazer teologia segundo os modelos clássicos da dogmática cristã (Deus, criação, messianismo, escatologia etc), o que não corresponde exatamente aos padrões judaicos[61].

De modo simples, abordarei apenas três aspectos da mundivisão essênia:

a) como a comunidade essênia avalia a realidade atual?

b) quais são as práticas da comunidade?

c) quais são as expectativas da comunidade em relação ao futuro?

Os essênios se vêem como a comunidade da nova aliança, como o resto de Israel, os santos que permanecem fiéis a Deus, certamente inspirados em Jr 31,31-34 , que propõe uma nova aliança, porque o projeto original faliu[62].

Isto é bem claro no Documento de Damasco, que trata das normas a serem seguidas pelos "membros da nova aliança na terra de Damasco" (CD VI,19) ou dos "homens que ingressam na nova aliança na terra de Damasco" (CD VIII,21).

Na Regra da Comunidade, quando se fala do ingresso no grupo e de seus ide­ais, é marcante o fato de que os essênios se vejam como os justos, os santos, guiados por Deus, que seguem os preceitos da Lei mosaica. Em contraposição, os outros são os ímpios, guiados por Satanás, que pervertem a Lei (1QS I-II).

Mas um dos textos mais reveladores de sua visão de mundo é o trecho da Regra da Comunidade que trata dos dois espíritos.

Segundo o documento, Deus cria o homem com dois espíritos, com os quais ele deve conviver: o espírito da verdade que nasce de uma fonte de luz e o espírito da falsidade, que nasce de uma fonte de trevas. "Ele criou o homem para governar o mundo e designou-lhe dois espíritos com os quais deverá caminhar até o advento de seu juízo final: o espírito da verdade e o espírito da falsidade. Os nascidos na verdade brotam de uma fonte de luz, mas os que nascem da falsidade brotam de uma fonte de trevas. O príncipe da luz governa todos os filhos da justiça que andam pelos caminhos da luz, mas o anjo das trevas governa os filhos da falsidade que caminham pelos caminhos das trevas" (1QS III,17-21).

Os filhos da justiça, que andam pelos caminhos da luz, têm um espírito de humildade, paciência, amor fraterno, bondade, compreensão, inteligência, discernimento, zelo pelas leis, pureza etc. Os filhos das falsidade, que andam pelos caminhos das trevas, têm um espírito de ganância, negligência, maldade, arrogância, orgulho, hipocrisia, crueldade, luxúria, insolência, engano etc (1QS IV, 2-14).

Para os filhos da justiça o julgamento divino será de saúde, vida longa, abundância, bênçãos, alegria; enquanto que para os filhos da falsidade será de flagelos, maldição, tormentos, desgraça etc.

O texto diz também que "A natureza de todos os filhos dos homens é regida por estes (dois espíritos), e no decorrer de suas vidas todas as hostes dos homens possuem uma porção de cada um deles, e andam por (ambos) os caminhos. E por eras eternas, toda a retribuição pelos seus atos será conforme a porção grande ou pequena que cada um tem destas duas divisões" (1QS IV,15-16).

"Até agora os espíritos da verdade e da falsidade lutam no coração dos homens e eles caminham tanto na sabedoria quanto na insensatez. De acordo com a porção de verdade que tem em si, o homem odeia a falsidade; e de acordo com sua herança do reino da falsidade, ele é iníquo e abomina a verdade" (1QS IV,24).

Não é preciso dizer que, naturalmente, os essênios se julgam portadores de uma porção maior de verdade que de falsidade, exatamente o contrário de seus inimigos, segundo seu julgamento.

Este dualismo teológico do texto sobre os dois espíritos - um dos mais densos de toda a literatura de Qumran - oculta/revela o conflito social que se vive na Palestina da época, e do qual os essênios participam como atores extremamente ativos. Não é à toa que seu manual da guerra, 1QM, chama-se "Guerra dos filhos da luz contra os filhos das trevas".

O bem e o mal, simbolizados como luz e trevas, não são apenas dois princípios éticos ou metafísicos abstratos e estáticos: são forças vivas atuantes dentro do homem e da sociedade[63].

A comunidade dos essênios se inspira no tema bíblico do deserto para justificar a sua opção de se retirar para a inóspita região de Qumran[64]. Claro que, além da razão teológica, há forte motivação política e estratégica para se viver em Qumran: o Mestre da Justiça tem que se retirar de Jerusalém com seus seguidores porque rompe com o governo macabeu, enfrenta-o e é perseguido. Isto inclusive terá outras conseqüências, como observa W. J. Tyloch: "As condições locais os obrigaram a introduzir uma economia coletiva e o conceito de bens comuns. Somente dessa forma puderam garantir para si próprios o mínimo necessário à sobrevivência"[65].

Mas o tema bíblico do deserto, carregado de reminiscências do projeto original da sociedade israelita, é que simbolicamente explica aos essênios as suas opções.

Diz a Regra da Comunidade, falando do cumprimento das leis que regem a sociedade essênia: "E quando estes se tornarem membros da comunidade de Israel, dentro de todas estas regras, separar-se-ão da morada dos homens sem Deus e retirar-se-ão para o deserto a fim de preparar seu caminho tal qual está escrito: 'Preparai no deserto o caminho de..., aplainai no deserto uma vereda para o nosso Deus'" (1QS VIII,12-14).

No deserto, a comunidade se aplica a ler e a interpretar a Lei. A condição mínima para alguém entrar na comunidade é a vontade de seguir todos os preceitos da Lei mosaica. O superior admitirá no grupo "todos aqueles que livremente se dedicaram à observância dos mandamentos de Deus" (1QS I,7). E qualquer desobediência aos mandamentos leva o essênio a cumprir pesadas penas: "Todo homem que ingressar no conselho da santidade (o conselho daqueles que caminham na senda da perfeição conforme o ordenado por Deus) e que por vontade própria ou por negligência transgredir uma única palavra da Lei de Moisés, em qualquer  ponto que seja, será expulso do Conselho da Comunidade e não mais retornará; nenhum homem de santidade se associará à sua propriedade ou conselho em nenhum assunto" (1QS VIII, 21-23).

O estudo da Lei é permanente, segundo a Regra da Comunidade: "E onde estiverem os dez, nunca deverá faltar um homem entre eles que estudará a Lei, dia e noite, no que concerne à conduta correta de um homem para com seu companheiro. E a congregação fará vigília em comunidade durante um terço de cada noite do ano, para ler o livro, estudar a Lei e orar junto" (1QS VI,6-8).

Os essênios entendem que a "vereda" de Is 40,3 ("aplainai no deserto uma vereda para o nosso Deus") é a Lei mosaica que a comunidade, voltando às origens, ao deserto, tem o dever de preservar: "Esta (vereda) é o estudo da Lei que ele ordenou por intermédio de Moisés, para que eles possam agir de acordo com tudo o que foi revelado de época em época, e conforme o que os profetas re­velaram pelo seu espírito santo" (1QS VIII,15).

Esta fidelidade absoluta à Lei - que é, por sinal, reinterpretada pela comunidade em vários pontos com mais rigor ainda do que no farisaísmo - é, sociologicamente falando, um recurso usado pelos essênios para distingui-los do resto de Israel e dar-lhes uma identidade.

Flávio Josefo, observando-os de fora e de longe, reconhece esta identidade projetada: "Deve-se admirar neles, se os compararmos a todos os outros adeptos da virtude, a sua prática da justiça, que não deve ter existido, de modo algum, em nenhum grupo grego nem em nenhum bárbaro, ainda que por pouco tempo, mas que se encontra entre eles desde uma data remota"[66].

Ou ainda: "São justos árbitros da cólera, homens que dominam seu arrebatamento, modelos de lealdade, artesãos da paz"[67].

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[61] VERMES, G., Os manuscritos do mar Morto, p. 49, adverte também que "tais estruturas podem distorcer os conceitos religiosos do judaísmo e, às vezes, o fazem de fato. Por exemplo, o interesse da Igreja no papel messiânico de Jesus é capaz de atribuir uma importância maior ao messianismo na religião judaica do que o justifica a evidência histórica".

[62]. O contexto em que Jeremias fala é o da expectativa criada pelas conquistas de Josias no século VII a.C., que reintegra o antigo reino do norte de Israel ao território governado por Jerusalém. Jeremias vê a necessidade de um novo pacto javista, pacto que deve ser sincero, profundo, definitivo e não apenas formal.

[63]. As cinco contraposições básicas do texto são luz x trevas, verdade x falsidade, filhos da luz x filhos das trevas, príncipe da luz x anjo das trevas, espírito da verdade x espírito da falsidade.

[64]. Os edifícios de Qumran estão a cerca de mil metros da costa do Mar Morto e a 70 metros acima de seu nível, porém, a mais de 300 metros abaixo do Mediterrâneo. Ain Feshka fica a 3 km ao sul de Qumran e as construções que servem ao empreendimento agrícola essênio ficam a 200 metros da fonte e a 300 metros do Mar Morto. Do lado oeste, a uma distância que varia de 200 a 400 metros de Qumran e de Ain Feshka, estão as rochas calcárias que seguem de norte a sul ao longo do Mar Morto, terminando em Ras al-Feshka. Estas rochas estão a cerca de 200 metros acima das duas localidades, isolando todo o terreno abaixo e impedindo a passagem dos ventos ocidentais que trariam umidade e frescor. Assim, as chuvas alcançam apenas 100 milímetros anuais (em Jerusalém, por exemplo, chove 600 milímetros por ano), a temperatura média oscila entre 1 e 48º C e a umidade relativa do ar oscila entre 40 e 67%. Na primavera e no outono sopra do leste o "hamsin", terrível vento quente do deserto. Cf. TYLOCH, W. J., O socialismo religioso dos essênios, São Paulo, Perspectiva, 1990, pp. 125-127.

[65]. Idem, ibidem, p. 137.

[66]. JOSEFO, F., Antiquitates Iudaicae XVIII, I, 20.

[67]. Idem, Bellum Iudaicum II, VIII, 135.

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