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2. Nada na Escritura Está Fixado por AcasoCerto Aristéias, que se apresenta como alexandrino, escreve a seu irmão Filócrates para contar-lhe de uma embaixada, na qual ele toma parte. Embaixada que o rei Ptolomeu II Filadelfo (285-247 a.C.) manda ao sumo sacerdote de Jerusalém, Eleazar. O motivo da embaixada: o bibliotecário de Alexandria, Demétrio de Fáleron, explica ao rei que é necessário traduzir e possuir junto aos outros livros, também a lei dos judeus. "Eu
estava presente quando [o rei] lhe perguntou: 'Quantos milhares de livros há?'
Ele respondeu: 'Mais de duzentos, rei; porém, estou me apressando para
completar em pouco tempo os quinhentos mil que me faltam. Disseram-me que as
leis dos judeus deveriam ser transcritas e formar parte de tua biblioteca'.
Disse: 'E o que te impede de fazê-lo? Tens tudo o que é necessário à tua
disposição'. Porém Demétrio respondeu: 'É preciso traduzi-las, pois
utilizam na Judéia uma escrita peculiar, como os egípcios, tanto na disposição
das letras como na pronúncia. Supõe-se que empreguem o siríaco, porém não
exatamente, mas um dialeto diferente'.
Quando o rei se informou dos pormenores, deu ordem para se escrever ao sumo
sacerdote dos judeus para que se realizasse o combinado"[11]. Após contatos epistolares entre o rei e o sumo sacerdote, a embaixada alexandrina dirige-se a Jerusalém com o objetivo de conseguir um exemplar fidedigno da Lei e idôneos tradutores. O sumo sacerdote Eleazar escolhe, então, 72 especialistas - 6 de cada uma das 12 tribos de Israel - que são regiamente recebidos em Alexandria. Em 72 dias, isolados na ilha de Faros, os 72 tradutores realizam o seu trabalho, que é lido para a comunidade judaica de Alexandria e aprovado. Os 72 tradutores voltam a Jerusalém carregados de presentes do rei. Este é o tema central da Carta, que está falando da tradução da LXX. Mas, uma série de assuntos paralelos são inseridos no seu meio:
O nome dado ao escrito, Carta de Aristéias a Filócrates é recente: aparece pela primeira vez em um manuscrito de Paris do século XIV, o Ms. Parisinus, 950, da Biblioteca Nacional de Paris. Flávio Josefo chama-o simplesmente de "O livro de Aristéias"[12] e Eusébio, na sua Praeparatio Evangelica IX, 38, refere-se ao escrito com o título de "Sobre a tradução da lei dos judeus". O autor se apresenta como um grego, adorador de Zeus: "Estes
[os judeus] adoram ao Deus que vê e cria todas as coisas, ao qual todos
veneram; nós, porém, rei, o chamamos de forma diferente, Zena e Dia"[13]. Mas o autor da Carta é um judeu de Alexandria e vive muitos anos depois dos fatos que narra. Porque, no § 28, diz ele: "Pois
estes reis [sublinhado meu] administravam todos os assuntos...". Isto indica uma época posterior ao segundo Ptolomeu. No § 182 ele diz: "O
que ainda permanece e se pode observar agora [sublinhado meu]..." Aqui também o autor se descuida e se mostra distanciado dos fatos que narra. Além do que, sua origem judaica é patente em sua visão da Lei, do Templo, dos sacerdotes e dos judeus. E o fato de ter vivido bem depois dos acontecimentos é evidente em vários anacronismos, como, por exemplo:
"Pois
casualmente coincidiu [o dia da chegada dos tradutores a Alexandria] com nossa
vitória naval sobre Antígono". Só que esta é uma derrota na batalha de Cós, em 258 a.C. Enfim, a data da Carta é difícil de ser estabelecida, mas certamente ela é do século II a.C., talvez mais para o seu final. Cerca de um século e meio posterior aos fatos que narra. "Carta" é apenas um gênero literário, muito comum na época helenística. Na verdade esta carta "é um escrito de propaganda que quer informar sobre a tradução do Pentateuco para o grego. Sua finalidade é, assim, apologética e provavelmente didática. Difícil é determinar seu destinatário principal: os próprios judeus (da Palestina ou da diáspora), os gregos (a fim de fazê-los participantes do passado glorioso de Israel) ou a corte dos Ptolomeus", comenta A. Diez Macho[14]. A concepção de Deus presente na Carta é universalista: o autor se esforça para apresentar à sociedade helenística uma imagem aceitável do Deus dos judeus, mas também de seus costumes e de sua religião, como no § 168 que diz: "Assim
pois, no que diz respeito aos preceitos que te apresentei, na medida em que se
pode expô-los tão resumidamente, tudo está orientado para a justiça e nada
na Escritura está fixado por acaso ou em forma de mitos, mas encaminhado para
que em toda a nossa vida e ações pratiquemos a justiça com todos os homens,
segundo o Deus soberano". Ou quando Aristéias diz ao rei Ptolomeu no § 15: "Concluí
que o Deus que lhes deu a lei [aos judeus] é o mesmo que governa teu
reino". Já no § 31 diz Aristéias: "Porque
esta lei, por ser divina, é a mais sábia e perfeita". Sobre os 72 tradutores diz Aristéias no § 122: "Tinham
grandes dotes para as entrevistas e discussões motivadas pela lei, zelosos da
moderação, pois esta é a melhor, descartadas a rudeza e a incultura da
mente e, ao mesmo tempo, muito afastados da idéia de desprezar os outros". Compare-se esta visão com o anti-semitismo grego de origem egípcia, visto no artigo Quem são os Judeus? Falam Autores Gregos do Século IV a.C. ao Século I d.C., e o tom apologético da carta torna-se evidente. Além disso, a exegese alegórica da Carta, como nos §§ 147-166, possibilita ao autor explicar aos gregos vários preceitos judaicos que parecem esquisitos para eles, especialmente no tocante às proibições alimentares. Interpretando alegoricamente estes preceitos, Aristéias tenta fazê-los compreensíveis e aceitáveis aos gregos. A religião de Israel torna-se humanitária, ilustrada e filantrópica[15]. 3. Demétrio, o Primeiro Autor Judeu de Fala GregaDemétrio escreve crônica. É conhecido entre os estudiosos modernos como Demétrio, o Cronógrafo[16]. Seu interesse em a narrativa bíblica é todo voltado para seu valor histórico, documentando nascimentos, genealogias etc. Demétrio é talvez o primeiro autor judeu que faz uma sistemática crítica bíblica: ele observa as dificuldades e inconsistências cronológicas, lógicas e morais presentes no texto grego da LXX, que é o texto usado por ele. Mas não se limita a observar os problemas: tenta solucioná-los. Demétrio é de Alexandria e pode ser situado na última metade do século III a.C. O que indica ser sua cidade a Alexandria dos Ptolomeus?
Além do mais, a última metade do século III a.C. é a época mais indicada para Demétrio, pois no Fragmento 6 o reinado de Ptolomeu IV Filopator (221-205 a.C.) é colocado como "terminus ad quem" do seu sumário cronológico. De Demétrio temos 6 fragmentos. Os 5 primeiros tratam de acontecimentos narrados em Gênesis e Êxodo. O sexto é um sumário cronológico de um período da história de Israel e é baseado em 2 Reis. Os 5 primeiros são transmitidos por Eusébio e o sexto por Clemente de Alexandria. Apesar dos limites do texto, a importância de Demétrio é grande porque:
O objetivo de Demétrio parece ser o de mostrar aos gregos a antigüidade de Moisés e do povo judeu e, portanto, sua credibilidade[18]. [11].
CARTA DE ARISTEAS A FILÓCRATES, 10-11, em DIEZ MACHO, A.,
Apócrifos del Antiguo Testamento II, Madrid, Cristiandad, 1983, p.
20. [12].
Cf. JOSEFO, F., Antiquitates Iudaicae
XII, 100. [13].
CARTA DE ARISTEAS A FILÓCRATES, 16, em
o. c., pp. 21-22. Zena (Zêna)
vem de zên = "viver" e
Dia (Diá), por causa da preposição
homônima diá = "através
de", faz da divindade a causa de todas as coisas. São etimologias
populares usadas para Zeus na época helenística. [14]. DIEZ MACHO, A., Apócrifos del
Antiguo Testamento II, p. 14. [15]. Cf. Idem, ibidem, p. 41; SCHÜRER,
E., The History of the Jewish People
in the Age of Jesus Christ III.1, pp. 677-687. [16].
Os "cronógrafos" ou "logógrafos" são os cronistas
antigos, precursores dos verdadeiros historiadores como Heródoto. Eles
representam a transição da poesia épica para a prosa. Suas narrativas são
em geral áridas e com pouco senso crítico. Cf. HARVEY, P. Dicionário
Oxford de literatura clássica grega e latina, Rio de Janeiro,
Jorge Zahar, 1987,
verbete Logôgrafos. [17].
Contudo, nada impede que a origem do escrito possa ser situada ou na
Palestina ou na Cirenaica. Em ambos lugares há judeus cultos e que sabem
grego. E talvez ele saiba hebraico. [18]. Cf. HOLLADAY, C. R., Fragments
from Hellenistic Jewish Authors I, pp. 53-54; SCHÜRER, E., The
History of the Jewish People in the Age of Jesus Christ III.1, pp.
513-517. Copyright © 1999-2008 Airton José da Silva. Todos os direitos reservados.
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