Os Essênios
Home Up Articles Biblical Languages Book Reviews History of Israel Links

Home
Up
Os Essênios

 

 

 

 

 

 

 

 

Quem é o "Homem da Mentira" que despreza a Lei, o "Sacerdote Ímpio" que persegue o Mestre da Justiça e seu grupo, a "Casa de Absalão" que omite necessário socorro ao perseguido?

1QpHab VII-VIIIEm 1QpHab VIII, 8-13 se diz ainda que o Sacerdote Ímpio no começo foi chama­do por seu verdadeiro nome mas que "quando dominou sobre Israel se envaideceu seu coração, abandonou a Deus e traiu as leis por causa das riquezas. E roubou e amontoou as riquezas dos homens violentos que se haviam rebelado contra Deus. E tomou as riquezas públicas, acrescentando sobre si um pecado grave. E cometeu atos abomináveis em toda espécie de impureza imunda".

Com todas estas características o candidato mais provável a "Sacerdote Ímpio" é o macabeu Jônatas que, além de ser líder político e militar do povo judeu apossa-se do sumo sacerdócio. E morre prisioneiro do general Trifão (1Mc 12,48-53), o que o Comentário de Habacuc interpreta como castigo por ter perseguido o Mestre da Justiça[48].

Parece possível, assim, colocar o surgimento dos essênios durante o governo de Jônatas (160-143 a.C.).

Ao romper com Jônatas, o Mestre da Justiça parte para o exílio, como diz um texto dos Cânticos de Louvor, obra atribuída ao fundador da comunidade: "Pois me expulsam de minha terra como a um pássaro do ninho; todos os meus amigos e meus conhecidos foram distanciados de mim, e me consideram como um cântaro quebrado" (1QHa XII, 8-9).

Aqui não se sabe se o Mestre da Justiça e seu grupo refugia-se imediatamente em Qumran ou se vai para o exterior, para Damasco. É que o Documento de Damasco refere-se a uma permanência dos homens de Aarão (sacerdotes) e de Israel (leigos) que permanecem fiéis à Lei na "terra de Damasco" (CD VI,5); ou se diz que eles "escaparam para a terra do norte" (CD VII, 14).

Alguns autores acham que o movimento essênio começa quando os partos invadem a Babilônia em 141-140 a.C. e muitos judeus emigram para algum lugar próximo a Damasco. O grupo do Mestre da Justiça ter-se-ia reunido a estes judeus na região de Damasco para fugir dos Macabeus que controlam a Judéia. Só mais tarde teriam passado a morar em Qumran[49].

Outros acreditam que a "terra de Damasco" seja apenas um jeito simbólico para falar de Qumran. É que o CD VII, 14-21, que fala de Damasco, se inspira em Am 5,26-27 onde, de uma ameaça no texto original, os essênios desenvolvem uma promessa de salvação, modificando o texto bíblico[50].

O Homem da Mentira mencionado nos manuscritos, pode ser alguém do grupo que se opõe, em determinado momento, ao Mestre da Justiça, e que se retira levando consigo certo número de adeptos.

Segundo F. García Martínez, elaborador da "Hipótese de Groningen", "tanto o fundador da comunidade qumrânica, o Mestre da Justiça, como o seu oponente neste conflito, o Mentiroso, foram anteriormente membros de uma mesma comunidade, e que na disputa entre ambos apenas uma pequena minoria tomará partido pelo Mestre da Justiça. Em minha opinião, a melhor maneira de compreender a indubitável relação que existe entre o movimento essênio e a comunidade qumrânica é aceitar que o grupo de Qumran se origina precisamente mediante uma ruptura ocasionada dentro do movimento essênio do qual seus membros fundadores tomavam parte"[51].

Neste primeiro momento, seja antes de se estabelecer em Qumran, seja depois, o Mestre da Justiça é perseguido pelo "Sacerdote Ímpio", pois diz 1QpHab XI, 2-8 explicando Hab 2,15: "Ai do que embriaga o seu próximo, do que transtorna o seu furor! Inclusive o embriaga para observar suas festas! Sua interpretação se refere ao Sacerdote Ímpio, que perseguiu o Mestre de Justiça para devorá-lo com o furor de sua ira no lugar de seu desterro, no tempo da festa, no descanso do dia das Expiações. Apresentou-se diante deles para devorá-los e fazê-los cair no dia do jejum, o sábado de seu descanso".

NEXT


[48]. Apesar da maioria dos especialistas identificarem o "Sacerdote Ímpio" com Jônatas, outros candidatos são propostos: Menelau, Alcimo, Simão, João Hircano I, Alexandre Janeu etc. G. Vermes lembra que cinco personagens ocupam o sumo sacerdócio durante a crise do séc. II a.C.: os aliados dos gregos Jasão (174-171 a.C.), Menelau (171-161 a.C.) e Alcimo (161-159 a.C.); e os dois irmãos macabeus Jônatas (160-143 a.C.) e Simão (143-134 a.C.). Os 3 aliados dos gregos podem ser descartados, pois nenhum deles tem boa reputação no começo de sua atuação e nenhum deles morre nas mãos de um inimigo. Os irmãos Macabeus são os únicos candidatos. A "casa de Absalão" pode ser uma referência a certo Absalão, embaixador de Judas Macabeu (2Mc 11,17) que tem um filho, Matatias, como oficial de Jônatas (1Mc 11,70) e outro, Jônatas, que é general de Simão (1Mc 13,11). Cf. VERMES, G., Os manuscritos do mar Morto, pp. 44-45.

[49]. Esta é a posição de W. F. Albright, por exemplo, citada por LAMADRID, A. G., Los descubrimientos del mar Muerto, p. 124. Cf. também as pp. 213-215.

[50]. O texto bíblico diz: "Carregareis Sacut, vosso rei, e a estrela de vosso deus, Caivã, imagens que fabricastes para vós. Eu vos deportarei para além de Damasco". Mas os essênios lêem o seguinte: "Eu exilarei o tabernáculo de vosso rei e as bases de vossas estátuas da minha tenda até Damasco", onde "rei" = comunidade, "tenda" = Lei e "bases das estátuas" = profetas.

[51]. GARCÍA MARTÍNEZ, F., Textos de Qumran, p. 9.