Os Essênios
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O Rolo de Cobre (3Q15) - que tem de ser cortado para ser aberto, de tão oxidado que está - fala de um tesouro escondido em 64 lugares diferentes da Palestina, em ouro, prata, perfumes etc. O montante alcançaria a fabulosa quantia de 65 toneladas de prata e 26 toneladas de ouro.

Seria um tesouro de fato ou só uma ficção? Até hoje nada foi achado deste pretenso tesouro. Os estudiosos se dividem na suas opiniões: seria um tesouro da comunidade de Qumran? Ou pertenceria ao Templo de Jerusalém? Neste último caso, quando e porquê o documento vai parar em Qumran?[27].

4QMMT pode parecer meio esotérico, mas é apenas a sigla de Miqsat Ma'aseh ha-Torah ou "Alguns dos Preceitos da Torá", também conhecida como "Carta Halákica". Seis cópias deste escrito são encontradas na gruta 4.4QMMT - Alguns dos Preceitos da Torá

"Os editores sugeriram que se trata de uma carta do grupo de Qumran, talvez redigida pelo Mestre da Justiça e seus companheiros, dirigida a seus oponentes em Jerusalém, incluindo o sumo sacerdote (= o Sacerdote Ímpio). O propósito da carta era esmiuçar as diferenças entre os dois partidos e convocar os oponentes para uma retificação da vida", comenta J. C. Vanderkam[28].

A carta é de grande importância para a compreensão dos essênios, pois apresenta 22 pontos da Lei em que os dois partidos divergem. A carta termina do seguinte modo: "E também nós te escrevemos alguns dos preceitos da Torá que pensamos bons para ti e para o teu povo, pois vimos em ti inteligência e conhecimento da Torá. Considera todas estas coisas e busca diante dele que ele confirme o teu conselho e afaste de ti a maquinação malvada e o conselho de Belial, de maneira que possas alegrar-te no final do tempo no descobrimento de que algumas de nossas palavras são verdadeiras. E te será contado em justiça quando fizeres o que é reto e bom diante dele, para o teu bem e o de Israel" (4QMMT 112-118)

3. A Publicação

A leitura, tradução e publicação dos manuscritos mais ou menos completos não é um grande problema para os especialistas. Mesmo os fragmentos das grutas menores são publicados até os anos 70.

O problema está nos milhares de fragmentos de mais de 500 manuscritos da gruta 4. A maioria está muito deteriorada: corroídos, curvados, enrugados, retorcidos, cobertos por mofo e elementos químicos.

Para trabalhar nestes fragmentos é constituída em 1952 uma equipe internacional no Museu Arqueológico da Palestina, em Jerusalém Oriental, pertencente à Jordânia.

O chefe da equipe é o dominicano R. de Vaux. Com ele trabalham Frank Moore Cross, americano, presbiteriano; J. T. Milik, polonês, católico; John Allegro, inglês, agnóstico; Jean Starcky, francês, católico; Patrick Skehan, americano, católico; John Strugnell, inglês, presbiteriano, depois católico; Claus-Hunno Hunziger, alemão, luterano. Predominam especialistas de Harvard (USA), École Biblique (Jerusalém) e Oxford (Inglaterra).

"Ficou aparentemente entendido que esses pesquisadores possuíam o direito oficial de publicar os textos de seus respectivos quinhões. Na lista, era óbvia, e foi nitidamente percebida, a ausência do nome de qualquer pesquisador judeu. O governo jordaniano insistiu em que nenhum judeu fosse incluído na equipe"[29].

Os trabalhos avançam em bom ritmo, já que são financiados por J. D. Rockfeller Jr., magnata americano. Mas, dois fatos intervêm: morre Rockfeller e Israel, na Guerra dos Seis Dias, em 1967, anexa Jerusalém Oriental e toma o Museu Arqueológico da Palestina onde estão os manuscritos da gruta 4. O projeto de publicação perde o compasso.

Com a morte de R. de Vaux em setembro de 1971, a função de editor-geral passa para seu colega dominicano Pierre Benoit, que por sua vez, ao morrer em 1987, passa o cargo para John Strugnell [os preparativos para esta sucessão vinham desde 1984]. Durante todos estes anos, a equipe continua pequena. Quando um pesquisador morre ou se retira, é substituído por outro e pronto. Strugnell, porém, lutará por duas coisas: pela expansão do pequeno grupo original encarregado dos manuscritos e pela inclusão nesta equipe de pesquisadores judeus.

Entretanto, cresce no meio acadêmico mundial a insatisfação com a demora na publicação dos documentos. Alguns nomes se destacam neste protesto: Robert Eisenman, da Universidade do Estado da Califórnia e Philip Davies da Sheffield University, Inglaterra. Eles tentam o acesso aos manuscritos, mas são barrados por J. Strugnell. É então que entra em cena Hershel Shanks, fundador da Biblical Archaeology Society. Através da Biblical Archaeology Review, ele inicia, a partir de 1985, poderosa campanha em favor do livre acesso dos pesquisadores aos manuscritos ainda não publicados.

Após polêmica entrevista aos jornais, em dezembro de 1990, John Strugnell é demitido do cargo pela Israel Antiquities Authority (IAA), que indica Emanuel Tov como editor-chefe e amplia a equipe para cerca de 50 pesquisadores. John Strugnell faleceu em 30 de novembro de 2007 aos 77 anos.

Contudo, dois novos fatos mudam o rumo das coisas. Em setembro de 1991 Ben Zion Wacholder e Martin Abegg do Hebrew Union College, em Cincinati, publicam A Preliminary Edition of the Unpublished Dead Sea Scrolls. Baseados no glossário elaborado pelos pesquisadores oficiais, e utilizando um computador, os dois estudiosos reconstroem textos inteiros da gruta 4. No mesmo mês, a Biblioteca Huntigton, de San Marino, Califórnia, que possui as fotos de todos os manuscritos, coloca a coleção à disposição dos estudiosos.

Em novembro de 1991 a Biblical Archaeology Society publica a Edição Fac-símile dos Manuscritos do Mar Morto, com cerca de 1800 fotografias dos manuscritos.

Neste meio tempo a IAA autoriza aos fotógrafos o acesso aos manuscritos. Estas fotografias estão disponíveis em 5 lugares: Jerusalém, Claremont e San Marino (as duas últimas na Califórnia), Cincinati e Oxford. E, finalmente, em 1993, sob os auspícios da IAA, sai a edição completa em microfilmes de todos os manuscritos do Mar Morto: The Dead Sea Scrolls on Microfiche. A Comprehensive Facsimile Edition of the Texts from the Judaean Desert, edited by Emanuel Tov with the collaboration of Stephen J. Pfann, E. J. Brill-IDC, Leiden 1993.

Bibliografia atualizada sobre os Manuscritos do Mar Morto? 

Confira Dead Sea Scrolls Bibliography!

No Brasil temos a importante obra de Florentino García Martínez, Textos de Qumran, Petrópolis, Vozes,  1995, 582 pp. É uma acurada tradução dos 250 textos mais importantes de Qumran. A tradução do espanhol para o português é do exegeta Valmor da Silva[30].

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[27]. Cf. VERMES, G., o. c., pp. 319-321; LAMADRID, A. G., Los descubrimientos del mar Muerto, pp. 83-84; MCCARTER, P. K. JR., O mistério do pergaminho de cobre, em SHANKS, H. (org.), Para compreender os manuscritos do Mar Morto, pp. 241-255.

[28]. VANDERKAM, J. C., Os manuscritos do Mar Morto hoje, p. 64.

[29]. VANDERKAM, J. C., Os manuscritos do Mar Morto hoje, p. 226. Cf., para todo o relato que se segue, as pp. 223-240 da obra citada. Vanderkam faz parte da atual equipe oficial que publica os manuscritos. Sobre a data em que Strugnell assumiu a direção da equipe, circulam na imprensa duas datas: 1984 e 1987. Foi em 1987, mas em 1984 os preparativos já tinham sido feitos. Cf. também a polêmica posição de EISENMAN, R./WISE, M., A descoberta dos manuscritos do Mar Morto, Rio de Janeiro, Ediouro, 1994. Como um bom exemplo de literatura sensacionalista sobre Qumran pode ser lido BAIGENT, M./LEIGH, R., As intrigas em torno dos manuscritos do Mar Morto, Rio de Janeiro, Imago, 1994.

[30]. "Este livro pretende oferecer ao leitor uma tradução dos 250 manuscritos mais importantes procedentes de Qumran, isto é, uma tradução praticamente completa dos manuscritos não bíblicos ali encontrados", comenta o autor no prólogo à edição brasileira de sua obra. Uma recensão da obra de Florentino García Martínez, feita por J. C. Vanderkam, pode ser lida em The Catholic Biblical Quarterly 56 (july 1994),Washington, pp. 545-546. Diz Vanderkam: "Seu Textos de Qumrán é a mais completa tradução dos manuscritos em uma língua moderna (...) Ele sustenta, contra N. Golb, que os manuscritos de Qumran fazem parte de uma biblioteca religiosa sectária, e ele discute também a identificação, origem e história da comunidade de Qumran (...) Ao contrário do irritante costume da largamente divulgada tradução inglesa de G. Vermes de uma quantidade bem menor de manuscritos, García Martínez fornece a numeração das linhas para todos os textos; e no final ele traz uma lista de todos os manuscritos de Qumran junto com informação bibliográfica sobre onde eles foram publicados, caso tenham sido (...) O resultado é uma fascinante e útil  apresentação dos  textos de Qumran, traduzidos por uma das mais importantes autoridades mundiais nos manuscritos". Cf. também GARCÍA MARTÍNEZ, F. & TREBOLLE BARRERA, J., Os homens de Qumran. Literatura, estrutura e concepções religiosas, Petrópolis, Vozes, 1996.

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