Warren Carter lê o evangelho de Mateus como contranarrativa (resistência), mas também como obra de esperança. É texto de resistência enquanto escrito a partir de uma comunidade que procura subsistir diante do status quo dominado pelo poder imperial romano e pelo controle da sinagoga. É então uma resistência a essas estruturas culturais. Porém, enquanto constrói uma cosmovisão e forma comunidades alternativas, indicando outro modo de vida resistente, calcado na promessa da vinda de Jesus, que esta estabelecerá o império de Deus e a salvação de forma definitiva, é um texto de esperança.
Segundo Carter, o evangelho de Mateus dirige-se a discípulos que vivem em um tempo posterior à destruição de Jerusalém por Roma no ano 70 d.C. Essa derrota é interpretada como castigo divino aos líderes religiosos por extraviarem o povo no ato de rejeitar Jesus, o agente comissionado de Deus ou Cristo. No entanto, tal castigo não é definitivo: Jesus voltará e porá fim à arrogância imperial de Roma, e estabelecerá o império de Deus.
Na situação e no ambiente da comunidade de Mateus, o fator
que influenciou mais profundamente seu desenvolvimento foi a competição e o
conflito com o chamado judaísmo formativo, um grupo, que, como a comunidade de
Mateus, estava envolvido em um processo de construção e definição social
após a destruição do Templo de Jerusalém. Na época da escrita do evangelho,
o judaísmo formativo e o judaísmo de Mateus estavam em competição e o
judaísmo formativo estava ganhando terreno. Muitos dos desenvolvimentos na vida
da comunidade de Mateus ocorriam em resposta ao impacto que um judaísmo
formativo em organização e consolidação estava tendo sobre as pessoas
e sobre seu mundo. Esta é a perspectiva do estudo de Andrew Overman.
Neste comentário o autor quer narrar a vida, morte, ressurreição
e ensinamentos de Jesus. Acredita que seu entendimento da história de Jesus
possa esclarecer as questões e os problemas que caracterizam a vida de muitos
membros de seu grupo. Mateus narra uma história sobre Jesus. Mas é importante
lembrar que ela é influenciada e moldada pela situação em que sua comunidade
vive.
O autor pauta-se
pelas mais recentes pesquisas do período do chamado Segundo Templo e do pós–guerra
de 70 para elaborar sua interpretação do escrito mateano. Da atribuição de
conteúdo mais anti-semítico que o evangelho de Mateus recebeu durante longo
período da exegese moderna, a atual compreensão dá como que uma virada e começa
a mostrar exatamente o oposto: o texto de Mateus é mais judaico do que
imaginamos; é expressão de um grupo dissidente judaico que tenta, no contexto
pluralista judaico do Segundo Templo e do pós–guerra de 70, impor sua visão
e interpretação da vértebra do judaísmo deste período: a Torá e as tradições
judaicas. O movimento de Jesus é um movimento intrajudaico: esta é a tese do
autor.
This detailed commentary presents the Gospel of Matthew
as a counter-narrative, showing that it is a work of resistance written
from and for a minority community of disciples committed to Jesus, the
agent of God's saving presence. It was written and functions to shape the
identity and lifestyle of the early community of Jesus' followers as an
alternative community that can resist the dominant authorities both in
Rome and in the synagogue. The Gospel anticipates the time when Jesus will
return and establish God;s reign over all, including the powers in Rome.