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No dia seguinte, estando isolado no campo com os cinco homens, diz uma voz a Esdras: "'Abre a tua boca e bebe o que quero dar-te a beber!' Abrindo a boca, vi que me era estendido um cálice que parecia cheio de água cor-de-fogo. Tomei-o e bebi! Ora, enquanto eu o bebia, o meu coração fazia brotar a inteligência e o meu coração fazia jorrar a sabedoria; meu espírito conservava a recordação e minha boca proferia a ciência (...) E eu me pus a falar e os cinco homens se puseram a escrever o que eu dizia, em criptografia, isto é, usando caracteres desconhecidos. Permanecemos lá quarenta dias!" Pode ser percebida aqui a analogia entre Esdras e Moisés: a Lei é dada por Deus a ambos em quarenta dias; os cinco escribas lembram os cinco livros da Lei... Mas chama igualmente a atenção a influência do mito grego de Dioniso. Dioniso é filho de Zeus e da princesa Sêmele, filha de Cadmo, rei de Tebas. Nascido de uma mortal, Dioniso não poderia pertencer ao panteão dos deuses olímpicos, mas o consegue através de várias peripécias. Dioniso é o deus da natureza, descobridor do vinho, o Baco dos romanos. Mas é principalmente o deus da vida que quebra todas as convenções sociais através da "loucura", do "entusiasmo". Nos rituais orgiásticos, "o êxtase dionisíaco significa antes de qualquer coisa a superação da condição humana, a descoberta da libertação completa, a obtenção de uma liberdade e de uma espontaneidade inacessíveis aos homens"[28] . Entretanto, prossegue o capítulo 14 do IV Esdras: "Nesses quarenta dias, foram escritos noventa e quatro livros. Quando os quarenta dias terminaram, o Altíssimo me falou e disse: 'Os primeiros vinte e quatro livros que foram escritos, tu os revelarás de modo que possam lê-los sábios e não sábios! Os outros setenta, tu os ocultarás, transmitindo-os aos sábios do povo! Porque neles está a fonte da inteligência e a nascente da sabedoria e o canal da recordação e o rio da ciência'. Foi o que fiz". É importante observamos que os 24 livros acessíveis a todos correspondem exatamente aos 24 livros da Bíblia Hebraica, agrupados na Lei, nos Profetas e nos Escritos: estes tratam do mundo atual. Os outros 70 livros são secretos e guardados para o fim dos tempos, o mundo que virá. Agora são acessíveis só aos justos e sábios[29]. Bibliografia
[28]. ELIADE, M., História das crenças e das idéias religiosas I,2, Rio de Janeiro, Zahar, 1978, p. 209. [29]. No Livro Etiópico de Henoc 104,12-13 se diz: "Eu conheço outro mistério, pois aos justos e sábios são dados livros para alegria, retidão e grande sabedoria. A eles se dão os livros, crêem neles e se alegram, e são retribuídos todos os justos que neles conheceram os caminhos retos". |