Observatório Bíblico

Terça-feira, Setembro 15, 2009

O Código Deuteronômico seria pós-josiânico?

Em Journal of Hebrew Scriptures, da Universidade de Alberta, Canadá, no vol. 9, artigo 18, de 2009, leio um artigo de Ernst Axel Knauf, do Institut für Bibelwissenschaft, da Universidade de Berna, Suiça:

Observations on Judah’s Social and Economic History and the Dating of the Laws in Deuteronomy.

Diz o Abstract:
Nadav Na’aman’s recent dating of the Deuteronomic Law by social history is methodologically seminal, even if I disagree with the substance of his argument. In this article, I advance the case that the care of Deuteronomy for the ‘displaced Judahite” (gr) fits the 6th century much better than the 7th, as Na’aman argues.

Em determinado ponto do artigo, com o subtítulo The Rule of Law, argumenta Axel Knauf que a datação tradicional - que ele chama de "o erro de De Wette" - do Código Deuteronômico (Dt 12-26) na época de Josias [629-609 AEC] é insustentável, já que o rei era a lei e não usava leis codificadas. Mais: para o rei, a existência de um código de leis oficial era uma violação de sua prerrogativa real. O ambiente em que estas leis deveriam funcionar era o de Mizpah e Betel após a destruição de Jerusalém pelos babilônios e a queda da monarquia em 586 AEC.

Em seguida, ele explica porque a proposta de De Wette, feita em 1805, acabou ficando tão popular.

Sabemos que W. M. L. de Wette sugeriu que o "Livro da Lei", que impulsionou a reforma de Josias, deveria corresponder ao Deuteronômio, ou, pelo menos, a uma forma mais primitiva deste livro. Mas, mais importante ainda foi a sua conclusão de que este Deuteronômio original foi composto na época de Josias, guardado no Templo e, em seguida, utilizado como documento de propaganda para a reforma deste rei.

A tese de W. M. L. de Wette foi publicada em 1805 em sua Dissertatio criticoexegetica... Em seguida, ele retoma suas idéias em suas Beiträge zur Einleitung in das Alte Testament [Contribuições para a Introdução ao Antigo Testamento] 2 Bde. Halle: Schimmelpfennig, 1806-1807 (reimpressão em 1 volume: Hildesheim: George Olms, 1971). Cf. SKA, J.-L. Introdução à leitura do Pentateuco: chaves para a interpretação dos cinco primeiros livros da Bíblia. São Paulo: Loyola, 2003, p. 120-121.

É claro que, no mundo acadêmico, a identidade deste Livro da Lei é extremamente controvertida. Leia o meu post A descoberta do Livro da Lei na época de Josias.

Citando Axel Knauf:
The available data from social and economic history render the ‘Josianic’ dating of Deuteronomy 12–26 untenable; the basic layer of these laws reacts to the situation at Mizpah and Bethel after 586 BCE. In monarchic Judah—as in Egypt, the king was the source of justice (cf. Ps 45:6; 72:1); he barely needed codified competition in this field. As long as there was a king in Jerusalem, he had no use for a codified law, for he was the king. The scribes, who did the actual ruling of the people, had no use for a codified law, for they had the authority of the king in whose name they ruled. They had, though, limited use for a collection of the common law (like the ‘Book of the Covenant’), because justice was meted out basically by the local community (with the possibility of appeal to the king, who would discuss the matter with his scribes). For the king, the existence of an authoritative ‘law’ besides him would have meant in infringement of his royal prerogative. The popularity of what now should be called de Wette’s error —the equation of the ‘Book of the Law’ presumably found in 622 BCE with Deuteronomy or parts of it— seems to be due to some specious attitudes towards the Bible and its world: the vain wish that the Bible could prove authoritative not only in the spiritual, but also in a literary-historical sense; the assumption of more continuity than discontinuity between the cult, literature and theology of the First and Second Temples; the crypto-fundamentalist inability to realize that Israel and Judah could, and did, exist without Torah and Prophets for rather a long time. Especially in the case of German scholars these fallacies are exacerbated by an idealistic view of the scribes and their intentions: they did not care for the people, they cared for the state, and l’état, c’était eux [as notas de rodapé 9 a 14 foram omitidas aqui]

Esclareço que o artigo de Nadav Na'aman mencionado por Axel Knauf é: "Sojourners and Levites in the Kingdom of Judah in the Seventh Century BCE,” ZAR 14 (2008), 237–279.

E que ZAR é a publicação Zeitschrift für Altorientalische und Biblische Rechtsgeschichte, do Institut für Alttestamentliche Theologie, Evangelisch-Theologische Fakultät Ludwig-Maximilians-Universität München, München [Munique], Alemanha.

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Terça-feira, Agosto 11, 2009

Linguagem herdada e significados reinventados

In any case, we need to use a proper critical descriptive language in our biblical scholarship. A dictionary is still a good idea.

Philip R. Davies faz, em The Bible and Interpretation, um alerta quanto ao uso inadequado e ingênuo que frequentemente fazemos da linguagem bíblica.

Leia: Watch Your Language!

Escrito por Philip R. Davies, Professor Emérito da Universidade de Sheffield, Reino Unido - Agosto de 2009

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Sábado, Agosto 08, 2009

O paradigma bíblico exílio-restauração caducou?

The contents of the volume reflect a shift in Persian-period studies from a paradigm of "exile and restoration" to a paradigm of "empire and colony". Issues of imperialism and resistance recur constantly, and some esssays make explicit application of postcolonial hermeneutics.

Ou seja:
Os tópicos deste volume refletem uma mudança de paradigma nos estudos sobre a época persa de "exílio e restauração" para "império e colônia". Questões sobre imperialismo e resistência ocorrem constantemente e alguns ensaios fazem uma aplicação explícita de hermenêutica pós-colonial.

Em fevereiro do ano passado chegou meu exemplar da coletânea de ensaios sobre a época persa (538-332 a.C.) e a Bíblia, organizada por Jon L. Berquist:


BERQUIST, J. L. (ed.) Approaching Yehud: New Approaches to the Study of the Persian Period. Atlanta: Society of Biblical Literature, 2007, ix + 249 p. - ISBN 9781589831452.

Mas só ontem e hoje tive oportunidade de começar a ler algumas coisas sobre ele, como a resenha de Stephen L. Cook publicada na CBQ - The Catholic Biblical Quarterly - Vol. 71, n. 3, July 2009, p. 668-670 e a quem pertence a primeira frase deste texto.

O Dr. Stephen L. Cook, do Virginia Theological Seminary, Alexandria, VA, USA, é um colega biblioblogueiro e anotou em seu Biblische Ausbildung no dia 15 de julho passado a chegada da revista: My Review of _Approaching Yehud_, edited by Jon L. Berquist (eu, morando mais longe, só a recebi em 4 de agosto, terça-feira passada).

Li também as resenhas de Armin Siedlecki e de Ernst Axel Knauf, publicadas em meados de 2008 na RBL - Review of Biblical Literature.

De qualquer maneira, o pouco que já li - tenho que ler o livro todo primeiro para falar com mais propriedade - entusiasmou-me bastante.

Especialmente a percepção de que o paradigma exílio-restauração, que sempre dominou os estudos históricos e textuais deste período, está caduco e precisa ser sublinhada a realidade de um Yehud (nome da província judaica na época persa) que passa de um domínio imperial babilônico para uma realidade de colônia da Pérsia...

E esta realidade pode ser percebida, segundo os autores, nos textos bíblicos redigidos na época, como alguns Salmos, trechos do Trito-Isaías, Zc 1-8, recortes de Ezequiel, capítulos de Provérbios etc.

Interesante na resenha de Stephen L. Cook é seu entusiasmo na apresentação do livro - uma obra com ensaios de 13 autores - e sua extrema cautela na avaliação do conjunto, especialmente quando fica preocupado com os métodos utilizados e a perspectiva hermenêutica dominante nos estudos. Ele diz por exemplo: "O'Brien in her 'Response' accurately sees this volume as presenting the biblical texts embroiled in human struggle, not theology (p. 210)".

Ora, pois eu penso exatamente assim: a teologia é um "discurso segundo" que vem dentro - e como consequência - da conflitiva vivência humana em todos os setores da vida...

Neste sentido, a resenha de Armin Siedlecki - Emory University, Atlanta, Georgia, USA - é mais interessante. Depois de introduzir a tendência dos estudos bíblicos na época persa, o resenhista fala dos métodos utilizados nos estudos de maneira positiva:

This collection of essays represents an example of the culmination of a two-decade-long development in biblical studies as well as an overture to new approaches to Persian period studies. In his introduction to this volume, Jon Berquist outlines several important changing assumptions in biblical scholarship (p. 3–5), including the dating of texts and our confidence in reconstructing preexilic history, ideas about the size of deportations from Judah to Mesopotamia in the early sixth century, the ideological and ethnic homogeneity of the postexilic community, the impact of Persian imperial politics, and the significance of economic relationships to understanding the social context of biblical literature. Thus, while the Persian period had been neglected for much of the twentieth century, the study of Persian period texts is no longer a marginal interest among biblical scholars, and the impact of Persian imperial politics on the development of biblical literature in general is increasingly acknowledged as a formative factor. John Kessler is hardly exaggerating when he speaks of a “torrent of scholarly interest in the Persian period over the past twenty years” (p. 139) (....) A common characteristic of the essays in this book is their use and often creative combination of a variety of different approaches (e.g., linguistic, literary, archaeological, social scientific).

E ele acrescenta:
Jon L. Berquist, em seu ensaio nas p. 195-202, adds postcolonial considerations that highlight “the interplay of empire and resistance” (196). His contribution is an apt concluding essay, since the three principles he outlines as central to his postcolonial reading are shared by virtually every essay in this collection: (1) rooting the experience of Yehud within the time after exile; (2) taking into account “the colonized nature of Yehud (as well as the colonized nature of much present scholarship)” (197); and (3) the conviction that all reading must be partial, since all ideologies are incomplete.

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Sábado, Junho 27, 2009

Livro de T. Römer sobre a OHDtr em debate

Em Journal of Hebrew Scriptures, da Universidade de Alberta, Canadá, no vol. 9, artigo 17, de 2009, leio um interessante texto sobre um livro de Thomas Römer que trata da Obra Histórica Deuteronomista (OHDtr):

Raymond F. Person Jr., ed. In Conversation With Thomas Römer, The So-Called Deuteronomistic History: A Sociological, Historical And Literary Introduction (London: T. & T. Clark, 2005).

Diz o Abstract:
This conversation with Thomas Römer, The So-Called Deuteronomistic History: A Sociological, Historical and Literary Introduction (London: T. & T. Clark, 2005) began in a special session of the Deuteronomistic History section of the Society of Biblical Literature at the SBL annual meeting held in November 2008, in Boston, MA. It includes an introduction by the editor and contributions by Richard Nelson, Steven McKenzie, Eckart Otto, and Yairah Amit. It concludes with a response by Thomas Römer.

Esta obra de Thomas Römer foi traduzida para o português no ano passado: A chamada história deuteronomista: Introdução sociológica, histórica e literária. Petrópolis: Vozes, 2008, 208 p. - ISBN 9788532637550.

Leia mais sobre isso em minha postagem de 2 de dezembro de 2008: Livro sobre Deuteronomista em português.

Utilizei este livro neste semestre com o Segundo Ano de Teologia no CEARP, na disciplina de Literatura Deuteronomista. Bruno, do segundo ano, fez uma resenha do livro e a apresentou no final do semestre, que terminou ontem. Portanto, é tema sobre o qual estivemos falando, nestes dias, por aqui. E que me interessa muito.

O artigo do JHS tem 49 páginas em formato pdf. Nele o editor Person explica que os quatro autores - Nelson, McKenzie, Otto e Amit - foram escolhidos para este debate exatamente por terem abordagens diferentes em relação à OHDtr:
The four reviewers were chosen, because they represent different approaches to the Deuteronomistic History. Richard Nelson represents the dual-redaction model popular among Americans; Steven McKenzie represents the “neo-Nothians,” who argue for a single individual, the Deuteronomist; Eckart Otto has been involved in the recent discussions in Europe, especially concerning how Deuteronomy relates to both the Pentateuch, Hexateuch, and the Deuteronomistic History; and Yairah Amit represents discussions of literary/narrative approaches to the Deuteronomistic History.

Os autores e textos são os seguintes:
1. Raymond F. Person, Jr., Ohio Northern Ohio Northern University, Ada, Ohio, USA: Introduction

2. Richard D. Nelson, Perkins School Of Theology, Southern Methodist University, Dallas, Texas, USA: A Response to Thomas Römer, The So-called Deuteronomistic History

3. Steven L. McKenzie, Rhodes College, Memphis, Tennessee, USA: A Response to Thomas Römer, The So-called Deuteronomistic History

4. Eckart Otto, Ludwig Maximilians Universität, Munich, GERMANY: Deuteronomy between The Pentateuch and The Deuteronomistic History: Some Remarks on Thomas Römer, The So-Called Deuteronomistic History

5. Yairah Amit, Tel Aviv University, Tel Aviv, ISRAEL: The Book of Judges: Fruit of 100 Years of Creativity

6. Thomas Römer, University Of Lausanne, Lausanne, SWITZERLAND: Response to Richard Nelson, Steven McKenzie, Eckart Otto, and Yairah Amit

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Terça-feira, Junho 09, 2009

Enquete - Poll sobre os profetas

Visite a página das enquetes bíblicas da Ayrton's Biblical Page e vote. A enquete mais recente, criada no dia 6 passado, pergunta:

Qual é o seu profeta preferido?

Escolha o seu, entre 19 possibilidades...

O meu voto já está lá.

Em quem? Ora, no "véio Jeré", claro!

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Terça-feira, Fevereiro 10, 2009

Literatura Pós-Exílica 2009: tempo sem fronteiras

A Literatura Pós-Exílica é estudada no segundo semestre do segundo ano de Teologia no CEARP. Com enorme abrangência e carga horária limitada, apenas 4 horas semanais, esta disciplina aborda 4 momentos:
1. Os profetas exílicos e pós-exílicos: de Ezequiel a Joel
2. Romance, novela, conto: de Rute a Judite
3. Historiografia: a Obra Histórica do Cronista e 1 e 2 Macabeus
4. A literatura apocalíptica: Daniel e os apocalípticos apócrifos (ou pseudepígrafos).

São privilegiados, pelo minguado do tempo, os momentos 2 e 4. Os profetas são vistos mais rapidamente, pois o profetismo já foi estudado no primeiro semestre; e, infelizmente, a historiografia é apenas mencionada. Já o item 2 é fundamental para se entender o complexo universo de conflitos em que se busca uma identidade judaica - que acaba plural - e o item 4, a apocalíptica, é a porta que deve ser cuidadosamente aberta para a entrada, no semestre seguinte, em o mundo do Novo Testamento.

Dispostos cronologicamente os livros, teríamos o seguinte panorama desta enorme literatura:
1. Os profetas exílicos e pós-exílicos
Ezequiel: 593-571 a.C.
Dêutero-Isaías: cerca de 550
Ageu: 29.8 a 18.12.520
Zacarias 1-8: 18.12.520 a 7.12.518
Isaías 56-66: entre 520 e 510
Malaquias: entre 480 e 450
Zacarias 9-14: final séc. IV - início séc. III
Joel: séc. IV ou III

2. Romance, novela, conto
Rute: ca. 450 a.C.
Jonas: ca. 450
Ester (hebr.): ca. 350
Tobias: ca. 200
Judite: ca. 150

3. Historiografia
OHCr: 1 e 2 Crônicas, Esdras e Neemias: séc. IV a. C.
1 e 2 Macabeus: entre 90 e 70

4. A literatura apocalíptica (seleção)
Daniel: 164 a. C.
O livro etiópico de Henoc: séc. II-63 a.C.
O livro eslavo de Henoc: séc. I d.C.
O livro dos Jubileus: 100 a.C.
Os Salmos de Salomão: 63-40 a.C.
Os Testamentos dos 12 Patriarcas: 130-63 a.C.
Os Oráculos Sibilinos: séc. I a.C.
Assunção de Moisés: 30 a.C.-30 d.C.
O Apocalipse siríaco de Baruc: 75-100 d.C.
O IV livro de Esdras: fim do séc. I d.C.

I. Ementa
Procura compreender a vivência dos judaítas no exílio, lendo os profetas Ezequiel e Dêutero-Isaías. De igual modo, no pós-exílio, através do estudo dos profetas da reconstrução, tais como Ageu, Zacarias, Trito-Isaías e outros. Aborda também os romances, novelas e contos (Rute, Jonas, Ester, Tobias, Judite), que apontam para a construção de uma identidade judaica, tanto dentro do país como na diáspora. A literatura histórica da época, através da Obra Histórica do Cronista (1 e 2 Crônicas, Esdras e Neemias), também é tratada. Finalmente, a significativa literatura apocalíptica, tanto canônica, como Daniel, quanto apócrifa, até Qumran. É um momento privilegiado para a preparação dos estudos neotestamentários, no contexto dos domínios persa, grego e romano sobre a Palestina. O multifacetado encontro entre o judaísmo e o helenismo é abordado em detalhes.

II. Objetivos
Possibilita ao aluno conhecer a complexidade dos vários judaísmos surgidos no pós-exílio, suas teologias e o ambiente carregado de especulações apocalípticas em que se deu a pregação de Jesus e a escrita do Novo Testamento.

III. Conteúdo Programático
1. Os profetas exílicos e pós-exílicos

  • Ezequiel
  • Dêutero-Isaías (Is 40-55)
  • Ageu
  • Zacarias 1-8
  • Trito-Isaías (Is 56-66)
  • Malaquias
  • Zacarias 9-14
  • Joel
2. Romance, novela, conto
  • Rute
  • Jonas
  • Ester
  • Tobias
  • Judite
3. Historiografia
  • A obra histórica do Cronista (1 e 2 Crônicas, Esdras e Neemias)
  • 1 e 2 Macabeus
4. A literatura apocalíptica
  • Daniel
  • Os apócrifos apocalípticos
IV. Bibliografia
Básica
ARANDA PÉREZ, G. et al. Literatura Judaica Intertestamentária. São Paulo: Ave-Maria, 2000, 522 p. - ISBN 8527606097.

SCHÖKEL, L. A.; SICRE DIAZ, J. L. Profetas 2v. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2002-2004, 1416 p. I: - ISBN 8505006992; II: - ISBN 8534919917.

SICRE, J. L. Profetismo em Israel: O Profeta, os Profetas, a Mensagem. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2008, 540 p. - ISBN 8532615880.

Complementar
ABADIE, P. O Livro de Esdras e de Neemias. São Paulo: Paulus, 1998, 80 p. - ISBN 8534911657.


ABADIE, P. O Livro das Crônicas. São Paulo: Paulus, 1998, 79 p. - ISBN 8534909318.

COLLINS, J. J.; McGINN, B.; STEIN, S. J. (eds.) Continuum History of Apocalypticism. New York: Continuum, 2003, 720 p. - ISBN 9780826415202.

COLLINS, J. J. The Apocalyptic Imagination. An Introduction to Jewish Apocalyptic Literature. 2. ed. Grand Rapids, MI/Cambridge, U.K.: Eerdmans, 1998, xiii + 337 p. - ISBN 9780802843715.

DA SILVA, A. J. Apocalíptica: busca de um tempo sem fronteiras. Acesso em: 05 fevereiro 2009.

DA SILVA, A. J. Leitura socioantropológica do Livro de Rute. Estudos Bíblicos n. 98. Petrópolis: Vozes, 2008, p. 107-120.

DIEZ MACHO A. et al. Apócrifos del Antiguo Testamento I-V. Madrid: Cristiandad, 1982-1987.

GARCÍA MARTÍNEZ, F. Textos de Qumran: Edição Fiel e Completa dos Documentos do Mar Morto. Petrópolis: Vozes, 1995, 582 p. - ISBN 8532612830.

GARCÍA MARTÍNEZ, F.; TREBOLLE BARRERA, J. Os Homens de Qumran: Literatura, Estrutura e Concepções Religiosas. Petrópolis: Vozes, 1996, 299 p. - ISBN 8532616518.

JOSEFO, F. História dos Hebreus: obra completa. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembléias de Deus, 1992, 1568 p. - ISBN 8526306413.

KILLP, N. Jonas. São Paulo: Loyola, 2008, 120 p. - ISBN 9788515035472.

KIPPENBERG, H. G. Religião e formação de classes na antiga Judéia: estudo sociorreligioso sobre a relação entre tradição e evolução social. São Paulo: Paulus, 1997, 184 p. - ISBN 8505006798.

KONINGS, J.; RIBEIRO, S. H. et al. Bíblia: Teoria e Prática. Leituras de Rute. Estudos Bíblicos, Petrópolis, n. 98, 2008.

LACOCQUE, A. Le Livre de Ruth. Genève: Labor et Fides, 2004, 154 p. - ISBN 2830911083.

MEIN, A. Ezekiel and the Ethics of Exile. Oxford: Oxford University Press, 2006, xii + 298 p. - ISBN 9780199291397.

MESTERS, C. Como ler o livro de Rute: pão, terra, família. 3. ed. São Paulo: Paulus, 1997, 80 p. - ISBN 8534906297.

REIMER, H. et al. Segundo Isaías: Is 40-55. Estudos Bíblicos, Petrópolis, n. 89, 2006.

RUSSEL, D. S. Desvelamento Divino. Uma Introdução à Apocalíptica Judaica. São Paulo: Paulus, 1997, 196 p. - ISBN 8534909792.

SHIGEYUKI N.; DE PAULA PEDRO, E. Como ler o livro de Malaquias: defender a tradição ou a vida? 3. ed. São Paulo: Paulus, 1997, 76 p. - ISBN 8534908648.

SOLANO ROSSI, L. A. Como ler o livro de Zacarias: o profeta da reconstrução. São Paulo: Paulus, 2000, 56 p. - ISBN 8534916756.

STORNIOLO, I. Como ler o livro de Daniel: reino de Deus x Imperialismo. 3. ed. São Paulo: Paulus, 1997, 104 p. - ISBN 8534903131.

STORNIOLO, I. Como ler o livro de Ester: o poder a serviço da justiça. 2. ed. São Paulo: Paulus, 1997, 72 p. - ISBN 8534904715.

STORNIOLO, I.; BORTOLINI, J. Como ler o livro de Tobias: a família gera vida. 3. ed. São Paulo: Paulus, 1997, 64 p. - ISBN 8534901651.

STORNIOLO, I. Como ler o livro de Judite: a viúva que salvou o seu povo. 2. ed. São Paulo: Paulus, 1997, 96 p. - ISBN 8534902909.

WIÉNER, C. O profeta do novo êxodo: o Dêutero-Isaías. 3. ed. São Paulo: Paulus, 1997, 88 p. - ISBN 8534904227.


Leia Mais:
Em busca da competência hermenêutica
O hábito da vigilância hermenêutica: métodos
História de Israel 2009: o pouco que sabemos
Pentateuco 2009: ainda sem um novo consenso
Literatura Deuteronomista 2009: o desafio
Literatura Profética 2009: A Voz Necessária

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Literatura Profética 2009: A Voz Necessária

Dando continuidade à exposição dos programas das disciplinas bíblicas que leciono na Teologia, abordarei agora a Literatura Profética, que é estudada no primeiro semestre do segundo ano de Teologia, com carga horária semanal de 4 horas. A Literatura Profética trabalha, além de questões globais do profetismo, uma seleção de textos dos profetas pré-exílicos. O texto que orienta a maior parte do estudo é o meu livro A Voz Necessária. Os profetas do exílio e do pós-exílio são estudados na Literatura Pós-Exílica, que vem logo no semestre seguinte.

I. Ementa
A disciplina apresenta, como ponto de partida, uma discussão sobre as origens, o teor e os limites do discurso profético israelita. Busca compreender a necessidade da profecia como resultado da ruptura provocada pelo surgimento do Estado monárquico que pressiona as tradicionais estruturas tribais de solidariedade. Aborda, em seguida, os profetas pré-exílicos, de Amós a Jeremias, passando por Oséias, Isaías, Miquéias, Habacuc e outros. Cada um é tratado no seu contexto, nas características de sua atuação e textos escolhidos são lidos. Procura-se identificar em cada um deles a sua função de crítica e de oposição ao absolutismo do Estado classista, em nome da fé em Iahweh, que exige um posicionamento solidário em favor dos mais fracos.

II. Objetivos
Coloca em discussão as características e a função do discurso profético e confronta os textos dos profetas pré-exílicos com o contexto da época, possibilitando ao aluno uma leitura atualizada e crítica dos textos proféticos em confronto com a realidade contemporânea e suas exigências.

III. Conteúdo Programático
1. A origem do movimento profético em Israel

2. O teor do discurso profético
3. Os profetas pré-exílicos
  • Amós
  • Oséias
  • Isaías
  • Miquéias
  • Sofonias
  • Naum
  • Habacuc
  • Jeremias
IV. Bibliografia
Básica
DA SILVA, A. J. A Voz Necessária: encontro com os profetas do século VIII a.C. São Paulo: Paulus, 1998, 144 p. - ISBN 8534910634.

SCHÖKEL, L. A.; SICRE DIAZ, J. L. Profetas 2v. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2002-2004, 1416 p. I: - ISBN 8505006992; II: - ISBN 8534919917.

WILSON, R. R. Profecia e Sociedade no Antigo Israel. 2. ed. revista. São Paulo: Targumim/Paulus, 2006, 392 p. - ISBN 8599459031.

Complementar
BLENKINSOPP, J. Isaiah 1-39: A New Translation with Introduction and Commentary. New York: Doubleday, 2000, 544 p. - ISBN 9780385513791.

BRUEGGEMANN, W. A Commentary on Jeremiah: Exile and Homecoming. Grand Rapids, MI/Cambridge, U.K: Eerdmans, 1998, 502 p. - ISBN 9780802802804.

CARROLL R., M. D. Amos -The Prophet and His Oracles: Research on the Book of Amos. Louisville: Westminster John Knox, 2002, xiv + 224 p. - ISBN 9780664224554.

CARROLL, R. P. Jeremiah. 2v. Sheffield: Sheffield Phoenix Press, 2006. vol. I: 512 p. - ISBN 9781905048632; vol II: 384 p. - ISBN 9781905048649.

CROATO, J. S. et al. Os livros Proféticos: a voz dos profetas e suas releituras. RIBLA, Petrópolis, n. 35/36, 2000/1/2.

DA SILVA, A. J. Arrancar e destruir, construir e plantar. A vocação de Jeremias. Estudos Bíblicos, Petrópolis, n. 15, p. 11-22, 1987.

DA SILVA, A. J. Nascido Profeta: a vocação de Jeremias. São Paulo: Paulus, 1992, 143 p. - ISBN 8505012666.

DA SILVA, A. J. Perguntas mais Freqüentes sobre o Profeta Amós. Acesso em: 05 fevereiro 2009.

DA SILVA, A. J. Perguntas mais Freqüentes sobre o Profeta Isaías. Acesso em: 05 fevereiro 2009.

DA SILVA, A. J. Perguntas mais Freqüentes sobre o Profeta Jeremias. Acesso em: 05 fevereiro 2009.

DA SILVA, A. J. Vale a Pena Ler os Profetas Hoje? Acesso em: 05 fevereiro 2009.

GAMELEIRA SOARES, S. A. et al. Profetas ontem e hoje. 3. ed. Estudos Bíblicos, Petrópolis, n. 4, 1987.

HAUSER, A. J. (ed.) Recent Research on the Major Prophets. Sheffield: Sheffield Phoenix Press, 2008, xiv + 389 p. - ISBN 9781906055134.

HOLLADAY, W. L. Jeremiah: Reading the Prophet in His Time - and Ours. Minneapolis: Augsburg Fortress, 2006, 180 p. - ISBN 9780800638993.

SCHWANTES, M. A terra não pode suportar suas palavras“ (Am 7,10): reflexão e estudo sobre Amós. São Paulo: Paulinas, 2009, 208 p. - ISBN 8535614346.

SCHWANTES, M. et al. Profetas e profecias: novas leituras. Estudos Bíblicos, Petrópolis, n. 73, 2002.

SICRE, J. L. A Justiça Social nos Profetas. São Paulo: Paulus, 1990, 670 p. - ISBN: 8505009541.

SICRE, J. L. Profetismo em Israel: O Profeta, os Profetas, a Mensagem. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2008, 540 p. - ISBN 8532615880.

SWEENEY, M. A. Zephaniah. Minneapolis: Augsburg Fortress, 2003, 250 p. - ISBN 9780800660499.


Leia Mais:
Em busca da competência hermenêutica
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Segunda-feira, Fevereiro 09, 2009

Literatura Deuteronomista 2009: o desafio

Lecionar Literatura Deuteronomista é um desafio e tanto. Enquanto as questões da formação do Pentateuco são discutidas há séculos, a noção da existência de uma Obra Histórica Deuteronomista (= OHDtr) só foi formulada muito recentemente, como se pode ver aqui.

Além disso, há dois problemas com a disciplina: carga horária exígua para estudar textos de livros tão complexos como, por exemplo, Josué ou Juízes - a disciplina tem apenas 2 horas semanais durante o primeiro semestre do segundo ano de Teologia - e uma bibliografia ainda insuficiente em português. Há excelente debate acadêmico hoje, contudo está em inglês e alemão, principalmente. Aparece na bibliografia complementar, mas é praticamente inacessível aos alunos.

Para completar, prefiro estudar o livro do Deuteronômio aqui e não no Pentateuco, também por duas razões: a disciplina Pentateuco já é por demais sobrecarregada e o Deuteronômio é a chave que abre o significado da OHDtr. Por isso, ele faz muito sentido aqui.

Por outro lado, há uma integração muito grande da Literatura Deuteronomista com três outras disciplinas bíblicas: com a História de Israel, naturalmente; com a Literatura Profética, irmã gêmea; com o Pentateuco, através do elo deuteronômico.

I. Ementa
A Obra Histórica Deuteronomista (OHDtr) tentará responder aos desafios do presente repensando o passado no final da monarquia e na situação de exílio e pós-exílio. Faz isso percorrendo toda a história da ocupação da terra, desde as vésperas da entrada em Canaã até a derrocada final da monarquia em Israel e Judá.

II. Objetivos
Pesquisar a arquitetura, as idéias basilares e a teologia da Literatura Deuteronomista como uma obra globalizante, e de cada um de seus livros, a fim de dar fundamentos para sua interpretação e atualização.

III. Conteúdo Programático
1. O contexto da Obra Histórica Deuteronomista
2. O Deuteronômio
3. O livro de Josué
4. O livro dos Juízes
5. Os livros de Samuel
6. Os livros dos Reis

IV. Bibliografia
Básica
FINKELSTEIN, I. ; SILBERMAN, N. A. A Bíblia não tinha razão. São Paulo: A Girafa, 2003, 515 p. - ISBN 8589876187.

RÖMER, T. A chamada história deuteronomista: Introdução sociológica, histórica e literária. Petrópolis: Vozes, 2008, 208 p. - ISBN 9788532637550.

SKA, J.-L. Introdução à Leitura do Pentateuco. Chaves para a Interpretação dos Cinco Primeiros Livros da Bíblia. São Paulo: Loyola, 2003, 304 p. - ISBN 8515024527.

Complementar
DA SILVA, A. J. et al. Obra Histórica Deuteronomista. Estudos Bíblicos, Petrópolis, n. 88, 2005. Acesso em: 05 fevereiro 2009.

DA SILVA, A. J. O contexto da Obra Histórica Deuteronomista. Estudos Bíblicos, Petrópolis, n. 88, p. 11-27, 2005. Acesso em: 05 fevereiro 2009.

DE PURY, A. (org.) O Pentateuco em Questão. As Origens e a Composição dos Cinco Primeiros Livros da Bíblia à luz das Pesquisas Recentes. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2002, 324 p. - ISBN 8532615899.

DE PURY, A.; RÖMER, T.; MACCHI, J.-D. (eds.) Israël construit son histoire: l’historiographie deutéronomiste à la lumière des recherches récentes. Genève: Labor et Fides, 1996, 535 p. - ISBN 2830908155.

FARIA, J. de Freitas (org.) História de Israel e as pesquisas mais recentes. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2003, p. 43-87 - ISBN 8532628281.

GONZAGA DO PRADO, J. L. A invasão/ocupação da terra em Josué: Duas leituras diferentes. Estudos Bíblicos, Petrópolis, n. 88, p. 28-36, 2005. Acesso em: 05 fevereiro 2009.

KRAMER, P. Origem e Legislação do Deuteronômio: Programa de uma sociedade sem empobrecidos e excluídos. São Paulo: Paulinas, 2009, 192 p. - ISBN 8535618155.

KNOPPERS, G. N.; McCONVILLE J. G. (eds.) Reconsidering Israel and Judah: Recent Studies on the Deuteronomistic History. Winona Lake, Indiana: Eisenbrauns, 2000, xxii + 650 p. - ISBN 9781575060378.

LIVERANI, M. Para além da Bíblia: História antiga de Israel. São Paulo: Loyola/Paulus, 2008, 544 p. - ISBN 9788515035557.

LOWERY, R. H. Os reis reformadores: culto e sociedade no Judá do Primeiro Templo. São Paulo: Paulinas, 2009, 351 p. - ISBN 8535612912.

MOREGENZTERN, I.; RAGOBERT, T. A Bíblia e seu tempo - um olhar arqueológico sobre o Antigo Testamento. 2 DVDs. Documentário baseado no livro The Bible Unearthed [A Bíblia não tinha razão], de Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman. São Paulo: História Viva - Duetto Editorial, 2007.

NAKANOSE, S. Uma história para contar... a Páscoa de Josias: metodologia do Antigo Testamento a partir de 2Rs 22,1-23,30. São Paulo: Paulinas, 2000, 344 p. - ISBN 8535606297.

PERSON, R. F. Jr. The Deuteronomic School: History, Social Setting and Literature. Atlanta: Society of Biblical Literature, 2002, xviii + 306 p. - ISBN 9781589830240.

RÖMER, T. C. (ed.) The Future of the Deuteronomistic History. Leuven: Leuven University Press/Peeters, 2000, xii + 265 p. - ISBN 9789042908581.

SCHEARING, L. S. ; MCKENZIE, S. L. (eds.) Those Elusive Deuteronomists. The Phenomenon of Pan-Deuteronomism. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1999, 288 p. - ISBN 9781841270104.

STORNIOLO, I. Como ler o livro de Josué: terra = vida, dom de Deus e conquista do povo. 3. ed. São Paulo: Paulus, 1997, 48 p. - ISBN 8534910022.

STORNIOLO, I. Como ler o livro do Deuteronômio: escolher a vida ou a morte. 4. ed. São Paulo: Paulus, 1997, 88 p. - ISBN 8534908923.

STORNIOLO, I. Como ler o livro dos Juízes: aprendendo a ler a história. 3. ed. São Paulo: Paulus, 1997, 64 p. - ISBN 8534910006.

STORNIOLO, I. Como ler os livros dos Reis: da glória à ruína. 3. ed. São Paulo: Paulus, 1999, 72 p. - ISBN 853491544X.

STORNIOLO, I.; BALANCIN, E. M. Como ler os livros de Samuel: a função da autoridade. 3. ed. São Paulo: Paulus, 1997, 56 p. - ISBN 8534907374.

VAN SETERS, J. The Pentateuch: A Social-Science Commentary. London: T & T Clark, 2004, 240 p. - ISBN 9780567080882.

VV.AA. Recenti tendenze nella ricostruzione della storia antica d'Israele. Roma: Accademia Nazionale dei Lincei, 2005, 202 p. - ISBN 8821809331.


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Domingo, Fevereiro 08, 2009

Pentateuco 2009: ainda sem um novo consenso

A disciplina Pentateuco é estudada no segundo semestre do primeiro ano, com carga horária de 4 horas semanais. Tempo que atualmente se tornou curto, pois há uma profunda crise nesta área de estudos, muito semelhante à crise da História de Israel. A teoria clássica das fontes JEDP do Pentateuco, elaborada no século XIX por Hupfeld, Kuenen, Reuss, Graf e, especialmente, Wellhausen, vem sofrendo, desde meados da década de 70 do século XX, sérios abalos, de forma que hoje muitos pesquisadores consideram impossível assumir, sem mais, este modelo como ponto de partida. O consenso wellhauseniano foi rompido, contudo, ainda não se conseguiu um novo consenso e muitas são as propostas hoje existentes para explicar a origem e a formação do Pentateuco.

I. Ementa
Oferece ao aluno um panorama da pesquisa exegética na área da formação e composição dos cinco primeiros livros da Bíblia e estuda os seus principais textos.

II. Objetivos
Familiariza o aluno com as tradições históricas de Israel e com as mais recentes pesquisas na área do Pentateuco para que o uso do texto na prática pastoral possa ser feito de forma consciente.

III. Conteúdo Programático
1. A redação do Pentateuco em três tempos
2. Novos paradigmas no estudo do Pentateuco
3. O Decálogo: Ex 20,1-17 e Dt 5,6-21
4. Códigos do Antigo Oriente Médio
5. O Código da Aliança: Ex 20,22-23,19
6. A criação: Gn 1,1-2,4a e Gn 2,4b-25
7. O pecado em quatro quadros: Gn 3,1-24
8. Caim e Abel: Gn 4,1-26
9. Patriarcas pré-diluvianos - de Adão a Noé: Gn 5,1-28.30-32
10. O dilúvio: Gn 6,5-9,19
11. A cidade e a torre de Babel: Gn 11,1-9
12. As tradições patriarcais: Gn 11,27-37,1
13. A história de José: Gn 37,5-50,26
14. O êxodo do Egito: Ex 1-15

IV. Bibliografia
Básica
DE PURY, A. (org.) O Pentateuco em Questão. As Origens e a Composição dos Cinco Primeiros Livros da Bíblia à luz das Pesquisas Recentes. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2002, 324 p. - ISBN 8532615899.

SCHWANTES, M. Projetos de esperança: meditações sobre Gênesis 1-11. São Paulo: Paulinas, 2009, 144 p. - ISBN 857311844X.

SKA, J.-L. Introdução à Leitura do Pentateuco. Chaves para a Interpretação dos Cinco Primeiros Livros da Bíblia. São Paulo: Loyola, 2003, 304 p. - ISBN 8515024527.

Complementar
BRIEND, J. (org.) A criação e o dilúvio segundo os textos do Oriente Médio Antigo. 2. ed. São Paulo: Paulus, 1990, 128 p. - ISBN 850501118X.

BOUZON, E. Uma coleção de direito babilônico pré-hammurabiano: leis do reino de Eshnunna. Petrópolis: Vozes, 2001, 2008 p. - ISBN 8532624839.

BOUZON, E. O Código de Hammurabi. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2003, 240 p. - ISBN 8532607780.

CLIFFORD, R. J. Creation Accounts in the Ancient Near East and in the Bible. Washington: The Catholic Biblical Association of America, 1994, xiii + 217 p. - ISBN 9780915170258.

CRÜSEMANN, F. A Torá. Teologia e História Social da Lei do Antigo Testamento. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2008, 599 p. - ISBN 8532623603.

CRÜSEMANN, F. Preservação da Liberdade: O Decálogo numa Perspectiva Histórico-Social. 2. ed. São Leopoldo: Sinodal/EST/CEBI, 2008, 88 p. - ISBN 8523304002.

DA SILVA, A. J. O Pentateuco e a História de Israel. In: Teologia na pós-modernidade. Abordagens epistemológica, sistemática e teórico-prática. São Paulo: Paulinas, 2007, p. 173-215. - ISBN 853561110X

DOZEMAN, T. B.; SCHMID, K. (eds.) A Farewell to the Yahwist? The Composition of the Pentateuch in Recent European Interpretation. Atlanta: Society of Biblical Literature, 2006, viii + 198 p. - ISBN 9781589831636.

GARCÍA LÓPEZ, F. O Pentateuco. São Paulo: Ave-Maria, 2004, 328 p. - ISBN 8527610574.

GRUEN, W. et al. Os dez mandamentos: várias leituras. 2. ed. Estudos Bíblicos, Petrópolis, n. 9, 1987.

GERSTENBERGER, E. et al. A Lei. Estudos Bíblicos, Petrópolis, n. 51, 1996.

KNOPPERS, G. N.; LEVINSON, B. M. (ed.) The Pentateuch as Torah: New Models for Understanding Its Promulgation and Acceptance. Winona Lake, IN: Eisenbrauns, 2007, xvi + 352 p. - ISBN 9781575061405.

MESTERS, C. Bíblia, livro da aliança. 6. ed. São Paulo: Paulus, 1997, 40 p. - ISBN 853490667X.

MESTERS, C. Paraíso Terrestre: Saudade ou Esperança? 18. ed. Petrópolis: Vozes, 2007, 152 p. - ISBN 8532603319.

PIXLEY, G. V. Êxodo. São Paulo: Paulus, 1987. Disponível online, no original espanhol, em <http://servicioskoinonia.org/biblioteca/biblica/PixleyExodo.pdf>

SCHWANTES, M. et al. A memória popular do êxodo. 2. ed. Estudos Bíblicos, Petrópolis, n. 16, 1996.

SCHWANTES, M. et al. Pentateuco. RIBLA, Petrópolis/São Leopoldo, n. 23, 1996/1.

SPARKS, K. L. The Pentateuch: An Annotated Bibliography. Grand Rapids: Baker, 2002, 160 p. - ISBN 9780801023989.

STORNIOLO, I. Mandamentos, ontem e hoje (Entrevista com Pe. Ivo Storniolo). Vida Pastoral, São Paulo, n. 149 , p. 27-29, nov./dez. 1989.

STORNIOLO, I. Como ler o livro do Levítico: a formação de um povo santo. 3. ed. São Paulo: Paulus, 1997, 72 p. - ISBN 8534906378.

STORNIOLO, I. A cidade e sua torre: bênção ou castigo? Vida Pastoral, São Paulo, n. 152 , p. 2-7, maio/junho 1990.

VAN SETERS, J. The Pentateuch: A Social-Science Commentary. London: T & T Clark, 2004, 240 p. - ISBN 9780567080882.


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Segunda-feira, Dezembro 15, 2008

De Asherah a asherah

Um artigo de Judith M. Hadley em The Bible and Interpretation, publicado agora, em dezembro de 2008, que pode interessar a estudiosos da área:

Evidence for Asherah

Asherah has appeared paired with Yahweh in positive ways. Furthermore, the early eighth century BCE prophets do not condemn Asherah worship. The worship of Asherah was evidently acceptable before the Deuteronomistic reform movement gained momentum in the seventh century BCE, but since the text of the Bible was significantly composed or edited by the Deuteronomistic school or even later, this fact is not immediately apparent.

E uma observação: Much of this article is an abridgement of Hadley 2000. Esta é uma referência a seu mais conhecido estudo sobre o assunto:

The Cult of Asherah in Ancient Israel and Judah: Evidence for a Hebrew Goddess. Cambridge: Cambridge University Press, 2000, xv + 262 p. - ISBN 9780521662352.

Que por sua vez é resultado de sua dissertação produzida em Cambridge em 1989.

Em uma resenha publicada na CBQ 63, n. 3, July 2001, p. 520-521, William J. Fulco, da Loyola Marymount University, Los Angeles, CA, elogia muito o estudo de Judith M. Hadley e o considera indispensável para toda e qualquer pesquisa posterior sobre a religião de Israel no contexto do Antigo Oriente Médio.

Agradeço a Jim West, em cujo blog vi a dica.

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Sábado, Novembro 15, 2008

Você já leu algum livro ou artigo de Ivo Storniolo?

Ivo Storniolo tratava a Bíblia com habilidade de refinado artista. Você já leu algum livro ou artigo de Ivo Storniolo, falecido em setembro deste ano?

Vá para enquetes e responda. Vá à página da Paulus e digite na busca o nome deste grande biblista para conhecer seus muitos escritos.

Se, por outro lado, quiser ver como Ivo irritava algumas pessoas, leia, por exemplo:
Claro que isto está no Google... é só buscar por "Ivo Storniolo".


Mas eu queria colocar aqui algo que não está no Google e que costumo utilizar em minhas aulas de Pentateuco como introdução ao estudo mais detalhado de Ex 20,1-17 e Dt 5,6-21, que trazem o texto do Decálogo ou, mais popularmente, Dez Mandamentos.

Durante o ano de 1989, Ivo Storniolo escreveu uma seqüência de artigos no folheto litúrgico-catequético O Domingo. O tema desses artigos foi Mandamentos, Hoje. Reproduzo aqui trechos da entrevista com Ivo Storniolo, publicada na Vida Pastoral 149 (novembro/dezembro de 1989), p. 27-29, sob o título “Mandamentos, ontem e hoje

A partir daqui, palavras do Ivo:

Ao começar a tarefa, deparei-me com a questão da metodologia: como iria abordar esse tema tão importante? De um lado eu sabia que o povo cristão já conhecia os mandamentos pelo catecismo. De outro, sabia também que muitos ignoravam o texto bíblico. Decidi então tratar o assunto comparando o texto dos mandamentos segundo o catecismo com a versão dos mandamentos segundo a Bíblia. Pronto. Para muitos, pareceu que eu estava criticando o catecismo, e até querendo “jogar o catecismo no lixo”. Não foi isso que pretendi.

(...) Mas não bastava conhecer o texto bíblico. Os mandamentos não caíram do céu, como um presente aleatório de Deus. Presente a gente dá na hora certa, para comemorar algum grande acontecimento. Os mandamentos apareceram na hora certa, para coroar a grande luta que o povo de Deus fez para conquistar uma nova forma de viver, superando um sistema de sociedade que explorava e oprimia as pessoas. Os mandamentos eram a grande carta para construir uma nova forma de vida, a fim de que todos pudessem viver de forma digna, com igualdade fundamental, preservada pela justiça, que cria fraternidade e partilha. E aqui veio uma segunda incompreensão. As pessoas não estão muito acostumadas a pensar que os textos bíblicos têm raízes. Pensam que tudo caiu do céu, sem porquê nem para quê. A tarefa que o povo de Deus fez naquele tempo deve se repetir com os mandamentos. Enquanto não fazemos a mesma luta, os mandamentos ficam sendo apenas provocação para aquela luta fundamental entre a Vida e a Morte, que se repete a cada dia na vida do povo.

E aí vem um outro ponto que, creio, foi difícil de aceitar para muitos. Os mandamentos provocam. Se não vivemos numa sociedade igualitária, fundada na justiça, os mandamento se tornam provocadores, inquietantes, e não nos deixam dormir “como anjos”.

(...) Enquanto introduzi e comentei os cinco primeiros mandamentos não houve reação (...). Do sexto mandamento para a frente a reação foi imediata. A cada mandamento uma classe determinada de pessoas se manifestou. Coisa engraçada. Meu comentário sobre o sexto mandamento afetou principalmente pessoas de Igreja. Quando expliquei que o texto bíblico falava de adultério e não de castidade recebi muita cartas perguntando: fora o adultério, a gente pode fazer tudo? Tudo o quê? Sabe lá Deus. Já prevendo isso, escrevi sobre a sexualidade, explicando bem que ela é função geradora de vida (...) Houve uma chuva de protestos (...) Aí escrevi sobre a castidade e, em boa ou má hora, achei de citar, juntos, Fernando Pessoa e Santo Agostinho. O primeiro dizendo que “tudo vale a pena, se a alma não é pequena”, e o outro: “ame e faça o que você quiser”. Foi a conta. Acharam que eu estava dizendo que pode tudo. Tudo o quê? Sei lá o que anda pela cabeça das pessoas, mas percebi que cada um lê o que quer, e não o que está escrito. A essas pessoas pergunto eu: Será que as pessoas com alma grande e que amam farão qualquer coisa? Para mim, alma é a interioridade de onde nasce o amor, faculdade que tem um discernimento superior para decidir o que fazer a cada momento, de forma muito mais perfeita do que qualquer lei ou regra. Mas a incompreensão foi grande. Será que essas pessoas perderam a alma, nunca a tiveram, ou nunca amaram?

(...) Quando escrevi sobre o sétimo mandamento a incompreensão começou [através dos grandes meios de comunicação]. Primeiro porque eu disse que “lucro é roubo puro”. Comecei a receber cartas de empresários, reclamando que o que eu dizia era generalização, que eles agora achavam duro ir à Igreja etc. Ora, nem direta nem indiretamente pretendi criticar pessoas. Pretendi fazer uma crítica estrutural ao sistema econômico em que vivemos. Um empresário entendeu isso muito bem, e me perguntou por escrito: “Como posso ser justo dentro de um sistema injusto?” Simplesmente não pode. Dentro de um sistema injusto, o máximo que se pode ser é honesto para com o sistema, e injusto para com as pessoas. Dentro dele todos nós nos tornamos, em grau maior ou menor, conivente com a injustiça, que é exatamente o contrário do projeto de Deus.

(...) Muita gente ficou irritada quando dei aquele exemplo (real) da prostituta que protege trombadinhas da polícia e depois os abençoa. Certa pessoa ficou chateadíssima e me escreveu, sem assinar: “Pronto. Agora as prostitutas viraram professoras de moral”. Pois é. Jesus dizia que as prostitutas vão nos preceder no Reino (Mt 21,31). E tem o caso daquela adúltera que, apesar de ser pega em flagrante, estava sozinha para ser linchada, e linchamento previsto por lei. E o adúltero, cadê ele? Esse nunca foi pego. O adúltero somos todos nós, hipócritas consumados, que temos a coragem de fazer Deus assinar as injustiças que cometemos. Jesus não deixou a coisa por menos, e até hoje ele continua a rabiscar no chão, desprezando nossas farisaicas questiúnculas... (leia Jo 8,1-11).

A celeuma, porém, aumentou quando escrevi que “Deus abençoa e legitima o roubo feito pelo pobre”. Pois é. Quando o pobre tem que roubar para comer, a coisa chegou às raias do desespero, e só quem passou por isso é capaz de compreender e compadecer-se (= sofrer junto), deplorando todo esse sistema social que nega os bens da vida a quem suou por ela. São Gregório Magno dizia que “quando damos aos indigentes algo de que necessitam, estamos lhes devolvendo o que lhes pertence e não estamos lhes dando o que é nosso. Estamos antes pagando uma dívida de justiça do que realizando uma obra de misericórdia” (ML 77,87). Nossa esmola é devolução, pagamento de dívida. E São João Crisóstomo diz que “o ladrão pobre nunca furta. Só retoma o que é seu".

(...) Acho que há coisas muito graves [por trás dessas críticas]. Primeiro as pessoas em geral não lêem o que está escrito, e sim o que lhes convém e não abala o modo de viver em que se acomodaram. Quando algo lhes incomoda, elas tentam a todo custo dar um jeito. Todos nós temos a nossa fronteira de ego: quem está dentro dela é nosso amigo, pensa e vive como nós. Os que pensam e vivem de forma diferente são inimigos e devem ficar fora da fronteira. Não é a melhor solução, mas é a mais cômoda. Também temos a questão do nosso quadro de referências. Ele é uma espécie de superestrutura, formada lentamente pela educação familiar, escolar, social e pelos meios de comunicação, todos eles refletindo a consciência coletiva de um determinado tempo e de suas condições. Quando chega um fato novo, ele imediatamente se choca com o quadro de referência, e aí vem a questão. Ou o fato novo encontra um lugar ou não. É uma questão vital, porque o quadro de referência dirige nossa vida toda, nossa visão e ação no mundo. Quando o fato novo não se encaixa no quadro, tendemos ou a rejeitar o fato ou a mudar o quadro de referência. Mudar não é fácil. É conversão.

(...) A compreensão dos mandamentos é extremamente chocante para nós que não vivemos numa sociedade igualitária. Aí eles se tornam provocadores, e acabamos descobrindo que temos medo da fraternidade, da justiça, da partilha, enfim, de sermos humanos como Deus quer, isto é, à imagem e semelhança dele próprio (Gn 1,26-27).

Acho que isso explica um pouco as reações. Mas devo dizer também que recebi muitos elogios e muito apoio. Muita gente simples não escreve nem carta e nem em jornal, mas fala. E eu descubro então que há muita gente aberta para Deus e para o seu projeto. A certeza de compreensão de milhões de pessoas me encoraja a caminhar para a frente, sem desanimar com os obstáculos. Afinal, se Deus não desiste de acreditar em nós, apesar de tudo, por que é que nós vamos desistir?

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Sexta-feira, Maio 02, 2008

Colóquio sobre Narrativa e Exegese Bíblica

Edições Loyola e Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, São Paulo, convidam professores e pós-graduandos em Bíblia para um colóquio com André Wénin sobre Narrativa e Exegese Bíblica.

Este evento, que é gratuito, acontecerá no dia 19 de maio de 2008, às 14h00, na Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, em São Paulo.

Inscrições até dia 16 de maio na secretaria da Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, na Av. Nazaré, 933 - Ipiranga. Informações: Tel.: (11)6162-2292 e http://www.teologia-assuncao.br/

André Wénin, Doutor em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, 1988, é Professor de Exegese do Antigo Testamento na Universidade Católica de Lovaina, Bélgica, e professor convidado da Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma, para a teologia bíblica do Pentateuco.

Área de Pesquisa: Literatura narrativa do Antigo Testamento, em especial, do Gênesis

Área de Ensino: Antigo Testamento: introdução e exegese; Hebraico Bíblico

Publicação traduzida no Brasil: O Homem Bíblico: Leituras do Primeiro Testamento. São Paulo: Loyola, 2006, 184 p. - ISBN 9788515031993.
Original: L'homme biblique: Lectures dans le premier Testament. 2. ed. Paris: Éditions du Cerf, 2004, 220 p. - ISBN 9782204074186.

André Wénin, Docteur en Sciences Bibliques (PIB, 1988), est Professeur d'exégèse de l'Ancien Testament à la Faculté de Théologie, de l'Université Catholique de Louvain-la-Neuve, Belgique. Il est également professeur invité à l'Université Grégorienne de Rome pour la théologie biblique du Pentateuque.

Domaines de recherche: Littérature narrative de l’Ancien Testament, en particulier la Genèse

Domaines d’enseignement: Ancien Testament : introduction et exégèse ; hébreu biblique.

Comunicado enviado por Cássio Murilo Dias da Silva.

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Terça-feira, Janeiro 15, 2008

Leitura do livro de Rute: algumas dificuldades

Meu artigo Leitura sócio-antropológica do livro de Rute ficou pronto no dia 27 de dezembro. Será publicado na revista Estudos Bíblicos número 98, em junho de 2008. Confira aqui a minha proposta de leitura.

Contudo, ainda não sei se consegui fazer uma leitura sócio-antropológica - que explica os fatos sociais - ou uma leitura sócio-histórica - que descreve os dados sociais relevantes! Mas o que foi feito, bem ou mal, já foi feito. A partir de março, por favor, as avaliações são bem-vindas.

O que eu gostaria de colocar a seguir, após a bibliografia e as resenhas de obras sobre Rute, são algumas questões difíceis que encontrei ao estudar o texto e ao confrontar posições de diferentes autores. Questões que eu chamaria de abertas, porque podem ter muitas respostas ou mesmo não ter nenhuma resposta mais segura, por enquanto. Como já disse, o livro é pequeno, muito bem escrito, mas tem alguns nós difíceis de desatar.

Observo que neste texto serão colocados apenas os problemas. As soluções que encontrei ou escolhi estarão na revista Estudos Bíblicos.

1. Uma questão metodológica, para começar. Já abordada em meu artigo Leitura Sócio-Antropológica da Bíblia Hebraica. Uma típica dificuldade encontrada pelos biblistas no uso da leitura sócio-antropológica é a diversidade de tendências e a grande extensão do campo das ciências sociais, o que faz com que alguém, mesmo com um conhecimento razoável das obras de Durkheim, Weber e Marx e de eventuais pensadores mais recentes, se sinta bastante perdido quando se fala de perspectivas de conflito, funcionalismo estrutural, idealismo cultural, materialismo cultural... Com freqüência não se sabe que método escolher ou misturam-se na análise várias tendências sociológicas, criando um método eclético que corre o risco de oferecer uma belíssima solução para um problema inexistente ou mal colocado. Ou, como alertam outros autores, nós, biblistas, costumamos utilizar teorias antropológicas e sociológicas que já foram abandonadas pelos especialistas nas respectivas áreas, porque consideradas superadas. Ou, em outras duras palavras: chegamos sempre atrasados, e o resultado é bastante insatisfatório.

2. Por que será que o autor/a de Rute situa os acontecimentos em Belém de Judá e os seus personagens como efrateus? Por causa da genealogia de Davi em 4,17b-22 (Booz gerou Obed, Obed gerou Jessé e Jessé gerou Davi)? Mas seria a genealogia de Davi parte da obra original ou um acréscimo posterior usado para "canonizar" o livro? Ora a genealogia tem uma perspectiva exclusivamente androcêntrica, em contraste com o restante do livro que tem uma perspectiva ginocêntrica. Como conciliar as duas coisas? Buscando outra solução, há quem pense que pode ser uma aplicação da profecia de Mq 5,1-3 (5,1a: "E tu, Belém-Éfrata, pequena entre os clãs de Judá, de ti sairá para mim aquele que governará Israel")... Porém assim não estamos, mais uma vez, arrumando uma solução "davídica" para o problema? Outros dizem: sim, solução davídica, mas não por causa deste ou daquele texto, mas porque há um "davidismo" forte entre os judaítas que elogiam Belém em contraste com Jerusalém, pois os reis (de Jerusalém) levaram Judá ao exílio, enquanto Davi (de Belém) levou as tribos acuadas e dispersas a grande país... Contudo, pergunta-se ainda: há realmente este "davidismo" no pós-exílio? Como comprová-lo? De qualquer maneira, seria viável a postura que insiste em ler o livro de Rute como uma defesa da restauração da dinastia davídica no pós-exílio?

3. Por que escolher Moab como destino da família de Elimelec e uma moabita, Rute, como a portadora da solução para a crise da família? Moab é a terra de um povo que outras tradições bíblicas vêem com hostilidade, conforme se lê em Dt 23,3-7 e Ne 13,1-3. Lembro ao leitor que em todo o livro apenas os territórios de Judá (restrito a Belém de Judá e aos efrateus) e Moab (restrito a "campos de Moab e às moabitas Orfa e Rute") são explicitamente citados.

4. A migração da família de Elimelec para Moab e a volta de Noemi e Rute a Belém poderiam estar sugerindo ao leitor uma analogia com a situação de exílio babilônico e volta para Judá e isto poderia ser usado como um argumento razoável para colocar o livro na época persa?

5. Terá mesmo existido em Yehud - nome aramaico do Judá pós-monárquico -, a partir da metade do século V a.C, a chamada comunidade do “Segundo Templo”, também apelidada pelos estudiosos, em alemão, de Bürger-Tempel-Gemeinde? Esta comunidade pode ser sumariamente definida como uma unidade social que surge da união do pessoal do templo com os proprietários de terra, criando um sistema econômico autônomo. Esta Bürger-Tempel-Gemeinde criaria, assim, uma sociedade dentro da sociedade, um restrito grupo privilegiado não co-extensivo com a sociedade mais ampla da província. Seria este o contexto no qual foi escrito o livro de Rute, que defende a tradicional estrutura do clã (mishpâhâ) constituído por um agrupamento de famílias ampliadas (bêth-'abhôth) que moram na mesma região e se auxiliam tanto no setor social quanto no econômico, constituindo uma comunidade jurídica local?

6. Na época do domínio persa sobre Yehud, há, pelo menos, outras três propostas para dar estabilidade e identidade à comunidade. Há a proposta de Zorobabel e Josué: reconstruir o Templo e o altar, narrada em Ag 1,1-15a; Zc 4,1-6a;10b-14; Esd 3,1-13; já a proposta de Esdras é manter a pureza da raça e observar a Lei, narrada em Esd 9,1-10,44; Ne 8,1-18 e, finalmente, a de Neemias, que é reconstruir Jerusalém, devolver terras alienadas e perdoar dívidas de agricultores empobrecidos, como está em Ne 5,1-19. As três vêm de Jerusalém. Ora, estas três propostas são rejeitadas ou, no mínimo, ignoradas pelo autor/a do livro de Rute. Jerusalém, o Templo, o culto, as autoridades centrais enviadas pela Pérsia nem são mencionadas no livro. Situar a estória na “época dos juízes”, não seria um modo inteligente de camuflagem literária utilizada pelo autor/a do livro de Rute para fazer sua própria proposta tão diferente das outras? E nem tão sutil assim é o desafio à proibição de casamentos com estrangeiras decretado por Esdras: Rute não é apenas uma estrangeira, ela é uma moabita. E assim é insistentemente chamada no livro: “Rute, a moabita”! Uma moabita que jamais é designada na estória como estrangeira residente (ger), merecedora de ajuda, pessoa com direitos (Dt 24,19–21), mas que é uma nokriyyâ, uma estrangeira sem nenhum direito (Rt 2,10). Para aqueles que gostam de pensar que a estória está, de fato, falando dos "dias em que julgavam os juízes”, pergunto: onde estão estes juízes no quarto ato do livro (4,1-12)? Nem mesmo se usa o verbo “julgar” (shâphat), na reunião em que se decide quem vai comprar a propriedade de Noemi e se casar com Rute ...

7. Quem lida com o livro de Rute enfrenta o grande problema de decidir se a solução proposta pelo autor/a no capítulo 4 envolve além do resgate da terra, a ge’ulla (Lv 25), também o casamento com o cunhado, o levirato (Dt 25,5-10), e qual seria a relação entre estas duas leis. Esta questão divide os especialistas, pois Rute não é judaíta, Booz não é seu cunhado, não há contrato de casamento (contrariando normas legais documentadas, na época, em papiros da comunidade judaíta de Elefantina), o texto fala o tempo todo apenas de “resgate”, a exigência de casamento com Rute feita por Booz ao parente anônimo que tem direito de resgate da terra parece extraordinária, já que os textos das leis não falam nada disso. Estaríamos lidando com uma lei anterior a Dt 25,5-10, que poderia ser chamada de “casamento redentor”, mais amplo que o levirato em sentido estrito? Ou, em sentido oposto, estaríamos lidando com uma interpretação bem mais recente de Dt 25,5-10, uma espécie de midrash da antiga lei, aplicada aqui de maneira muito mais livre? Enfim, por que as duas leis estariam interligadas, devendo ser executadas em conjunto (4,5)? Ou ainda: o livro de Rute aplica, no capítulo 4, a lei do resgate e do levirato ou apenas a lei do resgate?

8. Uma questão menor, mas que aparece em certos autores é a compra da terra que Booz faz no capítulo 4. De quem é a terra? É de Noemi ou de outra pessoa do clã para quem Noemi já vendera a terra? Há autores que dizem ser de outra pessoa. Mas onde está isto no texto?

9. Onde foi escrito o livro de Rute? Em Jerusalém? Em outro lugar? Esta é uma questão que não abordei...

10. Quem escreveu o livro de Rute? Um homem? Uma mulher? Qualquer um dos dois? O livro tem uma perspectiva ginocêntrica e isto coloca a possibilidade de uma autoria feminina. Mas seria esta autoria feminina necessária para explicar a perspectiva do livro? Sendo as duas genealogias do final - uma curta, 4,17b, e uma longa, 4,18-22 - essencialmente androcêntricas, e considerando como bastante provável que não faziam parte da obra original, quando teriam sido acrescentadas e quem o teria feito?

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