Fundamentalismo: um modo de estar no mundo
Vira e mexe, passa boi passa boiada, demora... mas, como não há nada como um dia depois do outro, o que escrevo na Ayrton's Biblical Page e no Observatório Bíblico, acaba, de vez em quando - embora não seja sempre, nem freqüente, muito menos dominante, ainda bem! - provocando reações fundamentalistas de determinados leitores indignados com a leitura acadêmica ou "científica" da Bíblia.
Certos fundamentalistas atiram para todo lado: na exegese moderna de modo geral; nos exegetas como um grupo de intelectuais que "matam" a Bíblia e que deveriam, portanto, ser silenciados, podados, extintos, em benefício da "verdadeira" Palavra de Deus; nos exegetas que chegam a ser - anacronicamente - comparados aos "doutores da Lei" do NT e responsabilizados, como aqueles (gente, acorda: foram os romanos!), pela morte de Jesus; nos exegetas "críticos" e destruidores da verdade; na ciência moderna como compreensão inadequada e até mesmo descabida da realidade; na razão humana como negação da fé... Reações que sempre procuram afirmar sua legitimidade com citações da Bíblia, com leituras literalistas dos textos bíblicos (uma tradução perrengue pode algum dia ser considerada texto literal?)... e por aí afora.
Acabo de chegar de mais uma reunião do grupo dos Biblistas Mineiros, ocorrida ontem em Belo Horizonte, reunião de dia inteiro, muito proveitosa, onde, entre outras coisas, discutimos o tema de nosso próximo número da revista Estudos Bíblicos publicada pela Vozes. Que tratará da questão dos métodos de leitura da Bíblia. E de sua necessidade. E, é claro, em nosso estudo, mesmo que captada apenas com o canto do olho, aparecerá a análise do modo fundamentalista de ver a realidade. Modo que recusa como necessária qualquer metodologia exegética porque acredita ter acesso direto e exclusivo ao significado do texto bíblico.
Se esse pessoal lesse Kant e soubesse da distinção entre "noumenon" e "fenômeno". Se esse pessoal lesse física quântica e descobrisse o quanto a realidade é diferente do que aparenta ser. Ah, mas não lê. E nem relê! Já dizia o grande R. Barthes: Quem não relê um texto, lê, em todos os textos, sempre o mesmo texto.
Quer exemplos? Leia nos comentários dos posts do Observatório Bíblico aqui e aqui.
Recomendo a releitura - quem não relê, já sabe, não? - do post que escrevi em 7 de janeiro de 2006: Fundamentalismo: um desafio ecumênico.
Além da bibliografia ali citada, vale a pena ler também:
BENEDETTI, L. R. Fundamentalismo: novidade? Cadernos de Teologia, Campinas, n. 3, 1997, p. 52-60.
BROWN, R. E. O significado crítico da Bíblia. São Paulo: Loyola, 1981, 150 p.
DIAS DA SILVA, C. M., com a colaboração de especialistas, Metodologia de exegese bíblica. 2. ed. São Paulo: Paulinas, 2003, p.319-323.
KÜNG, H.; MOLTMANN, J. A Bíblia no conflito das interpretações. Concilium, Petrópolis, v. 158, n. 8, 1980, 123 p.
Certos fundamentalistas atiram para todo lado: na exegese moderna de modo geral; nos exegetas como um grupo de intelectuais que "matam" a Bíblia e que deveriam, portanto, ser silenciados, podados, extintos, em benefício da "verdadeira" Palavra de Deus; nos exegetas que chegam a ser - anacronicamente - comparados aos "doutores da Lei" do NT e responsabilizados, como aqueles (gente, acorda: foram os romanos!), pela morte de Jesus; nos exegetas "críticos" e destruidores da verdade; na ciência moderna como compreensão inadequada e até mesmo descabida da realidade; na razão humana como negação da fé... Reações que sempre procuram afirmar sua legitimidade com citações da Bíblia, com leituras literalistas dos textos bíblicos (uma tradução perrengue pode algum dia ser considerada texto literal?)... e por aí afora.
Acabo de chegar de mais uma reunião do grupo dos Biblistas Mineiros, ocorrida ontem em Belo Horizonte, reunião de dia inteiro, muito proveitosa, onde, entre outras coisas, discutimos o tema de nosso próximo número da revista Estudos Bíblicos publicada pela Vozes. Que tratará da questão dos métodos de leitura da Bíblia. E de sua necessidade. E, é claro, em nosso estudo, mesmo que captada apenas com o canto do olho, aparecerá a análise do modo fundamentalista de ver a realidade. Modo que recusa como necessária qualquer metodologia exegética porque acredita ter acesso direto e exclusivo ao significado do texto bíblico.
Se esse pessoal lesse Kant e soubesse da distinção entre "noumenon" e "fenômeno". Se esse pessoal lesse física quântica e descobrisse o quanto a realidade é diferente do que aparenta ser. Ah, mas não lê. E nem relê! Já dizia o grande R. Barthes: Quem não relê um texto, lê, em todos os textos, sempre o mesmo texto.
Quer exemplos? Leia nos comentários dos posts do Observatório Bíblico aqui e aqui.
Recomendo a releitura - quem não relê, já sabe, não? - do post que escrevi em 7 de janeiro de 2006: Fundamentalismo: um desafio ecumênico.
Além da bibliografia ali citada, vale a pena ler também:
BENEDETTI, L. R. Fundamentalismo: novidade? Cadernos de Teologia, Campinas, n. 3, 1997, p. 52-60.
BROWN, R. E. O significado crítico da Bíblia. São Paulo: Loyola, 1981, 150 p.
DIAS DA SILVA, C. M., com a colaboração de especialistas, Metodologia de exegese bíblica. 2. ed. São Paulo: Paulinas, 2003, p.319-323.
KÜNG, H.; MOLTMANN, J. A Bíblia no conflito das interpretações. Concilium, Petrópolis, v. 158, n. 8, 1980, 123 p.
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5 Comentários:
Caro Airton,
Confesso que achei um absurdo os comentários fundamentalistas que foram feitos a respeito de suas postagens em seu blog. A leitura e estudo acadêmico da Bíblia foram passos importantes para a compreensão dos textos. E mesmo bem estudados, os exegetas e estudiosos da Bíblia são desafiados pela dinâmica do texto, de sempre fazer reflexões novas em nossas releituras. Comentários fundamentalistas em nada contribuiem para o diálogo e o respeito às diferenças. Ainda mais para duvidar de sua sabedoria após tantos anos de dedicação aos estudos bíbicos. Parabéns pelo seu blog.
Um abraço, Rômulo Luiz - ES
Por
Anônimo, Às
03/02/2007 23:13:00
Rômulo,
Obrigado pelas observações. É sempre muito estimulante ouvir quem tem discernimento.
Defendo que no Brasil os nossos esforços devam ser em prol de um maior aprofundamento bíblico, tanto no mundo acadêmico quanto no âmbito popular, com todos os recursos de que dispomos, infelizmente ainda tão escassos.
A contribuição que acredito poder dar com minha página e com o biblioblog tem sido pensada a partir destes parâmetros.
Veja o próximo post: fiquei muito contente com a menção que Jim West fez do Observatório Bíblico como um blog que vale a pena ser lido.
Por
airtonjo, Às
04/02/2007 10:15:00
Prezado Airton:
Se você fosse tão bom em português como é em latim, não extrapolaria o termo "fundamentalista" usando como um termo tão banal como os que matam em nome de Deus e assim são chamados, quando deveriam apenas serem TERRORISTAS.Fundamentalista é aquele que tem um fundamento e, se o FUNDAMENTO é motivo maior da SALVAÇÃO do mundo... CHAMEM-ME DE FUNDAMENTALISTA, pois o meu FUNDAMENTO é JESUS, seja como DOGMA ou não. NUNCA O FAREI DE MENTIROSO, usando a sua PALAVRA para fins de engrandecimento pessoal, pois quem assim agiu foi um elemento de súcia escabrosa que tem o epíteto LUCÍFER! E QUE TEVE MUITOS SEGUIDORES (1/3 DOS ANJOS DO CÉU)(Rômulo). Você não gosta de críticas, apenas de ELOGIOS, numa afronta à Bíblia de que tanto ESTUDA e não entende...
6/2/07 10:03 AM
Por
Anônimo, Às
06/02/2007 10:29:00
e impressionante como agradece elogios no entanto criticas construtivas ficam de fora de seus questionamentos, porq sera? de que temes? não responde pq?
Por
Anônimo, Às
06/02/2007 10:32:00
Estou muito grato pelo trabalho que voce tem dedicado ao longo desses anos no seu blog.
Realmente, também acredito que o fundamentalismo é um entrave para o desenvolvimento cientifico e pesquisas na Biblia.
O fundamentalista possui todo o direito do mundo de atribuir certos textos aos sobrenatural, mas também deve respeitar aqueles que usam o mesmo texto para pesquisas seculares. Da minha parte, creio ser bastante proveitoso estudar a Biblia do mesmo modo que se estuda qualquer outro documento histórico.
Por
Charles Coffer Jr., Às
06/04/2008 20:55:00
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